Tabagismo é doença e precisa de tratamento

Quando a funcionária pública Edilene Queiroz, 42, viu a irmã sofrer uma grave crise respiratória em conseqüência do cigarro, em dezembro do ano passado, percebeu que não dava mais para continuar. Edilene fumava desde os 18 anos de idade e o que acontecia com a irmã parecia um aviso do que estava prestes a se repetir com ela.

“Eu gostava de fumar, mas é muito prejudicial à saúde, minha e dos outros. Eu me sentia cansada, adoecia fácil, sofria discriminação, reprovação dos meus dois filhos. O cigarro não estava mais me dando os prazeres do início”. Decidida, não fuma desde aquele dia 31 de dezembro.

Segundo o Instituto Nacional do Câncer (Inca), pesquisas comprovam que 80% dos fumantes querem parar de fumar. “Estão conscientes da necessidade de parar de fumar. Tentam, mas não conseguem”, afirma o pneumologista, técnico da Divisão de Controle do Tabagismo do Inca, Ricardo Meireles, acrescentando que a dificuldade está na dependência, pois cigarro é uma droga.

“(O tabagismo) É uma doença. E, como doença, precisa de tratamento”, completa. Desse modo, o tabagista deve procurar ajuda em serviços de apoio ao tabagista ou um pneumologista.

Em janeiro, Edilene começou a participar do Programa de Controle do Tabagismo do Hospital de Messejana. Lá, passou a participar de terapia em grupo, baseada em abordagem comportamental, e iniciou o tratamento medicamentoso. ´´Foi como um porto seguro pra mim, eu vim pra me fortalecer. É muito difícil parar de fumar. Tanto pela questão do organismo, como pelo hábito´´. Mas a saúde falou mais alto e Edilene tem se mantido sem fumar.

Orientação
Para a pneumologista Penha Uchoa, coordenadora do Programa, o fumante precisa avaliar o desejo próprio de parar de fumar. “Muitas vezes, os pacientes procuram atendimento em virtude de pressão médica ou familiar. Mas o mais importante é o desejo próprio. Exclusão social e pressão estimulam. Porém, é preciso saber o quanto o paciente está preparado e motivado”, orienta. Por isso, ela defende que qualquer profissional deve fazer uma avaliação com o fumante, para orientá-lo sobre a melhor abordagem.

De acordo com Penha, com a avaliação, o profissional conhece o perfil do fumante. Há paciente que não está preparado para parar de fumar nos próximos seis meses (fase de pré-contemplação), há aqueles que já vislumbram parar de fumar em seis meses (contemplação), que desejam parar em 30 dias (preparação), que pararam de fumar (ação) ou aqueles que pararam de fumar há pelo menos seis meses (manutenção). “Isso norteia a abordagem que vai ser feita com este paciente”, disse.

Destes, aquele que deseja parar de fumar em 30 dias é o que melhor atende ao perfil do programa, que já atendeu 1.100 pacientes e tem taxa de abstinência anual de 50%.

O serviço tem capacidade para atender até 40 pacientes por mês. “Temos fila reprimida sempre. A demanda é de 600 pacientes em média. As inscrições são feitas só uma vez por mês. Esse é o nosso limite”.

Segundo a pneumologista, é importante que todo profissional de saúde avalie, aconselhe e ajude o paciente a parar de fumar e que as unidades de saúde disponibilizem estrutura e medicação específicas. “Falta disponibilizar medicação e treinar profissionais ao mesmo tempo”, opina.

E-Mais
65% do público do Programa de Controle do Tabagismo do Hospital de Messejana é formado por mulheres. A faixa etária média é de 46 anos. Conforme Penha Uchoa, de todas as motivações para parar de fumar, saúde é a principal. Em seguida, vem o incômodo da família, a cobrança do médico, a exclusão social. “Eles buscam qualidade de vida e longevidade com qualidade”.

“Muitos pacientes têm netos e isso lhes sensibilizou a parar de fumar. Os netos estão sendo orientados na escola e cobram”, diz Penha, acrescentando que, depois que param, os pacientes demonstram satisfação por terem ganhado um abraço do neto. “No final, eles entendem que parar de fumar é a construção de uma nova identidade”.

Segundo a pneumologista, o paciente toma posse de suas emoções e relações. A família volta a abraçar, acontecem menos discussões, ocorre o crescimento social, à medida que se começa a entender o direito do tabagista passivo.
Autor: Lucinthya Gomes
OBID Fonte: O Povo – CE