Droga na vida depois dos 60

Em geral, o abuso de drogas é relacionado à juventude. Não faltam pesquisas que mostrem o avanço do consumo de substâncias lícitas ou ilícitas dragando usuários cada vez mais novos. Mas, quando a dependência química é relatada na terceira idade, o cenário também se mostra desolador.

A dependência, associada a outras doenças degenerativas, é extremamente debilitante para os mais velhos. Isso quando o paciente consegue romper a faixa dos 60 anos.

De acordo com dados da Organização Mundial de Saúde, o álcool – a droga lícita mais consumida em todo o planeta – é responsável por 3,2% de todas as mortes registradas anualmente. O efeito devastador sobre a saúde do sujeito consome 4% dos anos de vida útil.

Na América Latina, esse desgaste chega a 16%. A projeção do Instituto Brasileiro de Estatística e Geografia (IBGE) mostra que o brasileiro pode viver até 72 anos, em média. Não será o caso de quem abusa do álcool desde os 18 anos. Ele corre o risco de não chegar lá: a doença baixa a expectativa de vida para 60 anos.

Fim da linha ou recomeço?

O Hospital San Julian, em Piraquara, tem 350 pacientes internados. Vinte e dois deles têm mais de 60 anos. E o clima frio contribui para o aumento da procura dos pacientes mais velhos. “Eles dizem que a pinga ajuda a esquentar”, explica a enfermeira Viviane Cristina Teixeira de Menezes. “Quadros depressivos também são comuns em pacientes idosos que apelam para a bebida”, observa o psiquiatra João Carlos Scalzo, diretor clínico e técnico do hospital. O San Julian é a última fase do tratamento disponível no SUS. Quando o atendimento ambulatorial e de hospital-dia não deu conta da dependência do paciente, ele é encaminhado para atenção intensiva.

Efeitos

No organismo do idoso, o efeito do álcool é mais rápido. Há co-morbidades que complicam o tratamento e exigem da equipe de atendimento manejo diferenciado nas diversas etapas, como a abstinência e o uso da medicação adequada.

Déficits cognitivos

Memória afetada, dificuldade de concentração e de atenção, demências, transtornos de humor.

Reações patológicas

Cardiopatias alcoólicas, hipertensão e neuropatia, como dificuldades motoras, de equilíbrio e deslocamento. A dependência química na terceira idade ocorre, na grande maioria, por causa da bebida. É nesta faixa etária que o diagnóstico de alcoolismo está consolidado.

Muitas vezes o paciente adquiriu o vício ainda jovem ou na idade adulta, e o tempo só acentuou o comportamento nocivo. Ainda que seja a camada da população com maior índice de abstenção – de acordo com o I Levantamento Nacional sobre o Padrão de Consumo de Álcool na População Brasileira, divulgado pela Secretaria Nacional Antidrogas, divulgado em 2007 – o tratamento do dependente químico idoso requer manejo diferenciado e abordagem específica.

A Clínica Nova Esperança, em Curitiba, tem uma média de 9% dos pacientes internados acima de 55 anos. Assim como o doente adulto jovem, o idoso precisa ser avaliado de forma integral, considerando algumas particularidades. “É preciso observar a dimensão social desse paciente. Qual a rede de apoio familiar que ele dispõe para sua recuperação, sua condição de saúde em geral, patologias associadas e o que já é conseqüência do vício”, explica o assistente social José Plínio do Amaral Almeida.

Além da abordagem cuidadosa, a administração da medicação precisa ser rigorosamente controlada. Isso porque além de interferir no controle das demais doenças existentes – cardiopatias e hipertensão, por exemplo –, corre-se o risco de contribuir para outros quadros de dependência química, ligada aos medicamentos. Ainda que o álcool seja o vilão número um do abuso de drogas na terceira idade, há casos de dependência de medicamentos, principalmente ansiolíticos.

Pílula azul

O farmacêutico Rubens Bendlin, da Secretaria de Estado da Saúde (Sesa), chama atenção para outro tipo de medicamento que vicia e tem no idoso um consumidor de risco. Usados sem indicação médica e adquiridos no mercado negro – o que nem sempre garante sua procedência e qualidade –, os remédios para impotência sexual são um elemento novo na cartela de substâncias que provocam dependência nos mais velhos. “Já há casos de relatos de violência sexual dos homens idosos contra mulheres, netos e familiares, por causa do uso indiscriminado desses medicamentos”, aponta. Outro reflexo desse comportamento é o crescimento da aids entre os mais velhos, homens e mulheres.

Não há política específica de atendimento ao dependente idoso na rede pública de saúde. A atenção à faixa etária acima dos 60 anos segue o padrão preconizado para o paciente adulto, adotado pelo Ministério da Saúde, que é de desospitalização. No Paraná esse atendimento é feito em ações terapêuticas, preventivas, educativas e reabilitadoras. A atenção básica é feita nos Centros de Atendimento Psicossocial, os Caps, distribuídos em todo o estado e em diferentes níveis de complexidade, de acordo com a abrangência territorial.

Curitiba tem 13 Caps: cinco unidades para atendimento de adultos e uma para crianças e adolescentes, especializados em dependência química. Os demais também fazem o atendimento de saúde mental, como transtornos psiquiátricos.
Autor: Gazeta do Povo – PR
OBID Fonte: Gazeta do Povo – PR