Afroreggae ganha centro de cultura Waly Salomão

Apelidado de “Guggenheim das favelas”, espaço que será aberto nos próximos meses tem quatro andares e fica em Vigário Geral, onde grupo nasceu há 15 anos

O AfroReggae vai ganhar um presentão em seu aniversário de 15 anos: será inaugurado nos próximos meses o Centro Cultural Waly Salomão, na favela de Vigário Geral, onde o grupo cultural nasceu e cresceu. Considerado o maior do gênero em favelas da América Latina, o espaço, de quatro andares, vai oferecer atividades gratuitas. O edifício se destaca entre as demais construções da comunidade – por sua magnitude, foi apelidado de “Guggenheim das favelas”.

A intenção do AfroReggae é que sua utilização não fique restrita a Vigário Geral. “A idéia é que o centro se torne uma referência para toda a cidade, e para o mundo, não apenas para a favela. Esta é a lição tanto do AfroReggae quanto do Waly”, diz o antropólogo Hermano Vianna, chamado para ser o curador. A escolha do nome do poeta se deu por ele ter sido um incentivador de primeira hora do AfroReggae.

José Junior, o coordenador do grupo, é só entusiasmo. “É o grande projeto do AfroReggae. Vai ser um pólo catalisador de todo o Rio. Queremos fazer de Vigário, lugar simbolicamente marcado pela violência, um pólo cultural de impacto que seja referência de mudança para o País”, sonha.

Foi ele quem abriu o caminho para que um espaço como esse pudesse ser construído ali. Em 1993, Vigário virou notícia com a chacina de 21 moradores, mortos por policiais. Em meio às feridas da tragédia, jovens da comunidade começaram a se reunir em torno de Junior, então um promotor de bailes.

Ele começou a criar oficinas de percussão, dança, teatro e música, que se transformariam no Grupo Cultural AfroReggae. Hoje, a ONG que dirige tem orçamento anual de R$ 6 milhões e “disputa mercado” com o tráfico, tirando jovens do crime. Virou o mais bem-sucedido projeto social em favelas do País.

O novo centro terá estúdio, sala para ensaios, espaço de computadores, oficinas com DJs e aulas diversas , com investimentos da Petrobrás, seu patrocinador, e do BNDES . A gerente de patrocínios da Petrobrás, Eliane Costa, visitou as obras há uma semana e se impressionou com o que viu. “Fiquei encantada. Vai ser um centro de produção, e não só um lugar de exibição de filmes e de shows. Como disse o Hermano Vianna: uma usina de cultura.”

“Não é só para fazer download de cultura, mas também fazer upload, produzir”, diz Eliane. Ele deve funcionar 24 horas por dia – uma forma de dar aos jovens o que fazer à noite e de madrugada, quando o apelo do tráfico de drogas se dá de forma mais intensa.

Cerca de 4.200 jovens participam atualmente das oficinas, que vão da capoeira à informática, em favelas cariocas como Vigário, Complexo do Alemão e Cantagalo. Em São Paulo, o grupo desenvolve um projeto de inclusão digital e música no Capão Redondo.

O AfroReggae também pode ser visto em outras capitais do Brasil e do mundo. Já tem ações na Índia, Colômbia, Alemanha e Inglaterra. “A idéia é essa: ganhar o mundo. Nosso movimento não é de denúncia, de vítima. Queremos mostrar aquela flor que nasce nos escombros”, define Junior.

O centro cultural será uma flor vistosa. O prédio subiu no mesmo local onde foi instalado, em 1997, o primeiro centro cultural do AfroReggae em Vigário. O antigo espaço foi demolido em 2002, mas a construção do novo centro cultural vinha sendo adiada pela guerra do tráfico. Graças a uma trégua, a obra passou a andar mais rapidamente. Amigo de artistas – Caetano Veloso, Regina Casé, Gringo Cardia, Jorge Mautner… -, Junior quer levar gente bacana para fazer workshops na favela, e ainda promover lá pré-estréias de filmes.

Autor: Alexandre Rodrigues e Roberta Pennafort
OBID Fonte: O Estado de S. Paulo – SP