Nutrição

Ninguém deseja estar fora de forma e a busca pelo corpo perfeito – e para ontem – motiva muitas mulheres a buscarem ajuda nos anorexígenos, mais conhecidos como inibidores de apetite. Segundo relatório da Junta Internacional de Fiscalização de Entorpecentes (JIFE) divulgado em março desse ano, o Brasil é o primeiro no ranking mundial de consumo desses produtos. Hoje, o uso desses medicamentos por pessoa no país é 40% maior do que entre os norte-americanos, que já encabeçaram a liderança. Mas os resultados rápidos que os inibidores prometem podem custar caro.

Contendo drogas da classe das anfetaminas, os inibidores de apetite causam dependência e podem desenvolver até quadros de surto psicótico e crises de pânico. Taquicardia, insônia, nervosismo, alterações na pressão arterial e depressão são algumas das reações mais freqüentes. Para o psiquiatra e psicanalista Alberto Goldin, a razão de todo esse consumo é cultural. “Em todo mundo, há uma demanda por corpos perfeitos e magros. Trata-se de uma patologia mundial e o Brasil, sede da moda e país tropical, é mais suscetível a isso. O remédio aparece como uma fórmula mágica a resolver a voracidade na alimentação”, expõe.

Funcionamento

Os inibidores de apetite são compostos emagrecedores que agem diretamente no sistema nervoso central, eliminando a vontade de comer. No Brasil, o consumo indiscriminado dessas substâncias fez com que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) apertasse o cerco. Hoje, apenas alguns tipos de inibidores estão liberados pela legislação. Segundo o nutrólogo Maximo Asinelli, as substâncias femproporex, anfepramona, fentermina e mazindol estão permitidas desde que em dosagens específicas. “Os anorexígenos podem causar dependência e, por isso, seu uso deve ser controlado. No caso do femproporex, a dose não deve ultrapassar 50 ml por dia. A fentermina, 60 ml ao dia. A anfepramona, 120 ml/dia e o mazindol, 3 ml por dia”, explica.

Para regulamentar a venda dos inibidores de apetite, a Anvisa publicou a Resolução nº 58/2007. De agora em diante, a venda desses remédios só é permitida caso o paciente apresente ao farmacêutico o pedido em formulário azul e com identificação do médico. A segunda providência é a implantação do Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC) para captar e fornecer informações a toda rede de fiscalização do Sistema Nacional de Vigilância Sanitária (SNVS).

A Anvisa estabeleceu ainda o limite de um mês para a validade da receita e proibiu o uso de inibidores associados a laxantes, diuréticos, remédios para ansiedade ou depressão. De acordo com o endocrinologista da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia Walmir Coutinho, essa associação com outros remédios é muito comum. “Os inibidores de apetite costumam ser associados a laxantes, diuréticos e, sobretudo, hormônios da tireóide como uma forma de acelerar a queima de calorias e, conseqüentemente, o processo de emagrecimento”, revela.

No entanto, essa combinação pode formar uma dupla explosiva e desencadear conseqüências como alterações cardíacas. Quem descumprir as novas exigências da Anvisa fica sujeito a penalidades que vão desde a interdição do estabelecimento até multas que variam entre R$ 2 mil e R$ 1,5 milhão.

Dependência

A maior polêmica dos inibidores gira em torno da possibilidade de dependência e da ineficácia nos resultados. A Coordenadora do Programa de Atenção à Mulher Dependente Química (Promud), da USP, Silvia Brasiliano, explica que a ação dos anorexígenos é semelhante a do álcool. “O efeito dos inibidores só se dá nos dois primeiros meses. Depois, assim como o álcool, o organismo cria tolerância ao medicamento e essa dose já não é eficaz. É preciso aumentá-la. Além disso, como a inibição dessa fome é artificial, com a interrupção do uso dos medicamentos a mulher tende ao efeito rebote, isto é, ganha todo o peso de volta”, diz.

Outro dado interessante é que grande parte dos usuários de inibidores de apetite acabam por desenvolver alguma forma de distúrbio alimentar, como a anorexia e a bulimia.

Mudança de Hábitos

O uso de inibidores de apetite não é totalmente contra-indicado. Pessoas que não têm uma boa resposta com medicamentos mais modernos e seguros e pessoas que sofrem de obesidade costumam recorrer ao auxílio dos inibidores no tratamento. No entanto, o que ocorre no Brasil, é que a maioria dos consumidores não se encaixa nesse perfil. “Grande parte das mulheres que consomem esse tipo de produto não sabem que ele pode causar dependência. Elas querem perder quatro, cinco ou dez quilos e já recorrem a esses remédios.

