Fisgado na primeira tragada

Adolescentes podem se tornar dependentes de cigarro poucas semanas após começarem a fumar. Um estudo mostrou que, em média, os jovens fumavam apenas dois cigarros por semana quando os primeiros sintomas da dependência se manifestaram.

Durante minha especialização em medicina da família estudei a dependência de nicotina sob a óptica conservadora. Os médicos havia muito acreditavam que as pessoas fumam basicamente por prazer – e que, com o tempo, se tornam psicologicamente dependentes.

A tolerância aos efeitos da nicotina estimula que se fume cada vez mais. A dependência física começa quando o hábito atinge uma freqüência preocupante – cerca de cinco cigarros por dia – e a nicotina passa a estar constantemente presente no sangue, em geral, depois de anos e milhares de cigarros fumados. Algumas horas após o último cigarro o fumante dependente passa a apresentar os sintomas da abstinência de nicotina: inquietação, irritabilidade e dificuldade de concentração, entre outros efeitos. Segundo esse conceito, as pessoas que fumam menos de cinco cigarros por dia não são dependentes.

Eu me valia desse princípio quando deparei com uma paciente daquelas que nunca leu um livro teórico. Durante uma consulta de rotina, uma adolescente contou sobre sua dificuldade para largar do cigarro, mesmo tendo começado a fumar havia apenas dois meses. Pensei que ela fosse um caso à parte, uma rara exceção à regra sobre o lento desenvolvimento da dependência, que levaria anos.

Mas isso atiçou a minha curiosidade e decidi entrevistar estudantes de um colégio próximo sobre o hábito de fumar. Fiquei intrigado com uma garota de 14 anos que afirmou ter feito duas sérias tentativas frustradas para deixar o cigarro. E ela havia fumado somente uns poucos cigarros por semana, durante dois meses.

A descrição de seus sintomas durante o perío-do em que ficou sem fumar lembrava o relato queixoso dos meus pacientes que fumam dois maços por dia. O rápido aparecimento desses sintomas contrapunha grande parte do que eu achava que sabia sobre nicotina. E, quando fui verificar essas informações em sua fonte, constatei que tudo o que havia aprendido não passava de especulação.

Patrocinado pelo Instituto Americano do Câncer e pelo Instituto Americano contra o Abuso de Drogas (Nida, na sigla em inglês), passei a década seguinte pesquisando o desenvolvimento da dependência de nicotina entre fumantes novatos. Sei que o modelo de dependência descrito no início do artigo é ficção.

Minha pesquisa apóia uma nova hipótese para mostrar que a exposição mínima à nicotina – como um único cigarro – pode alterar o cérebro, modificando seus neurônios a ponto de estimular o desejo de fumar. Esse conceito, uma vez comprovado, pode vir a indicar novos caminhos promissores aos pesquisadores para o desenvolvimento de novas drogas e tratamentos que ajudem a deixar o hábito.

Joseph R. DiFranza é clínico geral da faculdade de medicina da University of Massachusetts, nos Estados Unidos. Ávido opositor da indústria do tabaco, há 25 anos DiFranza vem empreendendo esforços para impedir que os produtos dessas companhias sejam vendidos para crianças; e sua pesquisa e seu apelo à Comissão da Câmara de Comércio Federal Americana resultaram na proibição da veiculação de propagandas com o mascote dos cigarros Camel. DiFranza recebeu patrocínio da Pfizer para apurar se a teoria da dependência do cigarro justifica a eficácia dos medicamentos para deixar de fumar.

Autor: Joseph R. DiFranza
OBID Fonte: Scientific American Brasil