Mulheres estão bebendo mais

As mulheres brasileiras estão bebendo mais. Nos últimos anos, 12% das mulheres que bebem superaram os homens na quantidade de álcool que ingerem. E o número daquelas que não bebiam e agora consomem álcool também aumentou. As jovens estão começando a beber cada vez mais cedo.

Em Belo Horizonte, as adolescentes do sexo feminino já superam os rapazes da faixa etária dos 15 anos em consumo de álcool. As constatações são de uma pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), em parceria com a Federação Internacional de Universidades Católicas (Fiuc), com sede em Paris, na França.

O estudo é realizado há 15 anos, de dois em dois anos, com 52 mil pessoas, em 187 cidades de 16 Estados brasileiros, a partir de questionários respondidos por adolescentes matriculados em escolas, nos níveis fundamental e médio e suas famílias.

Os pesquisadores acompanham as alunas que começaram a beber na adolescência até a sua fase adulta e quando se casam e têm filhos. Os dados da pesquisa da UFMG ainda estão sendo formatados em uma tese de doutorado. Entre as adolescentes, o estudo aponta que, nos últimos 15 anos, a idade média de iniciação com o álcool passou de 17 para 12 anos.

As mulheres dessa faixa etária estão bebendo mais que os homens não só em Belo Horizonte, mas também em algumas cidades do interior de Minas Gerais, como Cataguases, e em Estados como Rio Grande do Sul, Ceará e Rio Grande do Norte. De acordo com a pesquisa, as mulheres que começam a beber mais cedo fazem um uso progressivo do álcool, ou seja, cada vez mais. O coordenador do estudo, Amadeu Roseli Cruz, explica que essa mudança no comportamento da mulher está diretamente ligada à sua progressão social.

´´Na medida em que as mulheres alcançam um desenvolvimento social, econômico e sexual desejável, com condições igualitárias em relação aos homens, também aumenta a possibilidade de vários vícios sociais, como a bebida.´´ As mulheres que antes não bebiam e agora ingerem álcool e as que estão bebendo uma maior quantidade estão mais presentes, principalmente, nas classes média e alta.

´´Quanto maior o posto ocupado por uma mulher em uma empresa, maior o contato dela com o álcool, em jantares, happy hours e confraternizações´´, explica o professor. Porém, em Minas Gerais, esse aumento é registrado entre todas as estratificações sociais.

´´O nosso Estado tem uma tradição gastronômica, uma culinária muito presente na cultura, o que leva a pessoa a beber, não só comer. E temos que lembrar que Belo Horizonte também é considerada a capital dos bares. A convivência social está muito ligada ao ato de freqüentar botecos´´, explica Cruz.

Entre as classes média e alta, a bebida preferida das mulheres é o vinho e nas classes com menor poder aquisitivo a preferência varia, sendo as principais a cerveja e a cachaça.

Saúde

O professor explica que não há uma determinação da dose de álcool considerada excessiva.

´´O álcool se torna um problema a partir do momento em que altera a vida social, profissional, familiar e sexual e também quando, em curto, médio ou longo prazo traz problemas de saúde, como o câncer de garganta, intestino, pâncreas, por exemplo. Isso varia de acordo com a pessoa´´, afirma.

Outros pontos da saúde da mulher também são preocupantes. ´´À medida em que a mulher toma atitudes que antes eram comuns para os homens, como se estressar no trabalho e freqüentar mais bares, também incorpora males que antes não tinha, como o infarto e o colesterol alto.

A obesidade causada pela má alimentação, seguida do uso da cerveja, é outro problema, que entra em conflito com o culto ao corpo´´, explica. Outra curiosidade observada pelo estudo da UFMG é o álcool como forma de libertação social.

O consumo de bebidas, além de ter crescido entre as adolescentes e jovens, também subiu entre as mulheres mais velhas, na faixa etária dos 40 e 50 anos, principalmente entre as que se separam dos maridos. ´´São aquelas mulheres que geralmente eram reprimidas socialmente pelo marido e que agora têm de lidar com a liberdade.

Algumas conseguem conviver bem com isso outras não, excedendo na bebida´´, diz o coordenador da pesquisa.

Consumo de álcool começou aos 11 anos

Uma promotora de vendas de 23 anos conta que bebe desde os 11 anos de idade. “Comecei a beber quando vim do interior para morar em Belo Horizonte.” Aos 12, ela começou a fumar. Atualmente, conta que toma bebida alcoólica quase todos os dias. “Só de vez em quando eu dou um tempo. Mas, principalmente no calor, bebo sempre.”

