O mito e as verdades dos inibidores de apetite

O número de obesos no Brasil e no mundo tem crescido a ponto de a Organização Mundial de Saúde (OMS) considerar a doença uma epidemia global. Mais que isso: uma ameaça à saúde das populações em um número crescente de países.

Não é novidade que hábitos alimentares saudáveis e prática de exercícios regularmente são essenciais para o equilíbrio do corpo e da mente. Porém, os avanços científicos têm levado muitas pessoas que buscam emagrecer a enveredar em outros caminhos. O uso de anorexígenos – inibidores de apetite à base de anfetaminas – é um deles. Há ainda a sibutramina, substância que aumenta a saciedade (satisfaz com menos quantidade de comida).

A Anvisa (Agência de Vigilância Sanitária) permite o uso de quatro substâncias anorexígenas no Brasil, especificando os valores máximos para as doses diárias: femproporex, mazindol, anfepramona e fentermina. O rimonabanto, outro anorexíno foi recentemente liberado no país.

Afinal, os remédios para emagrecer trazem benefícios ou prejudicam a saúde?

“A finalidade do remédio não é simplesmente fazer o paciente perder peso, mas auxiliar na sua mudança de hábitos alimentares. Sem disciplina durante o tratamento, há grande chance dos quilos perdidos voltarem no futuro, e a culpa não será do remédio”, explica o secretário da Associação Brasileira para Estudos da Obesidade (Abeso), especialista e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), Josivan Lima.

Camila Campos, 26 anos, praticou balé desde criança, e sempre cuidou da alimentação. “Não bebo refrigerante, como doces raramente e evito frituras. Mas nunca me privei de comer o que tenho vontade”. Há dois anos a rotina do trabalho tem mantido Camila longe da dança, e em 12 meses ela engordou nove quilos. Ao procurar uma endocrinologista em dezembro passado, a médica foi clara: se recusou a prescrever qualquer tipo de remédio.

“Ela me passou uma dieta, e não segui porque já cuido da minha alimentação. Após três meses, retornei ao consultório e não havia perdido nenhum grama. Ela insistiu para que eu praticasse uma atividade física. Só tenho tempo para academia, mas detesto.

Uma amiga indicou outro médico, dizendo que meu problema se resolveria rapidinho”. Em outras palavras, a amiga de Camila indicou um profissional que prescreveria o remédio facilmente. “Disse ao médico que quando chegasse ao peso que queria, conseguiria mantê-lo depois. Entre o mazindol, mais forte, e sibutramina, mais fraco.

Escolhi o primeiro, e não tenho um pingo de fome”, conta a pedagoga, que admite sentir a boca seca por causa do medicamento.

A história de Camila é parecida com a de muita gente, mas o final de cada uma, depende de vários fatores. O aumento na procura de medicamentos para emagrecer tem aumentado, na opinião do especialista, deu-se por três fatores. “Aumento do índice de obesidade no país, esclarecimento pela mídia sobre o uso dessas substâncias, e a qualidade das oferecidas no mercado, que melhorou”, diz o membro da Abeso.

Os médicos utilizam o cálculo do Índice de Massa Corpórea (IMC), para saber se o adulto está com sobrepeso e o grau de obesidade, relacionando peso e altura.

Neurose ou busca pela saúde?

O modelo de um corpo perfeito associado à beleza e a busca para estar dentro de seus padrões mudaram ao longo da história, mas sua influência na auto-estima do homem permaneceu em todas as épocas. Porém, manter um peso adequado, longe dos casos específicos de neurose, demonstra principalmente preocupação com a saúde, uma vez que o sobrepeso pode trazer sérias doenças crônicas, como diabetes e hipertensão, e risco de morte, dependendo do seu grau.

“A beleza transcende gerações e sua definição varia em cada cultura. Os gregos a definiam a partir da linearidade, medidas perfeitas. Na Renascença, as mulheres gordinhas eram as musas. Da década de 40 para cá – no pós-modernismo – a tendência da magreza feminina grega e homem ‘sarado’ parece ter voltado. Anorexia nervosa e bulimia são verso e anverso da mesma moeda: sem querer comer, fica-se ansioso e a válvula de escape é a comida”, explica o psicoterapeuta cognitivo – comportamental, Maurilton Morais.

