Avaliação da cultura do uso de crack após uma década de introdução da droga na cidade de São Paulo.

Passados 10 anos desde início do consumo do crack na cidade de São Paulo foi realizado o estudo sobre suas características culturais, bem como estabelecer um paralelo entre as culturas de crack nas cidades de Barcelona (Espanha) e São Paulo.

O objetivo é identificar se as características abordadas são próprias à cultura desse tipo de droga ou se dependeriam da influência do contexto sócio-cultural onde estivesse inserida.

No estudo adotou-se uma amostra intencional, onde os autores selecionaram grupos com base no critério de representatividade dentro do contexto da avaliação, composta por usuários e ex-usuários de crack, recrutada por intermédio de informantes-chave e método de amostragem em cadeias e, posteriormente, entrevista.

Um estudo de campo foi realizado nas regiões identificadas como influenciadas pelo comércio e uso de crack, adotando o diário de campo como a forma básica de registro com o intuito de legitimar os dados apresentados nas entrevistas.

De acordo com os autores, em sua maioria, o usuário de crack é homem, jovem, de baixo poder aquisitivo, baixo nível de escolaridade e, geralmente, sem vínculos empregatícios formais. As mulheres, assim como usuários de melhor poder aquisitivo, existem na cultura, porém, em menor proporção.

Geralmente de fácil acesso, o crack é definido como a droga ‘fim-de-linha’. Quanto ao padrão de uso, em sua maioria, é do tipo “binge”, que caracteriza o uso por horas e dias, interrompido quando o usuário não tem mais condições físicas ou financeiras.

Na falta de condições financeiras, o usuário pratica atividades atípicas ou ilegais, como a venda de pertences próprios e de familiares, roubos, seqüestros, atividades ligadas ao tráfico e, finalmente, prostituição, seja feminina ou masculina que, devido aos inúmeros parceiros sexuais e uso inconsistente de preservativos expõem o usuário de crack a considerável risco de contágio por Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs) e HIV.

A partir deste estudo, considerou-se que a situação da maioria dos usuários de crack das cidades de São Paulo e Barcelona se agrava quando o uso está associado a outras drogas, lícitas ou ilícitas, como álcool, maconha, cloridrato de cocaína, heroína e metadona, caracterizando o usuário de crack como politoxicômanos.

O uso não-diário, além de importante como estratégia de redução de danos entre os ex-usuários (não submetidos a tratamento médico e tampouco religioso), é importante medida para o alcance do estado de abstinência.

Os autores também identificaram variações das formas de uso do crack. Antes feito em cigarros de tabaco, de maconha e em cachimbos, atualmente são apontadas novas técnicas, como o “shotgunning” e “dar-se a segundinha”, propenso a consideráveis riscos de contágio por DST’s e HIV, já que o usuário tem associado-as à atividade sexual freqüente e desprotegida.

Por fim, os autores concluíram semelhança de uso de crack entre as cidades de São Paulo e Barcelona, indicando que, a cultura pareça ser mais um produto do crack em si que do contexto social em que esteja inserido.

Apoio Financeiro: Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID), Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), Auxílio Pesquisa da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP) e Associação Fundo de Incentivo à Psicofarmacologia (AFIP).

Texto resumido pelo OBID a partir da síntese da tese de doutorado publicada no site da Associação Brasileira Multidisciplinar de Estudos sobre Drogas (Abramd):

Autor: OLIVEIRA, G. L; NAPPO, A. S.
OBID Fonte: site da Associação Brasileira Multidisciplinar de Estudos sobre Drogas (Abramd):