Mas a indicação é apenas para casos de obesidade mórbida, em que o IMC (Índice de Massa Corpórea) é superior a 35”, revela Silvia. Entretanto, tudo deve ser feito sob orientação e jamais o uso de anorexígenos deve estar associado a outras substâncias, como calmantes, diuréticos, laxantes, antidepressivos, hormônios e ansiolíticos, como orienta o nutrólogo Maximo Asinelli. Pessoas que sofrem de problemas psiquiátricos, como depressão, distúrbio de tireóide ou hipófise também não devem usar esses medicamentos.

Como toda moeda tem dois lados, o consumo de orexígenos no Brasil – estimuladores de apetite – também é alto. Sobretudo, em crianças. Máximo Asinelli, no entanto, adverte: “O estimulador de apetite é bem utilizado em um quadro anoréxico. Mas também é preciso controle, senão o magro de hoje pode se tornar o obeso de amanhã”.

Alternativas

Hoje em dia já existem remédios mais modernos e seguros quando o assunto é perder alguns quilinhos. É o caso dos sacietógenos e dos inibidores de absorção de gordura. Os primeiros, assim como os inibidores de apetite, atuam no cérebro e trazem a sensação de saciedade sem inibir a fome. Seus efeitos colaterais são menos agressivos, como: ressecamento na boca, insônia e constipação intestinal.
Porém, há casos de quadros de pressão alta e taquicardia. Eles não são contra-indicados em pacientes com depressão.

“Os alimentos sacietógenos, como a sibutramina e o rimonabanto trazem saciedade sem tirar o apetite. Ao contrário, os inibidores ajudam a perder a fome. O que sabemos é que para emagrecer é preciso acelerar o metabolismo, comendo várias vezes ao dia, em pequenas quantidades”, afirma o nutrólogo Máximo Asinelli. A dosagem recomendada pela Anvisa é de 15 mg para a sibutramina e 20 mg para o rimonabanto.

Já os inibidores de absorção de gordura não agem no sistema nervoso central, mas no aparelho digestivo. Eles bloqueiam parte da gordura que é ingerida. É o caso do orlistat, mais conhecido como Xenical® e de alguns remédios à base de cascas de crustáceos, como a quitosana. As reações mais comuns são desarranjos intestinais e a hipovitaminose. “Os inibidores de absorção de gordura são mais indicados em pacientes que não passaram pela nutricionista e comem gordura em excesso. As fibras em geral, como a aveia, têm a mesma atuação que esses produtos”, revela o nutrólogo.

Existem ainda os inibidores naturais de apetite. É o caso de algumas frutas, como a melancia, e alguns condimentos, como a canela. “Existem formas naturais de se diminuir a fome. No mercado, cito a Garcínia Camboja e a PholiaMagra®. Alguns alimentos, chamados de reguladores, também cumprem essa função”, explicita Maximo. Ele complementa com uma dica para quem quer comer menos e com qualidade. “Encha o prato com uma salada bem colorida e coloque algumas frutas, como a manga e a melancia. Utilize azeite de oliva, que é um ácido graxo essencial.

Esse prato por si só já contém quase todas as vitaminas, minerais e fibras que uma pessoa precisa. Uma boa dica é complementar com uma proteína de soja. As proteínas são inibidoras naturais de apetite. Mas, para um bom resultado é preciso que sejam de absorção lenta. A soja se encaixa nesse quesito”, completa.

A velha dupla

É, tudo indica que a velha dupla reeducação alimentar/exercícios físicos é o mais adequado para ficar de bem com a balança de vez. “Nenhuma de nós quer ser gorda. A sociedade tem a necessidade da urgência. Tudo deve ser instantâneo, mas nem sempre o que chega rápido é o mais eficiente. Mais rápido se perde, mas mais rápido se corre o risco de ganhar de volta”.

O endocrinologista Walmir Coutinho completa: “Nenhum remédio resolve por si só o problema da obesidade. O paciente precisa mudar o conceito de que emagrecer é fechar a boca e passar fome. Deve haver um programa de mudança de hábitos, com uma nova proposta de alimentação e atividade física”, finaliza.

Autor: Seção Mulher
OBID Fonte: O Liberal – PA