Entrevista com General Paulo Roberto Uchôa

“Somos rota do tráfico”

Brasília – O general da reserva Paulo Roberto Uchôa tem um grande desafio pela frente e sabe disso. Ele comanda a Secretária Nacional Antidrogas (Senad) desde 2001.

O trabalho é elogiado pela ONU, mas o Brasil continua a se destacar como principal consumidor de drogas na América Latina. Uma das preocupações da secretaria é clara: o país virou uma das principiais rotas dos traficantes para a Europa e Ásia, via África. Como efeito colateral, a oferta aumenta. O general avalia que o Brasil segue uma tendência mundial. “O consumo das drogas aumentou no mundo inteiro”, comenta.

Qual a estratégia do governo para reverter o aumento de usuários?

Já faz algum tempo, a estratégia tem sido não só priorizar a redução da oferta, mas intensificar as ações relacionadas à redução da demanda. Precisamos informar mais a sociedade, capacitar lideranças de todos os segmentos sociais que tenham a ver com o problema. O governo e a sociedade devem propiciar as condições para o nosso jovem decidir sobre as drogas.

Indiscutivelmente. Estamos em uma posição geográfica muito especial, que nenhum país tem no mundo. Somos o único país que faz fronteira com os três maiores produtores de cocaína do mundo: Colômbia, Peru e Bolívia. E também fazemos fronteira com um dos maiores produtores de maconha, que é o Paraguai. E temos um litoral maravilhoso, para a droga sair via portos e aeroportos. Para os traficantes, é um país de trânsito para a Ásia e a Europa. No meio do caminho, uma parte da droga fica para consumo. Nós pagamos esse ônus e estamos cientes disso.

O tráfico doméstico não tem influenciado nisso?

O tráfico brasileiro é conseqüência de uma série de fatores. O problema do Rio de Janeiro é muito específico, e São Paulo é muito semelhante às grandes cidades do mundo. É um problema de segurança pública muito sério, e as autoridades têm de se preocupar com os dois lados da moeda: a repressão e a prevenção. A sociedade sabe que é a polícia que combate o tráfico. Mas, na hora de orientar um jovem, não é a polícia que faz isso. É a família, a igreja, a escola.

A maconha é a droga mais consumida no Brasil. Existe parceria com o Paraguai para enfrentar esse quadro?

Já existe e se intensifica. As nossas forças policiais, principalmente a Polícia Federal, têm um trabalho de repressão muito bom coordenado com as forças paraguaias, bolivianas, colombianas e peruanas. São operações conjuntas e bilaterais que se intensificam a cada ano. A PF também trabalha muito com os nossos parceiros da África e da Europa, que estão interessados em que a droga não saia dos nossos aeroportos para lá.
Autor: Editoria Internacional
OBID Fonte: Estado de Minas – MG