Uso de drogas é freqüente para 15% dos adolescentes

A Política Nacional Antidrogas, editada em sua versão mais recente no ano de 2005 preconiza ações de prevenção nas escolas, contra o uso de drogas psicotrópicas. A lei 11.343, de 2006, também determina que os ensinos fundamental, médio e superior também contemplem a temática.

Em uma pesquisa feita pelo Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), em escolas públicas dos 27 estados do país, e publicada em 2005, demonstra dados que impressionam. Em Natal, onde 1.663 jovens foram entrevistados, 15,5% deles disseram fazer uso de drogas pelo menos uma vez por mês.

Ainda segundo a pesquisa do Cebrid, 9,6% de meninos e meninas na faixa etária entre 10 a 12 anos, disseram que fizeram uso de drogas psicotrópicas ao menos uma vez na vida. Sobre o álcool, 9,1% dos jovens, reconheceram fazer uso freqüente, e 6,4% disseram ter feito uma vez na vida o uso de solventes, como entorpecente.

Mesmo assim, conversando com especialistas, professores e alunos, é possível ver que as escolas da capital, tanto públicas quanto privadas, ainda estão longe do que seria o ideal, para um efetivo trabalho de prevenção ao uso de entorpecentes. Algumas iniciativas isoladas são tomadas, até com méritos, mas ainda há um vácuo no que diz respeito a uma política pedagógica eficiente.

A diretora pedagógica de um colégio particular da zona Sul, contou como trabalha para manter os alunos longe das drogas, mas reconhece que falar sobre o assunto não é fácil. Marivete Calvoni atua há mais de 30 anos. Rigorosa, se mostra vigilante e mantém os olhos abertos, sobre o comportamento dos alunos. Mas sabe como é delicado abordar um aluno suspeito do uso de drogas.

“É uma abordagem muito complicada. Você não pode chegar de qualquer jeito para falar sobre isso. Tanto com o aluno, como com os pais”, disse Marivete.

Mas fez a ressalva de que, a escola onde trabalha, promove debates, palestras e outras atividades sobre o perigo das drogas, além de uma abordagem interdisciplinar do assunto “Antigamente este era um assunto sobre o qual ninguém falava. Hoje os alunos já aceitam conversar. Sabemos que muitos que se drogam, é porque sentem uma grande carência”.

A diretora pedagógica se refere ao modo de vida de grande parte dos pais hoje em dia. Segundo ela, desde que a mulher criou sua independência financeira, os filhos ficaram perdidos, muitas vezes ociosos e carentes. E é exatamente com os pais que as unidades encontram dificuldade em falar do assunto.

“É um assunto delicado. Quando notamos que um aluno está desinteressado, faltando, agressivo, chamamos os pais. Mas muitos não querem aceitar que aquilo pode estar ocorrendo com um filho deles”.

Para o técnico pedagógico da Secretaria Estadual de Educação, João Maria Mendonça de Moura, falta ainda uma política pública de prevenção ao uso das drogas. Além de uma intervenção mais integrada, das instituições que fazem o atendimento ao jovem. Existem boas iniciativas no estado. Mas ainda podemos e devemos melhorar”.

João Maria é também presidente do Conselho Estadual de Entorpecentes (Conen) e segundo ele, é necessário ainda que haja uma formação mais adequada, contínua, dos professores da rede pública. “Temos que promover um ensino transversalizado, em todas as disciplinas, para uma melhor política de prevenção, tratamento recuperação e reinserção social”.

Mas segundo João Maria, é preciso reconhecer algumas iniciativas, que vêm tendo um belo resultado. Entre elas, um projeto desenvolvido por um professor da rede estadual, que após um curso, transforma alunos em agentes multiplicadores no combate às drogas. Algo parecido ocorre com o Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência (Proerd), criado pela Polícia Militar, e que trabalha com crianças de escolas públicas e privadas. De 2002 até hoje, o Proerd formou mais de 80 mil novos “soldados” na dura luta contra os entorpecentes.

Assunto ainda é tabu nas escolas

Pelo menos os alunos entrevistados pela TN, corroboram o que dizem os especialistas. Tanto jovens de escolas públicas, como de escolas privadas, dizem até mais: segundo eles, o tema “drogas” não é somente mal abordado nas salas-de-aulas, e sim, lembrado por professores em momentos extremamente raros.

Os estudantes contam que a grade curricular de nenhuma disciplina contempla o assunto no dia-a-dia, e que os professores não se mostram muito dispostos a tratar do problema. Os jovens das escolas públicas falam de desinteresse por parte dos mestres e os de escolas particulares contam que falar de drogas significa vencer um tabu.

“A juventude caminha do jeito dela, porque esse assunto não é falado na sala-de-aula”, reclamou Silvânia Cristina, de 17 anos, aluna do 2º ano do ensino médio, de uma escola estadual localizada no Alecrim. Segundo ela, os estudantes se queixam da falta de debates sobre outros assuntos importantes, como sexualidade e política.

“Tenho exemplos de amigos que se drogavam quando estavam na escola, passaram para a faculdade e continuaram se drogando, se matando, porque não tinham nenhum ensinamento sobre o assunto”, disse a jovem Silvânia. Ela conta que nas escolas públicas também que há grande discriminação contra quem cai nas mãos da droga.

Thayze Kelly, de 15 anos, estuda no mesmo colégio, mas faz o 1º ano do ensino médio. Ela acrescenta que seria necessário uma vontade das escolas em tratar do assunto, já que o mundo inteiro, do lado de fora, propicia contato com os entorpecentes. “A gente sabe de muita coisa, mas acaba aprendendo com outros colegas, na rua”.

Até mesmo os mais jovens, já têm consciência do quanto estão perdendo de conscientização, com a falta de aulas sobre o consumo de drogas. Joalyson Soares, de 13 anos, aluno do 7º ano do ensino fundamental, reclama. “Eu queria que eles lembrassem disso, pra gente aprender mais sobre as drogas. Porque tem muitos da nossa idade que acabam entrando nessa porque não tiveram educação”.

Para Janiara Freire, de 16 anos, estudante do 3º ano do ensino médio de uma escola particular, falar de drogas ainda é algo reservado aos bate-papos entre alunos. “É um assunto meio privado. É como se tivesse um preconceito, um cuidado em não falar. E não era pra ser assim, porque hoje se encontra droga na frente de muita escola por aí. Na minha, não, mas em outras…”

Carla Hemillay, tem 18, é aluna de uma escola particular, de ensino religioso, tradicional da cidade. Segundo ela, tais fatores fazem com que seja evitado dar ênfase ao assunto, que acaba sendo tratado de forma velada. “Converso mais sobre isso na minha casa, e mesmo assim, quando o assunto surge de repente na conversa”, disse.

O colega dela, Flávio Figueiredo, de 16 anos, conta que aprendeu o que sabe sobre drogas em casa. Que não se lembra de ter visto o assunto em alguma disciplina na escola, onde fazem o pré-vestibular. “Minha família não tem problema em falar sobre isso. Mas acabo sabendo dos problemas pela mídia, televisão, internet”.

Semana vai discutir consumo de drogas

Entidades de todo o país estão preparando a 10ª Semana Nacional Anti-Drogas, entre 19 a 26 de junho próximo. A semana especial ocorre anualmente e cada estado prepara sua programação. O objetivo é sensibilizar e mobilizar entidades públicas e privadas, e sociedade civil sobre os problemas causados pelo consumo de drogas

Participam dos eventos autoridades, membros de entidades de combate aos entorpecentes, especialistas das áreas de saúde, educação e segurança, poder judiciário, líderes religiosos e moradores das cidades interessados no problema. No Rio Grande do Norte os eventos se concentram em sua maioria em Natal, onde reuniões estão sendo realizadas para a definição da programação.

Dentro da semana Anti-drogas, os participantes vão poder assistir de palestras, exposições, painéis, debates a apresentações teatrais. Logo na semana seguinte, no dias 26 e 27, a Universidade Federal do Rio Grande do Norte, vai estar organizando um grande fórum, tratando da prevenção, tratamento, recuperação e inserção social dos usuários de entorpecentes. Além de políticas públicas que pudessem minimizar o problema.

Proerd tem resultados positivos

O Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência (Proerd) é um belo exemplo de ação bem sucedida no combate às drogas a partir da prevenção, da educação. Criado na Polícia Militar do Rio de Janeiro em 1992 – a exemplo de um projeto original nos EUA – o programa chegou ao RN em 2002, onde milhares de crianças aprenderam que distância das drogas significa qualidade de vida.

Tudo consiste em dez aulas semanais bastante dinâmicas, dadas a crianças de 9 a 12 anos, por um Policial Militar fardado. Ao fim do curso, os alunos ganham uma bela festa de formatura, com certificado e tudo. O programa é aplicado a escolas públicas e privadas, e no Rio Grande do Norte é considerado destaque no país. “Somos referência, com certeza. Participamos de encontros em todo o Brasil”, disse o capitão Arthur Emílio, sub-coordenador do Proerd.

No Rio Grande do Norte, 15 cidades são atendidas. Ao todo, são instrutores cuidadosamente escolhidos para enfrentar a sede de conhecimento dos pequenos. “Escolhemos essa idade, porque é quando a criança começa a ter como referência a escola”, explicou o capitão Arthur. O Proerd depois faz uma espécie de reciclagem, com adolescentes, e tem curso para os pais também. O soldado Laurindo do Nascimento está no Proerd desde 2004, e não esconde a satisfação de plantar nas crianças uma semente, que irá trazer bons frutos à sociedade. “É quase inexplicável definir como nos sentimos. Só mesmo vivenciando a experiência para saber como é”, disse.

Na última sexta, o soldado Laurindo deu uma aula a uma turma de 5° ano do ensino fundamental. A professora, Jaqueline de Macedo, é fã do programa da PM. “Meu filho participou em 2003 e até hoje eu tenho certeza de que nunca ele irá se envolver com drogas”.

“Pais e escolas precisam estar preparados”

A pesquisa do Centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (Cebrid), cujos resultados foram utilizados nesta reportagem foi publicada em 2005. O estudo faz uma análise do uso de drogas psicotrópicas por estudantes da rede pública, nos 27 estados do país. Em Natal, foram entrevistados 1.663 jovens de três escolas municipais, doze estaduais e uma unidade federal.

A unidade local da pesquisa foi supervisionada pela médica pediatra Maria Dalva Araújo, organizadora do trabalho de uma coordenadora e cinco entrevistadoras. Segundo ela, o trabalho de campo foi bem recebido nas escolas, que colaboraram bastante para a pesquisa. Os alunos, de idades variadas, responderam a um extenso questionário, e no resultado não foram divulgados seus nomes.

Na pesquisa não foram encontradas grandes diferenças da situação entre o Rio Grande do Norte e outros estados do Nordeste. A diferenciação se dá com os estados do Sul e Sudeste, principalmente no que diz respeito a entorpecentes utilizados. Para a Dra. Dalva, uma má formação dos professores e o preconceito, não permitem que uma boa abordagem seja feita nas salas-de-aula.

Existe algum fator específico que caracterize Natal nos aspectos abordados na pesquisa?

Em geral, as caraterísticas de Natal são as mesmas das de outras capitais do Nordeste. As drogas mais utilizadas são, por exemplo, solventes, maconha, anfetamínicos, ansiolíticos e cocaína. No Sul e Sudeste existe o uso da merla, uma espécie de pasta, derivada da cocaína.

Foi difícil fazer o trabalho aqui em Natal, nas escolas?

Não, pelo contrário. Fomos muito bem recebidos em todas as escolas, que foram sorteadas pelo Ministério da Educação. Este ano, o Cebrid estava programando fazer uma nova pesquisa, porém abordando também escolas privadas. Por questões de recurso, a pesquisa ficou para o ano que vem. Mas creio que deveremos ter alguma dificuldade nas escolas particulares. Não sei se elas vão querer participar.

Que impressão a senhora tem sobre a forma como o assunto é abordado nas escolas públicas?

Claro que este tipo de questão não foi objeto da pesquisa. Mas com o tempo em que trabalho com o assunto, observo que ainda não há uma boa abordagem com os alunos. Os professores não receberam uma formação para trabalhar com este problema. Existe um certo preconceito, em toda a sociedade com o tema “drogas”, e isso também atrapalha bastante.

Como o problema é tratado atualmente, e como deveria ser?

Acho que a filosofia utilizada deveria ser mais ou menos assim: “Me ame quando eu menos merecer”. Atualmente, se há uma suspeita de que um estudante está usando drogas, ele é rechaçado, segregado, quando a atitude deveria ser inversa. Seria preciso também trabalhar os pais e os próprios alunos. A grande maioria dos pais tem dificuldade de falar sobre drogas em casa, e os professores também são formados neste tabu.

Como a sociedade poderia iniciar um trabalho efetivo contra as drogas?

É ingênuo quem pensa que pode vencer as drogas, apenas combatendo quem vende. Tem que haver também um trabalho em cima de quem compra. E a família é o primeiro lugar para se trabalhar isto. O tipo de vida que os pais levam atualmente – apenas lutando para ganhar o salário – não ajuda. Os pais precisam estar preparados, e depois as escolas.

Autor: Jacson Damasceno
OBID Fonte: Tribuna do Norte-RN