Infância sob o risco do cigarro

De cada 10 crianças brasileiras, entre quatro e seis vivem em casas onde o hábito de fumar é uma prática freqüenteSob a fumaça do cigarro de pais e familiares, uma legião de crianças está exposta a doenças do mundo dos fumantes.

De cada 10 crianças brasileiras, entre quatro e seis vivem em casas onde o hábito de fumar é uma prática freqüente do pai, da mãe ou de ambos, segundo a Sociedade Americana de Câncer.

No mundo, 700 milhões de crianças são fumantes passivos, conforme dados da Organização Mundial da Saúde (OMS). Ao conviver com uma pessoa que fuma um maço (20 unidades) por dia, o fumante passivo inala o equivalente ao consumo de três cigarros. Em um mês, de acordo com pesquisa da Universidade de Toledo, nos Estados Unidos, é como se a criança fumasse 90 cigarros.

De acordo com o pneumologista José Miguel Chatkin, coordenador do Programa de Cessação do Tabagismo e professor da Faculdade de Medicina da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS), as crianças que convivem com fumantes estão mais propensas a otites, bronquites, pneumonias e asma, o que favorece o aparecimento de sintomas respiratórios, como tosse, catarro e falta de ar.

Quanto mais jovem uma pessoa é, mais nocivos são os efeitos do cigarro no seu organismo. Nos recém-nascidos, a inalação da fumaça aumenta o risco de infecções, pneumonias e de incidência da síndrome da morte súbita infantil, que acomete principalmente bebês nos primeiros seis meses de vida.

Mesmo dentro da barriga da mãe, a criança está desprotegida do cigarro. Quando a mãe dá uma tragada, as substâncias tóxicas inaladas são transmitidas ao feto por meio da corrente sangüínea e do cordão umbilical.

– Vejo mães fumando durante a gestação com muita freqüência. Se a mãe segue sendo tabagista, consome de 20 a 30 cigarros por dia, que é a média brasileira. Durante os nove meses da gestação, imagine o que é a exposição desse feto – analisa o pneumologista Alexandre Milagres, coordenador do Programa de Controle do Tabagismo do Hospital Municipal Raphael de Paula Souza, do Rio.

Durante a gestação, o fumo pode provocar aborto espontâneo e parto prematuro. O bebê está mais propenso a nascer com baixo peso e a ter comprometido o seu desenvolvimento intelectual. Ao nascer, a criança dependente de nicotina entra no que os médicos chamam de período de abstinência, que resulta em choro demasiado, insônia e tensão. Entre as mães fumantes, a produção de leite é menor, e o desmame, normalmente, ocorre mais cedo do que o normal.

Ao atingir a adolescência, o filho de uma mãe fumante tem mais chances de se tornar dependente do cigarro. É como se trouxesse no cérebro lembranças da nicotina. Segundo Milagres, uma pesquisa recente constatou que a presença de um gene pode favorecer o vício:

– Antigamente, a gente dizia que cem cigarros eram suficientes para se viciar. Agora, existem genes que provam que apenas um cigarro pode ser suficiente para tornar uma pessoa dependente. Hoje, tentamos falar para as crianças que elas não devem experimentar nicotina, da mesma forma que o crack.
Autor: Editoria Vida
OBID Fonte: Zero Hora – RS