Consumo de álcool acende luz vermelha na saúde

Consumo de bebidas nas baladas noturnas compromete a segurança dos jovens no volante. E a aceitação social do álcool favorece o aumento do alcoolismo na população.

Consumir bebidas alcoólicas virou um hábito constante. Beber uma caipirinha ou duas, ou mais latas de cerveja todos os dias, tornou-se mais comum do que fumar alguns maços de cigarros nessa mesma freqüência. É o que aponta um levantamento do Centro de Referência em Álcool, Tabaco e Outras Drogas (Cratod), órgão da Secretaria de Estado da Saúde, realizado na Capital, no ano passado, com 339 pessoas.

De todas as pessoas que participaram da pesquisa, 250 (73,7%) disseram que já consumiram álcool na vida, dos quais 28% confirmaram a ingestão de bebidas alcoólicas diariamente, ou quase todos os dias. Já entre os 66,3% dos entrevistados que experimentaram cigarros ou derivados de tabaco, 12,4% afirmaram fumar diariamente.

Tais dados foram coletados em ações de orientação e prevenção ao uso de substâncias psicoativas – que alteram o funcionamento do sistema nervoso do usuário temporariamente, incluindo as drogas ilícitas, como maconha, cocaína e crack.

“A cultura de aceitação social da bebida alcoólica faz com que o hábito de beber eventualmente se torne cada vez mais freqüente, chegando ao ponto da pessoa não passar sequer um dia sem uma dose”, observa Luizemir Lago, diretora do Cratod, que atende aproximadamente mil pessoas dependentes de substâncias psicoativas a cada mês. “Este é o primeiro passo para a dependência em relação ao álcool”, alerta.

Conforme explica a especialista, o grau de dependência varia e pode desencadear sérios agravos, não somente à saúde da própria pessoa, como também à integridade física dos demais indivíduos na sociedade. “O ato de beber pode ocasionar diferentes desdobramentos, como sérios problemas de saúde, perda da capacidade funcional e acidentes”, diz.

Mulheres – Aliás, o consumo de álcool por mulheres está deixando para trás a ala masculina, modificando as estatísticas. “A quantidade de álcool ingerida por mulheres aumentou muito e em idades cada vez mais precoces”, ressalta o médico Sérgio Duailibi, da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad), da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Levantamento do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), também da Unifesp, apontou que o alcoolismo entre meninas de 12 a 17 anos quase dobrou entre 2001 e 2005, de 3,5% para 6%. Entre as jovens de 18 a 24 anos, o percentual subiu de 7,4% para 12,1%.

Ao contrário do que se pode imaginar, entre os homens o crescimento foi menos significativo: 6,9% para 7,3% (12 a 17 anos) e de 23,7% para 27,4% (18 a 24 anos). Na Região Sudeste, o quadro surpreende: 6,4% das jovens entre 12 e 17 anos são dependentes, ante 4,9% dos meninos.

Acidentes – As conseqüências desse cenário são graves e podem ser observadas diariamente nas páginas dos jornais, que noticiam acidentes cada vez mais inusitados. Segundo a Associação Brasileira de Medicina do Tráfego, o álcool é responsável por cerca de 60% dos acidentes de trânsito. Apesar do índice de mulheres motoristas envolvidas em acidentes de trânsito fatais ser menor do que o de homens, desde 2001 a quantidade de vítimas do sexo feminino vem aumentando.

“O número de mulheres que bebem e dirigem sempre foi menor do que o dos homens, mas está aumentando”, comenta Duailibi. Em 2001, 25.335 homens morreram no trânsito e, em 2005, foram 29.798 – alta de 17,6%. Entre as mulheres, o salto foi de 19,8% no período, passando de 5.682 para 6.805 casos. Para o especialista, o envolvimento feminino em acidentes é uma tendência.

Muitas pessoas não seguem a recomendação de não beber antes de dirigir. Pesquisa da Uniad abordou 2,5 mil motoristas paulistanos, em noites de sexta-feira, para verificar com bafômetro o nível de álcool no sangue. Resultado: 39% haviam bebido antes de pegar o volante e 20% apresentavam níveis alcoólicos superiores ao permitido por lei (0,06 g/ml). “Isso nos surpreendeu. No exterior, a taxa gira em torno de 1%”, lembra Duailibi.

Para o psicólogo-clínico Salomão Rabinovich, diretor do Centro de Psicologia Aplicada ao Trânsito (Cepat), a solução é exercer rígida fiscalização nas ruas, tornando obrigatório o uso do bafômetro, e aplicar tolerância zero para o nível de álcool no sangue. “Há pessoas que possuem um limiar de tolerância muito baixo para o álcool e que têm seus reflexos comprometidos com apenas meio copo de cerveja”, explica. “Medidas paliativas não resolverão. É preciso fazer uma revolução cultural, alterar o Código Penal e cumprir a legislação”, completa.

28% dos entrevistados pela Secretaria da Saúde afirmaram que consomem bebida alcoólica diariamente, ou quase todos os dias.

6% foi a taxa de alcoolismo registrada em meninas entre 12 e 17 anos, em 2005. O índice é o dobro do que foi verificado em 2001.

60% dos acidentes de trânsito são provocados por problemas relacionados ao álcool, segundo as estatísticas.
Autor: Maristela Orlowski
OBID Fonte: Diário do Comércio – SP