Entrevista com Julio de Carvalho Ponce – Álcool e acidentes

1. Os dados da sua dissertação indicam um consumo excessivo de álcool pelos condutores?

Sim. Dos condutores pesquisados, 56,6% apresentaram álcool no sangue, todos acima do limite máximo estabelecido pela lei vigente à época (0,6 g/l). Além disso, a média de alcoolemia para esses condutores foi de 1,6 g/l, ou seja, mais de duas vezes e meia o limite legalmente permitido.

2. E entre os pedestres? O álcool pode ser um fator importante para o acontecimento de atropelamentos?

Não temos informações sobre condutores alcoolizados que tenham cometido atropelamentos, mas dentre as vítimas atropeladas, 35,0% estavam alcoolizadas, com uma média de 2,0 g/l de concentração alcoólica sanguínea, quantidade que interfere significativamente sobre a capacidade de raciocínio, crítica e tempo de reação a estímulos externos.

3. Pensando nisso, o Sr. acredita que o comportamento de “beber e dirigir” tenha algum impacto sobre o número de acidentes de trânsito e número de vítimas fatais?

Sim, com certeza. Os estudos mostram que os riscos de acidentes de trânsito com morte do condutor aumentam, de forma exponencial, com o aumento da alcoolemia. No limite anteriormente vigente (0,6g/L), o condutor tinha duas vezes e meia mais chances de sofrer um acidente com vítima fatal. Já nos Estados Unidos, onde o limite é de 0,8 g/l, o risco chega a ser seis vezes maior em relação ao condutor sóbrio.

4. Então, para o Sr., quais seriam as principais medidas de controle do comportamento de “beber e dirigir”?

Esse comportamento (e suas implicações) pode ser adequadamente controlado através de uma política pública organizada em três frentes: (a) educação (através de campanhas de conscientização); (b) fiscalização (através de policiamento adequado e equipado) e (c) cumprimento rigoroso da lei, com punição adequada do condutor infrator.

5. Qual é a opinião do Sr. sobre a nova lei de trânsito que estabelece “zero de alcoolemia” como limite ao condutor?

Acredito que, apesar de ser bastante rígida, é uma lei capaz de conscientizar os motoristas sobre o perigo de “beber e dirigir”. Há estudos que apontam que valores de concentração alcoólica sanguínea superiores a 0,2 g/l sejam suficientes à indução de alterações cognitivas que dificultem a condução segura de veículos automotores. Como há grande variabilidade biológica entre os indivíduos, principalmente quanto aos efeitos de álcool, há condutores que não poderiam dirigir com concentrações de álcool ainda menores.
Fonte:CISA – Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool