Lei faz do abstêmio o melhor amigo da vez

Com o endurecimento da legislação, que passou a punir com rigor motoristas que dirigem depois de beber qualquer quantidade de álcool, já não pode faltar à mesa do bar aquele amigo abstêmio, antes motivo de piadas, mas hoje levado mais do que a sério. Afinal, ele se mantém sóbrio, se diverte e ainda pode dar uma carona segura para casa. Estão em alta (boas) ações como as de uma profissional liberal membro dos Alcoólicos Anônimos (AA), que não se abstém de se divertir.

“Outro dia, para ir a uma festa em Santa Teresa, um amigo me pediu para dirigir o carro dele. Ele não sabe que eu sou do AA, mas sabe que não bebo. Depois disso me toquei que virei uma ótima companhia”, brinca ela.

“Cobertura completa” para drinque de advogado Algumas caronas vêm de onde menos se espera. No Club Chocolate, no São Conrado Fashion Mall, o barman e professor de drinques do curso de gastronomia da Estácio de Sá Waldeck Rocha, que não bebe, não raro leva um dos fregueses amigos para casa. “Depois da lei, um cliente já me pediu carona. E, para outros dois, eu mesmo ofereci. Não me custa nada, estando no meu caminho para casa, na Zona Sul”, conta o barman.

“Waldeck é meu amigo há muitos anos e prepara o melhor dry martini do mundo. Nunca bebo demais, mas a nova lei alterou minha rotina”. Para alguns lugares, vou de táxi, mas aqui no Club Chocolate tenho a segurança de ter “cobertura completa”, diverte-se o advogado Fernando Muniz, que mora em Copacabana.

Mulher tira carteira para aliviar o bolso do marido
Já a gerente da editora Senac Rio, Andréa d’Egmont, até se disfarça de bebedora. Mas não consegue escapar dos amigos que pedem um “bonde” para casa. Nem quer. “Para não ficarem pegando no meu pé, quando saio para beber com amigos peço para o garçom bater uma fruta sem a cachaça ou a vodca. Fica como se fosse um suco, mas sem água e sem ser coado”.

Em Maceió, acabei inspirando a dona da pousada Aldeia Beijupirá a criar um drinque chamado “mentirosca”, a caipirosca de mentira, conta Andréa. “Todos falam que sou a companheira ideal para sair para beber: não bebo, gosto de dirigir e faço entrega de amigos em domicílio”.

A nova lei mudou o rumo da relações-públicas Priscilla Amaral Lopes Ribeiro, de 26 anos: ela não bebe e, para diminuir os gastos com táxi, foi intimada pelo marido a tirar carteira de motorista. “Eu sempre protelei tirar a carteira. Mas agora, com o dinheiro que a gente está tendo que gastar para sair à noite, não tenho escolha. Sempre fui a mais zoada da turma por não beber. Daqui por diante, já sei que vou dar muita carona. Vou virar a primeira da lista de todo mundo na hora de sair para um barzinho”, diz ela.
Autor: Paula Autran
OBID Fonte: O Globo – RJ