Ele lembra que a “associação de substâncias para emagrecer com anti-depressivos, como sibutramina mais fluoxetina, pode interferir no desejo sexual. E utilizados em doses altas, os dois podem levar o paciente ao estado de coma ou até morte súbita”. O psiquiatra acredita, também, que o tratamento farmacológico (que utiliza medicamentos) como inibidores de apetite, só obtém o sucesso desejado, em alguns casos, quando integrado ao acompanhamento psicoterapêuta. “Esse profissional vai ajudar o paciente a saber lidar com sua ansiedade, que nada mais é do que o resultado de como ele vê o mundo”, conclui.

Um estudo realizado pelo endocrinologista Josivan Lima, levantou o perfil de 400 pacientes que procuraram seu consultório para um tratamento à base de anorexígenos. “Do total, 80% eram do sexo feminino. Também me chamou a atenção que 10% dos pacientes tinham IMC menor ou igual a 25, ou seja, não eram obesos, mas queriam emagrecer ou tinham medo de engordar – todos mulheres”.

As mulheres lideram as estatísticas na busca para perder peso, segundo o médico, porque possuem um metabolismo relativamente mais lento do que os homens, demorando mais no processo de digestão dos alimentos e absorção de nutrientes. “De dez milhões de anos vivendo na Terra, em nove milhões e novecentos mil, os homens conviveram com a escassez de alimentos. A facilidade de obter comida é relativamente recente e influencia no peso, junto ao fator genético. Ninguém é gordo só porque quer, e nem todos que procuram um especialista querem emagrecer. De 3% a 5% querem engordar”.

Ele também alertou para as pessoas que apelam para o uso de outros medicamentos não indicados para essa finalidade. “Algumas pessoas costumam ingerir diuréticos, laxantes e até hormônios da tireóide para perder peso, porque eles aumentam o metabolismo. Isso jamais deve ser feito”. O leque de opções e valores de medicamentos para emagrecer no mercado atual, na opinião do especialista, não interferem no aumento da procura.

Anvisa intensifica fiscalização de inibidores

Para evitar fraudes na compra e venda de remédios inibidores de apetite em farmácias e drogarias, a Anvisa está implantando em todo o país, o Sistema Nacional de Gerenciamento de Produtos Controlados (SNGPC), para informatizar as notificações.

Os dados sobre a aquisição do remédio são enviados automaticamente, on-line e em tempo real. A resolução n°59 de setembro de 2007, definiu 120 dias para que os estabelecimentos se adequassem ao programa, e que os médicos adquirissem o novo modelo de talonário (boleto numerado) para prescrição. Antes, a compra era documentada em um livro, o paciente deixava uma via da prescrição com sua assinatura no estabelecimento, e só depois o órgão de vigilância sanitária era informado sobre a compra.

A Anvisa instituiu também um modelo de prescrição exclusivo – tipo ‘B2’ – para os anorexígenos, substituindo o tipo ‘B’, utilizado para qualquer medicamento com prescrição especial.

“O prazo de adequação venceu em janeiro mas prorrogamos até março passado, porque não recebemos talonários suficientes para atender à demanda dos médicos. Mas a partir deste mês não aceitamos mais o ‘B’ para a compra de inibidores de apetite”, explica Marlene Paiva, chefe do Núcleo de Controle de Medicamentos da Covisa (Coordenação de Vigilância em Saúde), órgão municipal que fiscaliza a venda de medicamentos na cidade.

A Covisa poderá a partir da informatização fornecer estatísticas oficiais e atuais sobre o comércio de medicamentos controlados – popularmente conhecido como “tarja preta”.O especialista e secretário da Abeso concorda com as novas determinações da Anvisa. “O remédio não utiliza prescrição especial à toa, realmente precisa de cuidados ao serem administrados”. Outra norma da Vigilância Sanitária também proíbe a associação de anorexígenos com anti-depressivos. “Costumo dizer que é o mesmo que dar um veneno e, em seguida, o antídoto.

Os inibidores, quando causam efeitos colaterais intensos (irritabilidade, palpitações, insônia, boca seca, etc.), deve ser interrompido. O anti-depressivo mascara estes efeitos adversos, o que é perigoso para a saúde do paciente”, alerta.

Ele conclui que “é normal a busca pelo corpo perfeito quando isso é revertido em ganho de saúde. Mas ruim, quando se está no peso ideal e se continua querendo perder quilos”, conclui.

Autor: Alex Régis/Ellen Rodrigues
OBID Fonte: Tribuna do Norte-RN