Moradora do bairro Santa Tereza, região Leste da capital, tradicional pelos bares, ela diz que é impossível resistir à “tentação”. “Já freqüentei todos esses bares daqui.” Porém, garante que consegue lidar bem com a bebida e que não abusa.

Para a promotora, isso faz parte da maior independência da mulher. “Sempre busco ter essa independência em todas as partes da minha vida. Na família, há repressão pelo fato de eu ser nova e mulher. Meus irmãos começaram a sair depois de mim, aos 16 anos”, conta.

A funcionária pública Roberta Mascarenhas, 42, divorciou- se do marido há três anos. Ela afirma que, desde então, passou a sair com amigas e adquiriu o hábito de beber socialmente. “Antes, para manter o casamento, não fazia várias coisas das quais eu sempre gostei. Agora não tem ninguém que me prenda, mas não é por isso que vou abusar. Apenas gosto de me divertir, de interagir com as pessoas e uma cerveja ou um bom vinho fazem parte disso”, justifica.

A adolescente R.I.N., 17, estudante do segundo ano do ensino médio de uma escola particular da região Centro- Sul de Belo Horizonte, admite que bebe desde os 12 anos e que a família sabe e não se importa. “Experimentei cerveja pela primeira vez em um churrasco na minha casa. Hoje tomo cerveja junto com minha mãe e também quando saio com meus amigos, nas festas, depois da escola”, explica.

Ela garante que os pais a orientam a não exceder no consumo de bebida e ter cuidado com o vício. “Acho que o fato de eu começar a beber dentro de casa me tranqüiliza mais, porque não é algo proibido e posso conversar com minha mãe e meu pai sobre isso, tirar dúvidas por exemplo”, argumenta. (EM)

EDITORIA DE ARTE

Abraço também registra aumento nos atendimentos

Na Associação Brasileira Comunitária de Prevenção ao Abuso de Drogas (Abraço), o percentual de mulheres alcoólicas atendidas pela instituição aumentou de 20% para 30% do total de pacientes em dez anos. Para o presidente da Abraço, vereador Elias Murad (PSDB), um dos principais motivos que levam à mulher ao consumo de álcool é a solidão. “Geralmente as mulheres ficam mais sozinhas em casa, têm problemas afetivos e usam a bebida como um refúgio.”

A instituição também vêm atendendo mais jovens. “Antes percebíamos que os vícios que mais afetavam os jovens eram outras drogas, mas agora o álcool está entre os principais”, explica. Para tentar diminuir o problema, Elias Murad defende as restrições à bebida. “O problema do abuso do álcool está cada vez maior, tanto que os governos estão preocupados em restringir a venda e qualquer limitação do acesso ao álcool é benéfica”, avalia.

Educação

Outra conclusão do estudo da UFMG é que as mulheres que começam a beber na adolescência e as que abusam do álcool têm uma maior dificuldade de educar os filhos, o que pode trazer problemas no desenvolvimento da criança na escola e na vida social. De acordo com o coordenador da pesquisa, Amadeu Roseli Cruz, em geral, as mulheres que bebem muito são menos repressivas, impõem menos limites ou até mesmo incentivam o consumo de álcool pelo filho cada vez mais precocemente”. Ele ressalta a necessidade de haver mudanças nas escolas. “Uma forma de prevenir o vício em álcool é a implantação de disciplinas sobre o assunto nos currículos escolares.” (EM)

Venda deve ser proibida em loja de conveniência

Em uma tentativa de restringir a venda de bebidas alcoólicas, a prefeitura da capital ampliou, ontem, o grupo de trabalho que vai discutir e implantar a proibição da comercialização e do consumo de álcool em lojas de conveniência em postos de combustíveis. Além de representantes da BHTrans e Secretaria Municipal de Saúde, a comissão terá a participação de representantes da Câmara de Dirigentes Lojistas (CDL) e do Sindicato do Comércio Varejista dos Derivados de Petróleo.

O prazo para que o grupo elabore as propostas sobre o assunto foi estendido de 30 para 50 dias. Uma primeira reunião do grupo foi realizada no fim de fevereiro, mas sem os representantes dos empresários donos de postos. Até a definição sobre a restrição à venda de bebidas em postos, deve haver muita discussão, já que os empresários se mantêm resistentes à idéia. De acordo com a prefeitura, a idéia de proibição se baseia em estudos que mostram que nesses estabelecimentos quem está dirigindo consome álcool. (EM)
Autor: Eugênio Martins
OBID Fonte: O Tempo – MG