40% dos jovens já beberam em excesso

Reunir os amigos em uma mesa de bar e beber até não agüentar mais é uma atividade realizada cada vez com mais freqüência pelos jovens. Para muitas pessoas entre 18 e 24 anos, beber socialmente se transforma em ingerir álcool exageradamente.

O 1º Levantamento Nacional sobre os Padrões de Consumo de Álcool na População Brasileira, realizado pela Uniad (Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas), da Unifesp, em parceria com a Senad (Secretaria Nacional Antidrogas) mostra que cerca de 40% das pessoas entre 18 e 24 anos já beberam em excesso pelo menos uma vez. Desse total, 22% bebem uma vez por semana ou mais.

Parece pouco para quem está acostumado, mas, para os homens, cinco doses de bebida em poucas horas é quantidade considerada excessiva, ou beber em binge, termo técnico usado por especialistas.
E é esse modo de beber que os jovens brasileiros têm apresentado com mais freqüência. Beber excessivamente em um curto período causa mais problemas sociais e de saúde do que o uso contínuo da bebida.

Uma dose equivale, em média, a uma lata de cerveja de 350 ml, uma taça de vinho de 90 ml ou uma dose de destilado de 30 ml. Cada dose possui de 10 a 12 g de álcool. São cinco doses para homens e quatro para mulheres o volume considerado excessivo em curto espaço de tempo.

Pais

Especialistas afirmam que a tendência é o jovem começar a beber cada vez mais cedo. A média nacional está em 14 anos. A dependência com o álcool não é o ponto mais preocupante entre eles, já que os problemas sociais são os mais recorrentes.

“A questão é o que é considerado estar bêbado no Brasil. Para muitos, parece que significa cair de cara no chão. As pessoas têm uma noção equivocada do álcool”, afirma a psicóloga da Uniad e uma das autoras do Levantamento Nacional, Ilana Pinsky.

Entre os fatores determinantes para o contato precoce com álcool e drogas é a falta de limite. “O mais freqüente é o pai ser muito permissivo, com a idéia de que, já que o filho vai experimentar, que seja na sua frente. É preciso que os pais passem para as crianças a importância das regras e dos limites”, diz a coordenadora da clínica psiquiátrica do Hospital Estadual Mário Covas, Cíntia de Azevedo Marques Périco.

A coordenadora da ONG Cisa (Centro de Informações sobre Saúde e Álcool), Camila Silveira, afirma que há um atraso cultural no País. “Muitas vezes, as famílias fornecem álcool para os filhos como sinal de masculinidade ou na crença de que os jovens não vão exagerar depois.”
Outra questão é o exemplo dos pais. “Quando os filhos presenciam o exagero dentro de casa, a situação passa a ser tratada como normal”, alerta Camila.
Gastar quase todo salário mensal em bebidas é comum

O editor de vídeos R.Z.C., 24 anos, assume que bebe todos os dias e em qualquer horário. “Meu pai é alcoólatra. Em casa, não temos horário para comer. É tudo uma bagunça. Sinto falta de uma estrutura familiar”, diz.

Ele revela que seu círculo de amizades é restrito a pessoas que bebem. “Vou ao bar todos os dias e deixo lá 80% do que ganho no mês. Num período de três horas, bebo três doses de bebida destilada e duas cervejas, além de fumar dois maços de cigarro por dia.” A quantidade equivale ao considerado beber excessivamente em curto período.

R.Z.C. afirma que, quando está no bar com seus amigos, se transforma em outra pessoa. “Sou um personagem quando bebo. Fico engraçado, divertido. Mas na verdade, sou triste. Sempre falo que estou ótimo, mas não é verdade. É uma fuga da realidade.”

Vitor Giglio, 22 anos, também gasta muito, cerca de 70% do salário no bar. “Antes eu bebia todos os dias. Agora estou bebendo três vezes por semana”, conta.
O jovem assume ter problemas de saúde devido ao uso abusivo de álcool. “Quando fico doente, não é por causa da bebida, mas demoro para sarar por não parar de beber. Tive uma crise forte de gastrite e vou ao médico para saber se está associado ao álcool. Se precisar parar de beber, paro, mas será triste”.

Mais de 25% dos acidentes de trânsito têm relação com o álcool

Que beber e dirigir não combinam todos já sabem. Só que a realidade está longe do ideal. Mais de um quarto dos acidentes de trânsito com morte estão associados ao álcool, segundo dados do 1º Levantamento Nacional sobre os Padrões de Consumo de Álcool na População Brasileira.
Esse levantamento é refletido no estudante Vitor Giglio, 22 anos, que confessa já ter sofrido dois acidentes de trânsito no mesmo ano por estar sob efeito de álcool. “Uma vez cochilei e bati em um canteiro. Da outra vez, estava indo de um bar para outro, perdi a direção e bati no muro. Nunca machuquei ninguém, foram batidas leves.”

O jornalista G.D., 23 anos, relaciona a bebida à música. “Tenho o hábito de beber desde os 16 anos. Faço parte de uma banda de rock. A música leva a essa vida boêmia.” Ele conta que já sofreu vários acidentes por dirigir alcoolizado. “Já dormi no volante e bati de frente em um carro parado.”

O jovem afirma que, se estivesse no lugar de sua mãe, já o teria trancado em casa ou o mandado embora. “Ela sempre me dá lição de moral, mas nunca tira o carro ou corta a mesada. Precisamos de limite e estrutura familiar. Não sou alcoólatra. Não bebo todos os dias, mas quando bebo, bebo muito.”

Rapaz tem suspeita de hepatite alcoólica

Depois de mais de dois anos de consumo de bebida alcoólica diária, o estudante Gabriel Santi, 24 anos, de São Caetano, está enfrentando os primeiros problemas pelo uso abusivo de álcool.

“Estou com suspeita de hepatite alcoólica devido à bebida e hábitos alimentares.” Agora, por recomendações médicas, bebe esporadicamente e em pequenas quantidades. “Me alimento melhor agora e já emagreci cinco quilos desde que parei de beber tanto”, diz.

O estudante conta que foi reprovado em três matérias na faculdade e assume que o uso abusivo do álcool colaborou para isso. “O bar se torna um ambiente aconchegante, pois conhecemos o dono, os garçons e famílias. Sinto vontade de beber, mas é controlável”.

A endocrinologista Sílvia Ghitto Abdian, de São Bernardo, realiza o tratamento de Santi e afirma que o paciente apresenta indícios de inflamação no fígado, com grande probabilidade de estar relacionada ao álcool. “O que preocupa é que o Gabriel não é um caso raro.

O número de jovens com problemas de saúde relacionados com a bebida tem crescido muito”, afirma. A médica fala que os jovens se acham indestrutíveis e não percebem os sintomas físicos. “Com o uso abusivo do álcool, começam a faltar vitaminas e proteínas fundamentais. A bebida leva a hábitos alimentares ruins, o que piora a saúde.”

Sílvia alerta que a chance de recuperação pode ser 100% satisfatória nos jovens, mas, depois de um tempo, torna-se irreversível. “Vejo uma geração apresentando sintomas que não são propícios à idade.”

Beber em excesso faz com que ocorra desinibição, diminuição da atenção, da capacidade de julgamento, da coordenação motora, agressividade e compromete os pensamentos. “Beber para se intoxicar é mais comum entre os jovens. O termo bêbado não é o mais correto. O que interessa é o uso problemático e nocivo do álcool”, diz a psicóloga da Uniad (Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas) Ilana Pinsky.
Autor: Diário do Grande ABC
OBID Fonte: Diário do Grande ABC