Rastros apagados

É difícil medir o impacto dos rebites – as anfetaminas usadas por caminhoneiros para driblar o sono e esticar fretes puxados contra o relógio – nos acidentes de trânsito nas rodovias brasileiras. Como o trabalho de investigação é precário, a coleta de provas fica prejudicada. Por outro lado, Zero Hora constatou que o consumo das drogas estimulantes é desenfreado, e sua compra, descontrolada, comprovando que a presença da anfetamina ao volante é um perigo real nas estradas.

O rebite é uma epidemia no Brasil, e as autoridades o apontam como um dos responsáveis pelo envolvimento do transporte de cargas em um de cada três acidentes que acontecem nas estradas federais. No ano passado, nas federais gaúchas, caminhões se envolveram em 19,3% dos desastres. As delegacias da Polícia Civil situadas à beira das rodovias federais no território gaúcho têm dificuldades em conseguir as provas técnicas em acidentes com caminhoneiros usuários de rebites.

Estas delegacias não dispõem de peritos criminalísticos, essenciais na apuração das provas no local. Na maioria das vezes, quando chegam, a cena foi desmanchada para não atrapalhar o trânsito pela Polícia Rodoviária Federal (PRF). Mesmo que conseguissem bloquear a estrada, as deficiências técnicas e legais dificultam a verificação da ligação ou não do uso do rebite com o acidente.

O inspetor Júlio Cezar Zambom, chefe de policiamento da PRF no Estado, também lamenta a falta de equipamentos:
– Não há um equipamento disponível no mercado tipo bafômetro (usado para verificar embriaguez) que possa dar o resultado na hora sobre o uso de rebite. E as leis dificultam a vinculação do excesso de horas trabalhadas, que pode ser apurado nos discos dos tacógrafos, com o uso ilegal da medicação.

A ausência de provas atira a apuração do caso na vala comum dos acidentes rodoviários. Isso, além de livrar os responsáveis de responderam por crimes mais graves, como direção perigosa ou homicídio eventual, faz com que haja uma carência de informações precisas sobre a influência do rebite nos acidentes.

No Rio Grande do Sul, o principal foco é a BR-101, rota mais usada pelos caminhoneiros que transportam as cargas horárias – aquelas que têm tempo determinado para chegar. É justamente onde o consumo do rebite é maior.
– A estrada não pode ficar fechada até que um perito faça a viagem de Porto Alegre até Torres. Embora os federais juntem as evidências no local do acidente, eles não têm a mesma experiência que um perito. Isso enfraquece o inquérito policial – relata o delegado Celso Alan Jaeger, 52 anos, que trabalhou oito anos nas delegacias de Torres e Três Cachoeiras, ao lado da BR-101.

As autoridades criticam a facilidade com que intermediários obtêm a receita azul, que permite a compra de remédios controlados como as anfetaminas, revendidas aos caminhoneiros.

Autor: Edição Impressa
OBID Fonte: Zero Hora – RS