BH debate alternativas para reduzir o consumo de bebidas em grandes festas

A partir do ano que vem, grandes eventos de Belo Horizonte – como o Axé Brasil, o Pop Rock e a festa da Saideira do Comida di Buteco – poderão acontecer somente se os organizadores tomarem providências para evitar que freqüentadores saiam dos espaços embriagados e assumam o volante.

Entre as medidas, podem estar desde a celebração de convênios com cooperativas de táxis – para garantir corridas mais baratas para os clientes – até a restrição do número de vagas de estacionamento na porta dos locais, para desestimular que as pessoas usem o carro para ir até a diversão, mesmo sabendo que vão beber. As sugestões serão debatidas durante o 1º Seminário de BH sobre Álcool e Trânsito, marcado para o dia 28. O objetivo é reunir propostas para uma política ampla, capaz de diminuir, na capital mineira, o consumo de bebidas alcoólicas associado ao ato de dirigir.

As idéias vêm à tona no momento em que BH tenta fechar o cerco ao motorista bêbado. Desde fevereiro, um grupo de trabalho formado por funcionários da Prefeitura estuda a proibição da venda de álcool em lojas de conveniência. A medida quer dificultar o acesso de jovens às bebidas etílicas, compradas antes e depois das baladas em postos de combustíveis. A justificativa é reduzir os acidentes de trânsito. No país, as tragédias custam R$ 27 bilhões aos cofres públicos, por ano. O montante inclui desde a assistência médica até as licenças de trabalho concedidas às vítimas.

Para o gerente de educação da BHTrans, Eduardo Lucas, um dos membros da comissão, o seminário vai ampliar o debate sobre o as sunto. “Queremos ir além da questão da loja de conveniência e traçar uma estratégia macro para alertar as pessoas sobre o perigo do álcool e da direção”. Dados do Ministério da Saúde mostram que 60% das pessoas – condutores ou passageiros – mortas em acidentes de trânsito têm níveis de álcool no sangue superiores ao permitido por lei.

O encontro terá a participação de representantes do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), Secretaria Nacional Antidrogas e Ministério da Saúde, além de órgãos estaduais, como o Detran-MG, a Subsecretaria de Políticas Antidrogas e a Polícia Civil. Também será aberto ao público, e entidades como a Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel) e o Sindicato dos Distribuidores de Bebidas Alcoólicas serão convidadas.

“Não queremos tomar decisões sozinhos, mas ouvir opiniões e empreender esforços”, afirma Lucas. Do seminário, vai sair a indicação de ações para serem colocadas em prática. Mas antes de serem transformadas em projeto de lei, elas serão tema de audiências públicas.

Uma das propostas vincula a concessão de alvarás para eventos à adoção de medidas que incentivem o público a deixar os carros em casa. “Não somos contra festas, que geram emprego e renda. Mas precisamos definir com mais clareza a responsabilidade de seus promotores”, diz Eduardo Lucas. “Eles têm condições de criar facilidades para que os freqüentadores usem meios de transporte alternativos”.

Caminho viável seria apostar em mais vagas para veículos fretados (vans) e táxis, que teriam acesso prioritário aos espaços. Mas a comissão também promete lutar por maior fiscalização dos motoristas bêbados – embora o comandante da 1ª Companhia de Polícia de Trânsito de BH, major Roberto Lemos, admita ser complicado flagrar os infratores. “A caracterização do crime só acontece se a pessoa estiver dentro do carro em movimento”.

Debate chega aos bares
e sugere garçons como “vigias”

Mas o debate não põe na mira das autoridades somente as festas para multidões. Atitudes semelhantes podem chegar a bares, boates e choperias. Nesses locais, uma sugestão é capacitar funcionários para abordar quem bebeu mais do que deveria – e aconselhar a pessoa a deixar a chave no estabelecimento, ir para casa de táxi ou passar a direção a um amigo sóbrio.

A proposta é vista com bons olhos pelo presidente Abrasel-MG, Paulo Nonaka. A entidade defende que o Governo torne obrigatória a qualificação de profissionais do setor para identificar situações de risco. Também é a favor da criação de um disque-denúncia para que garçons possam dar o alerta à polícia, se necessário.
“Somos abertos a qualquer tipo de solução – desde que ela seja discutida, e não imposta. Mas, pessoalmente, acho difícil que o cliente aceite a abordagem, a menos que haja uma ampla campanha de conscientização”, diz Paulo.

Só que o público, às vezes, surpreende. Diretor da DM Promoções, produtora do Axé Brasil e do Pop Rock, Leonardo Dias lançou uma campanha a favor das vans há quatro anos. No início, o incentivo estampado nos abadás queria evitar brigas pelas poucas vagas no estacionamento do evento de música baiana. “Mas o pessoal descobriu que sair de van, em turma, da casa de alguém direto para a festa era legal”.

Segundo Leonardo, carros são minoria no Axé, que este ano reuniu uma média de 60 mil pessoas por noite. No Pop Rock, no entanto, veículos particulares ainda são a regra. “Precisaríamos fazer uma campanha para tentar mudar isso”, diz ele, que não descarta a possibilidade de parcerias com cooperativas de táxi. “É um assunto a ser estudado. Poderíamos divulgar o serviço em troca do desconto para o cliente, com o táxi rodando em bandeira 1 à noite, por exemplo”.

Para a realizadora do Comida de Buteco, Maria Eulália Araújo, a chave para conseguir a adesão das 20 mil pessoas que vão a cada uma das duas “Saideiras” – festas que encerram a farra gastronômica – pode estar no apelo publicitário. “Nos guias dos bares deste ano já incluímos frases como “Vá de táxi, evite transtornos”, e “Invista em sua segurança””. Esta semana, ela pretende agendar reuniões com cooperativas de táxis para discutir vantagens para o público.

Autor: Ana Paula Lima
OBID Fonte: Hoje em Dia – MG