Existe saída para o quimiodependente

Em 1937, em Akron, Ohio, nos Estados Unidos da América, aconteceu a primeira reunião do grupo de pessoas que mais tarde se tornou conhecido internacionalmente por Alcoólicos Anônimos.

Até então, o futuro de um alcoólico quase sempre acabava em uma cadeia para criminosos, no hospital de psiquiatria ou perante o “xerife” local. Esta conjunção entre médico e psiquiatra foi a única nova resposta para o alcoolismo e, ainda hoje, é a base de tratamento para alcoólicos e drogadictos.

“AA” é um grupo de auto-ajuda, cujos princípios conhecidos como os Doze Passos costumam ser reconhecidos, no mundo inteiro, como o melhor recurso para a recuperação de quimiodependentes e suas famílias. Em Campinas dezenas desses grupos estão funcionando.

Após criteriosos estudos, em 1988 a Organização Mundial de Saúde declarou oficialmente a quimiodependência como uma doença. Hoje, quem atua nessa área sabe que existe um tratamento que funciona. Sabe que educar é a melhor maneira de se prevenir a doença e reconhece que, apesar de não ter cura, pode-se impedir a progressão da doença e permitir ao recuperado viver bem.

Quantas pessoas sabem desse fato? Qual é a reação costumeira da família e da sociedade perante um alcoólatra ou um adicto? Geralmente, desespero, negação, raiva, vergonha e culpa, citando somente algumas emoções. Por quê? Em minha opinião, falta de informações precisas. Quando surge a suspeita de que alguém está abusando das drogas e perdendo o controle da própria vida, a família muitas vezes sente vergonha, nega ou esconde o problema.

Uma atitude polêmica costuma ser a apatia e, outra, a negação por parte do indivíduo e sua família. Ninguém acredita que o alcoolismo ou a drogadicção possa invadir seu lar. Na verdade, não nos preparamos para encarar esse desafio. Inversamente, quando uma pessoa quebra o braço qual é a ação imediata? — Automaticamente, dirigimo-nos para o hospital ou à clínica para que profissionais cuidem da situação, aliviando as dores e impedindo as sérias conseqüências do não tratamento.

Professores buscam educar sobre o perigo das atividades que podem acabar em ferimentos. Entretanto, a dependência das drogas e do álcool não são vistos como ameaças, até o pior acontecer. Existe muita dor e tristes conseqüências para todos quando uma pessoa manifesta a dependência, com dores físicas, emocionais e transtornos mentais. Não vale a pena educarmos a criança e o jovem a respeito da dependência para evitarmos esse desespero e negação, quando uma orientação profissional será necessária?

O ato da negação é um artifício poderoso. Às vezes, julgamos que é somente o pobre e o marginalizado que se tornam alcoólicos e adictos de drogas. Ou achamos que esse problema restringe-se à esfera das estrelas de cinema e teatro, ou aos craques do esporte. Nada disso! A dependência acontece indiscriminadamente em toda a sociedade e afeta todos os seus segmentos. Devemos acordar e começar a educar e a tratar os dependentes, a fim de diminuir a violência sofrida pela sociedade que tem, sim, relação direta com o uso e abuso, a compra e venda, enfim, com o tráfico de drogas.

O preconceito é outro problema real para o quimiodependente e familiares. Por que o Alcoólicos Anônimos pede anonimato? Porque a sociedade discrimina o dependente, mesmo quando ele não mais usa substâncias e está em recuperação. Muitas pessoas que freqüentam as reuniões de “AA” mantêm sigilo para não prejudicar a família, emprego e sua relação com a sociedade.

Uma forte campanha deve ser feita na comunidade de educadores, que dissemine informações sobre a doença da quimiodependência, do alcoolismo, drogadicção, seus sintomas, prevenção e recuperação. Isso obviamente demanda investimentos financeiros. A campanha contra o tabagismo no Brasil é eficiente e alcança toda a sociedade. Os investimentos para a campanha, com o tema HIV/Aids e respectivos tratamentos, apresentam ótimos resultados em nível nacional e repercussão internacional, revelando que o Brasil é um líder nesta área.

A próxima campanha nacional deveria focalizar o alcoolismo e a drogadicção. Além do aspecto de alta relevância social, ajudaria na árdua tarefa de minimizar esse problema que aflige a sociedade e tanto prejuízo causa nos segmentos social, produtivo, de desenvolvimento e resgate da dignidade do ser humano.

Jane Hayes é professora e pedagoga, diretora do Instituto Souza Novaes, entidade dedicada à recuperação de quimiodependentes.
Autor: Jane Hayes
OBID Fonte: Correio Popular-Campinas-SP