Atribuição de culpa a mulheres que fizeram uso do álcool e foram vítimas de violência sexual

O estupro pode ser decorrente da necessidade de poder, controle, dominação e satisfação sexual de seu agente. Porém, há casos em que a vítima pode ser acusada pelo próprio estupro. Nesses casos, a presença de álcool e o tipo de resistência que a mulher usou contra o violador podem afetar a percepção de outros em relação ao “quanto” a vítima estava disposta a participar do ato.

Pensando nisso, esse estudo teve como objetivo principal investigar “a quem” as mulheres atribuiriam a culpa deuma situação sexual ambígua, de tal forma a comparar o ponto de vista feminino ao masculino. Além disso, investigou se a percepção dos respondentes seria influenciada por suas características pessoais, a citar: (a) expectativas quanto ao uso de álcool (especialmente quanto aos domínios de poder, dominação e satisfação sexual); (b) padrão e quantidade consumida de álcool (diária, semanal e mensal), assim como o tipo de bebida preferido e, finalmente, (c) o ponto de vista sobre o papel social da mulher, ou seja, se conservador ou liberal.

Foi selecionada uma amostra constituída por 213 respondentes (70 homens e 143 mulheres), de faixa etária entre 18 e 23 anos. Pediu-se aos participantes que avaliassem três situações da vida diária, impressas na forma de vinhetas. Duas eram situações de distração, sendo que a vinheta intermediária era a de interesse, durante a qual foi pedido aos respondentes que atuassem como conselheiros de emergência em um caso em que uma mulher acabara de sofrer um atentado. O uso de álcool e o tipo de defesa contra o atentado (pela mulher) foram tomados como variáveis aleatórias, cuja combinação gerou quatro situações possíveis (uma a cada participante), a citar: (a) consumo alto de álcool/baixa resistência; (b) consumo baixo de álcool/baixa resistência; (c) consumo baixo de álcool/alta resistência; (d) consumo alto de álcool/alta resistência. Em cada situação, os respondentes foram solicitados a julgar a responsabilidade da vítima pelo atentado.

Assim, conforme os autores, de forma geral, os agentes do estupro são reconhecidos como errados e responsáveis pelo ato. Porém, a vítima é frequentemente responsabilizada nas situações em que o uso de álcool está presente, de tal forma que, tem-se a percepção de que a mulher, ao beber, esteja sexualmente disponível. Já quanto às características do respondente, independente do gênero, quanto mais conservador o ponto de vista sobre o papel social da mulher, maior o rigor em julgá-la como ré do próprio estupro. Em contrapartida, o gênero do respondente e suas expectativas quanto ao uso de álcool não exerceram nenhum tipo de influência quanto ao julgamento da responsabilidade da vítima. Finalmente, quanto ao tipo de resistência usado contra o ato (pela mulher), não houve diferenças de julgamento, contrário ao que se esperava, já que quanto mais forte a evidência de resistência física, maior a probabilidade do atentado ser reconhecido como estupro e a mulher, como vítima. Os autores não fizeram menção sobre possíveis associações entre o julgamento do respondente e seu padrão de uso de álcool.

Título: Rape blame as a function of alcohol presence and resistance type
Autores: Calvin M. Sims, Nora E. Noel e Stephen A. Maisto
Fonte: Addictive Behaviors 32: 2766–2775, 2007.
IF.: 1,849
Fonte:CISA – Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool