Só um tênue fio mantém um homem sóbrio

O consumo de bebidas alcoólicas faz parte da história da humanidade e está associado às celebrações, às cerimônias e aos eventos culturais, sociais e de negócios. Porém, sua faceta não é única. Dentro da problemática que envolve tal consumo, vários são os aspectos que contribuem para que a questão seja foco de atenção de toda a sociedade.

Sob uma sutil linha, estão classificados os padrões de consumo do álcool, entre eles o beber de baixo risco, o uso nocivo e o beber dependente.
No baixo risco estão inseridos os adultos que bebem até duas doses diárias. O beber dependente ou alcoolismo, que representa 11 % da população brasileira é um tipo de padrão mais sistemático, no qual o indivíduo bebe por causa dos sintomas de abstinência e do apetite exacerbado pela substância. A química cerebral é outra e o padrão é disfuncional.

Porém, se o alcoolismo já é um conhecido problema de saúde pública, o que dizer do quadro social que se forma quando acrescentamos aos alcoólatras mais 28% da população que faz uso nocivo da bebida? E se consideramos ainda que esse uso nocivo está muito mais relacionado à mortalidade, à violência, ao sexo sem preservativos e aos acidentes?

Estudo –Isso é o que revela o I Levantamento Nacional sobre os Padrões de Consumo de Álcool na População Brasileira, lançado em 2007 pelo governo federal, por meio da Secretaria Nacional Antidrogas (Senad). A publicação traça o perfil do consumidor brasileiro de álcool adulto, acima de 18 anos e expõe a problemática no Brasil.
O médico Ronaldo Laranjeira, coordenador da Unidade de Pesquisa de Álcool e Drogas (Uniad) e um dos responsáveis pela elaboração, redação e organização do levantamento, afirma que, no planeta, o consumo nocivo é responsável por cerca de 3% de todas as mortes, incluindo desde a cirrose e o câncer hepático até acidentes, quedas, intoxicações e homicídios.

No Brasil, as bebidas alcoólicas são um dos principais fatores que geram doença e mortalidade, sendo considerado entre 8% e 14,9% do total de problemas de saúde do País.

Quem é quem – De acordo com o estudo, 48% dos brasileiros são abstinentes, ou seja, nunca bebem ou bebem menos de uma vez por ano. Já 52% dos brasileiros, acima de 18 anos, bebem pelo menos uma vez ao ano. Desses, 65% são homens e 41% mulheres.

Dos homens, 11% bebem todos os dias e 28% consomem bebidas alcoólicas de uma a quatro vezes por semana. 38% dos homens que beberam no último ano geralmente consumiram cinco doses ou mais de bebida em cada ocasião. As mulheres são maioria no consumo baixo, com até duas doses diárias.

E é justamente na quantidade de doses tomadas em um único dia que o beber como lazer pode transformar-se em uso nocivo do álcool, com danos para a saúde que vão da exposição a doenças ao risco de acidentes graves.
Conhecido na literatura internacional como “binge drinking” ou “beber em binge”, esta forma de consumo é caracterizada pelo uso de cinco doses ou mais para os homens e quatro doses ou mais para as mulheres num único episódio.

Do total da população adulta brasileira, 28% já bebeu em “binge” pelo menos uma vez no último ano. Os homens são os que mais bebem em “binge”: 40% da população masculina, enquanto entre as mulheres são 18%.
De acordo com o levantamento, o beber em grandes quantidades é um fenômeno que diminui com a idade. Enquanto 40% dos jovens de 18 a 24 anos já beberam em “binge”, este número cai para 20% entre aqueles com 45 e 59 anos, e desce para 10% entre os mais velhos.

Preferida – A cerveja é a bebida mais consumida entre os que bebem grandes quantidades. De todas as doses consumidas por aqueles que beberam em “binge” no último ano, 73% foram de cerveja. Os destilados vêm em segundo lugar, com 13%, e o vinho com 12%. As bebidas “ice” representam somente 1%. Para mais de 20% desses bebedores, a freqüência é maior do que semanal.
Segundo Laranjeira o “beber em binge” é mais agudo, não planejado e não organizado.

Pelo fato de ocorrerem, durante esse episódio, importantes modificações neurofisiológicas, entre elas a desinibição comportamental, o comprometimento cognitivo, a diminuição da atenção, a piora da capacidade de julgamento e a diminuição da coordenação motora, o “beber em binge” está diretamente relacionado à violência doméstica, física e sexual e aos acidentes de carro, quedas, atropelamentos e afogamentos. Além disso, esta prática gera maiores custos sociais e de saúde do que o uso contínuo e dependente.

“A problemática do consumo de álcool é multifacetada. A dependência é um dos piores aspectos do álcool para o próprio individuo, porém, para a sociedade, o uso nocivo tem efeitos muito mais devastadores. Se quantificarmos o custo social relacionado ao álcool, o alcoolismo é só uma parte. Com os prejuízos causados pelo uso nocivo o problema ganha outra dimensão”, explica Laranjeira.

O levantamento aponta que os efeitos do “beber em binge” podem ser agravados de acordo com o peso da pessoa, a idade, a rapidez com que consome, o fato de ter-se alimentado ou não e, naturalmente, o número de doses que consumiu. Fatores sociais e psíquicos podem contribuir para esse agravamento, como o desemprego, a falta de perspectiva, os conflitos familiares e de relacionamento.
Consequências – Outra avaliação do levantamento mostra que os locais onde os indivíduos bebem em “binge” podem contribuir para a adoção de medidas que reduzam os riscos para o bebedor e para aqueles que estão próximos. Beber muito no bar ou em festas, por exemplo, pode significar um dirigir embriagado no retorno para casa ou alguma forma de violência. Do conjunto de adultos que beberam em “binge” nos últimos 12 meses, 27% beberam no bar ou na balada. A casa, com 23%, foi o segundo local mais utilizado pelas pessoas na vez que mais beberam no último ano.

Problemas físicos, familiares, sociais e de violência estão relacionados com o uso nocivo do álcool. Mas, além disso, quando essa situação ocorre entre os jovens, o risco do beber nocivo tornar-se dependência é grande.
Segundo Laranjeira, isso pode ocorrer porque o cérebro do adolescente é imaturo e está em transformação. O uso nocivo do álcool poderia desenhá-lo em um formato diferente daquele que seria, caso não houvesse consumo de drogas ou de álcool.

“Pesquisas mostram que parte das pessoas que fazem uso nocivo da bebida vai caminhar para o alcoolismo. Isso depende de vários fatores, mas, se ocorre no cérebro adolescente, que está caminhando para a fase adulta, as chances são bem maiores”, explica o especialista.
Nos adultos, é importante ressaltar que também existe essa probabilidade. Quanto mais ele fizer uso em “binge”, maior o risco do cérebro se formatar de outro modo. Laranjeira afirma que a exposição do cérebro ao álcool muda sua parte biológica e a sua expressão genética. O indivíduo fica predisposto a necessitar de mais álcool. E é exatamente nessa mudança de apetite pelo álcool que pode se desenvolver a dependência.

Autor: Diário do Comércio-SP
OBID Fonte: Diário do Comércio – SP