Uma dependência que começa cedo

Consumo pesado de álcool atinge 7,6% dos jovens da rede pública de ensino do Rio e é maior do que a média nacional. Trinta por cento dos adolescentes que têm o hábito bebem até cair.

Rio – O consumo de bebidas alcoólicas por menores de idade, que levou à detenção dos proprietários de um bar na semana passada, em Campo Grande, não é raro, apesar dos poucos flagrantes. Pesquisas da Secretaria Nacional Antidrogas (Senad) indicam que o consumo de álcool entre adolescentes acontece cada vez mais cedo e em maior quantidade e freqüência.

Entre estudantes cariocas da rede pública de 10 a 18 anos, 7,6% fazem uso pesado de álcool (20 dias ou mais no mês que precedeu o estudo). O percentual é maior do que a média nacional (6,7%). E, apesar de cerca de 60% dos jovens brasileiros serem abstêmios, 30% dos que bebem ingeriram cinco ou mais doses na mesma ocasião duas vezes por mês ou mais no último ano. É como se bebessem até cair.

Para Ronaldo Laranjeira, coordenador do 1º Levantamento Nacional sobre os Padrões de Consumo de Álcool na População Brasileira, a bebida na juventude é um problema de saúde pública. “Quanto mais precoce for o uso regular de álcool, maiores serão as chances de o jovem se tornar um adulto dependente”, afirma o professor de Psiquiatria.

E o álcool é a substância que tem a menor média de idade relativa ao primeiro uso. O jovem brasileiro experimenta pela primeira vez em média com 13,9 anos. Com 14,6 anos, o consumo se torna freqüente. Uma criança de apenas 8 anos já foi atendida no Núcleo de Estudos e Pesquisas em Atenção ao Uso de Drogas (Nepad/Uerj) devido a problemas relacionados com álcool. “Semana passada mesmo atendi um adolescente de 13 anos de Teresópolis que diz beber todo dia cachaça com os amigos da escola”, conta Maria Thereza de Aquino, psiquiatra e diretora do Nepad.

Para ela, as bebidas energéticas estimulam o maior consumo de álcool entre jovens já que os mantêm acordados. “Em vez de se prostrarem, os adolescentes ficam mais excitados e acabam bebendo mais”, explica.

Ana Regina Noto, uma das coordenadoras do 5º Levantamento sobre Consumo de Drogas entre Estudantes do Ensino Fundamental e Médio da Rede Pública, lembra que mais da metade dos menores entrevistados disseram que experimentaram pela primeira vez em casa a bebida oferecida pelos próprios pais. “É um hábito cultural, mas que depende da maneira como é iniciado para não se tornar um problema”, ressalta. Por isso, ela aconselha muita conversa entre pais e filhos para informar e impor limites.

Fácil acesso incentiva a precocidade

Especialistas apontam a facilidade de acesso como a maior causa do consumo de álcool cada vez mais cedo. A venda de bebidas alcoólicas para menores de idade é crime, mas jovens compram o produto em bares, supermercados e postos de gasolina. “Além disso, a bebida é barata e a propaganda não cansa de exaltar que todo mundo que bebe é feliz e bonito, o que é mentira”, critica Maria Thereza de Aquino.

De acordo com Ronaldo Laranjeira, o problema não se resolve apenas com tratamento. “A própria Organização Mundial de Saúde aconselha proibir a propaganda e aumentar o preço. É preciso ainda fazer valer a lei que proíbe a venda para menores”, defende.

O consumo de álcool entre os jovens é apontado como um dos principais responsáveis por acidentes de trânsito, vandalismo, brigas e sexo sem camisinha nessa faixa etária. O Nepad presta atendimento gratuito e funciona na Rua Fonseca Teles 121, 4º andar, em São Cristóvão. Telefones: 2589-3269 e 2587-7109. O índice de recuperação de adolescentes é quase de 100%.
Autor: Madalena Romeo
OBID Fonte: O Dia – RJ (Com alterações)