Anfetaminas provocam apagão da mente e matam

A era do LSD e das ervas mexicanas ficaram para trás. Uma elite formada por estudantes, intelectuais e acadêmicos americanos encontrou um novo artifício para ´´expandir suas mentes´´ e melhorar seu desempenho intelectual: as anfetaminas. Dentre as preferidas desse público específico está o metilfenidato, fármaco utilizado normalmente para o tratamento de distúrbio de atenção em crianças, depressão profunda e narcolepsia (sonolência excessiva durante o dia).

O uso não-médico, abusivo e indiscriminado dessa classe de psicotrópicos sintéticos – estimulantes do sistema nervoso central – rendeu, nas últimas semanas, ampla discussão na revista científica Nature e no jornal New York Times. Nos Estados Unidos, o uso dessas substâncias por intelectuais – na tentativa de se tornarem mais intelectuais – virou moda no meio acadêmico. Nos EUA, a anfetamina só perde para a maconha.

História – O uso não-medicinal de anfetaminas é antigo. A substância, sintetizada artificialmente em 1887, teve sua atividade psico-estimulante identificada somente em 1927. Na época, era um poderoso descongestionante nasal. Seu potencial entorpecente foi conhecido durante a Segunda Guerra Mundial, quando soldados alemães, japoneses e das forças aliadas usavam a substância para aumentar a vigília e a agressividade e diminuir a fadiga.

A anfetamina tornou-se, rapidamente, uma droga difundida por toda a sociedade no pós-guerra. No fim dos anos 50, ficou conhecida como poderoso remédio para emagrecimento, já que é inibidora de apetite. Hoje, a substância tem novos nomes: é o “rebite” que o caminhoneiro toma para não dormir ao volante, é a “bomba” que o atleta ingere para melhorar o treino, é a “bolinha” que deixa o estudante aceso às vésperas das provas e é a “bala” que faz o jovem varar a noite na balada.

Brasil lidera – Não é à toa que o Brasil é líder mundial no consumo de anfetaminas pelo terceiro ano consecutivo. Segundo relatório anual da Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes (Jife), da Organização das Nações Unidas (ONU), os brasileiros consomem cerca de 30 toneladas de anfetaminas por ano, cerca de 90% do que é produzido no País. Em 1995, o consumo não passava de 20 toneladas. Estima-se que dois milhões de brasileiros consumam regularmente algum tipo de anfetamina.

Por aqui, o uso da droga psicotrópica é 15% superior ao dos Estados Unidos, segundo colocado no ranking da Jife/ONU, e quase o dobro ao da Argentina.

Conforme explica o psiquiatra Danilo Baltieri, do Grupo de Estudos de Álcool e Drogas do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas de São Paulo, as drogas psico-estimulantes fazem o cérebro trabalhar mais depressa, deixando as pessoas atentas e elétricas. Em baixas doses, as anfetaminas produzem sensação de alerta, força física e mental, melhora do humor, a autoconfiança e diminui o cansaço. O organismo funciona acima de sua capacidade e pode ser submetido a esforços excessivos por tempos prolongados.

Ilusão – “É apenas uma sensação. Apesar de esses efeitos sugerirem melhora de desempenho, a destreza e a coordenação motora fina podem ser prejudicadas. Além disso, após cessarem os efeitos estimulantes, observa-se um aumento da fadiga e depressão”, ressalta Baltieri. “As pessoas têm a sensação de que estão mais atentas e que aprendem melhor as coisas que são passadas na sala de aula, mas, na verdade, isso não acontece. Aliás, com o tempo, elas vão perdendo a concentração´´, disse Baltieri.

Os efeitos da droga não atingem apenas o cérebro. Em doses moderadas, os efeitos adicionais da anfetamina incluem estimulação da respiração e dos batimentos cardíacos, tremores, aumento da atividade motora, insônia e agitação (veja arte) . Com o uso contínuo, a pessoa fica agressiva, irritadiça e tem delírios persecutórios, ou seja, começa a suspeitar de que estão tramando contra ela.

Morte – Dependendo do excesso da dose e da sensibilidade do indivíduo, pode aparecer um estado real de paranóia, pânico e até alucinações. A estimulação excessiva do coração pode causar hipertensão, arritmia, colapso cardiovascular e morte súbita. O uso crônico dessa droga leva a estados de desnutrição e a complicações como infarto agudo do miocárdio, cegueira cortical transitória, cardiopatias irreversíveis, vasoespasmos sistêmicos e edema agudo de pulmão.

Segundo Baltieri, além das anfetaminas, outras classes de medicamentos são bastante utilizadas com propósitos não-terapêuticos. Os opióides, como morfina, codeína e metadona, ocupam o segundo lugar, seguidos dos benzodiazepínicos, fármacos com efeitos sedativo-hipnóticos e depressores do sistema nervoso central, como diazepan, por exemplo.

Mercado negro – O especialista comenta que muitas receitas médicas contendo essas substâncias são prescritas em clínicas clandestinas, por profissionais irresponsáveis. “Para evitar o consumo desenfreado e altamente nocivo é preciso uma vigilância mais rigorosa nessas clínicas e em farmácias de manipulação, onde é visto com mais freqüência esse tipo de formulação.” Algumas medidas já foram tomadas pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), como a implantação de um novo tipo de receituário, para esses tipos de medicamentos, produzido pela Vigilância Sanitária do Estado, o que garante maior controle.

Autor: Maristela Orlowski
OBID Fonte: Diário do Comércio – SP