Dor pede remédios e responsabilidade

Opióides são os remédios mais usados para o alívio do sintoma, mas é preciso cuidado para não criar dependência. Além de forte efeito analgésico, os opióides – substâncias naturais ou sintéticas que possuem efeito semelhante ao provocado pelo ópio, como a morfina -causam uma sensação de bem-estar.

No entanto, se não forem corretamente usados, podem causar dependência. Os prós e os contras desse fármaco deixam os médicos diante de um dilema: deve-se receitar o medicamento a pacientes que sofrem de dores crônicas?

Atualmente, o opióide mais utilizado na medicina consiste na morfina, classificada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como essencial para o tratamento da dor causada por tumores cancerígenos. O aumento da expectativa de vida da população leva a uma incidência cada vez maior de casos de câncer no mundo todo – segundo a OMS, são cerca de 13,5 milhões de novos diagnósticos por ano e quase 70% desses pacientes sofrerão de dores crônicas.

– Em dores neoplásicas, utiliza-se o opióide sempre que necessário. Em outras situações, o uso deve ser avaliado caso a caso – defende a médica Lúcia Miranda Monteiro dos Santos, do Serviço de Tratamento de Dor e Medicina Paliativa do Hospital de Clínicas de Porto Alegre e membro da diretoria da Sociedade Gaúcha para o Estudo da Dor.

Além de pacientes com câncer, o medicamento pode ser indicado àqueles que passarão por uma cirurgia, tiveram um osso quebrado ou sofreram um ferimento muito grave. No Hospital de Clínicas de Porto Alegre, por exemplo, o opióide é indicado a pacientes que tiveram isquemia de um membro e serão operados para desobstrução da artéria, segundo Lúcia. Enquanto aguardam a intervenção, a medicação ajuda a aliviar a dor.

Segundo o anestesiologista Irimar de Paula Posso, supervisor da Equipe de Controle da Dor do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo, os médicos brasileiros estão entre os que menos usam opióides no tratamento de dores crônicas:

– Eles têm medo dos efeitos colaterais. A burocracia que envolve o uso desse medicamento também influi.

Dados divulgados pela Organização Internacional para Controle e Fiscalização de Narcóticos revelam que o Brasil consome, em média, 364 doses diárias de morfina a cada um milhão de habitantes. Na Dinamarca, a média de consumo diária é de 6.962 doses.

A subutilização resulta do desconhecimento dos profissionais de saúde em relação à prescrição do medicamento. Os opióides podem causar no paciente sonolência, náuseas e vômitos, retenção urinária e prisão de ventre, entre outros efeitos colaterais. A reação mais temida é a dependência, o que pode ocorrer em indivíduos adictos – aqueles que apresentam histórico de vícios relacionados a outras drogas, como o álcool. Por isso, é necessário muito critério na indicação a pacientes portadores de dor crônica não-neoplásica.

Mas especialistas afirmam que, nos casos em que não há predisposição para a dependência, os opióides podem ser usados com segurança. A dose a ser ministrada varia de acordo com o sofrimento e com o grau de tolerância. É possível utilizar escalas – numéricas ou de faces – para mensurar a dor e suas variações a cada dia. As informações dadas pelo próprio doente têm grande importância.

– Uma das coisas mais tristes que um médico pode fazer é não valorizar a queixa do paciente – reclama Lúcia.

Autor: Editoria Vida
OBID Fonte: Zero Hora – RS