Entrevista com Flávio Pechansky – Novo Chair do CPDD

O psiquiatra Flavio Pechansky, coordenador do Centro de Pesquisas em Álcool e Drogas (CPAD), de Porto Alegre, será o próximo coordenador do Comitê Internacional do College on Problems of Drug Dependence (CPDD), a mais antiga instituição de estudo do álcool e drogas dos EUA, com 70 anos de história. Confira abaixo a entrevista.

Como o senhor começou a trabalhar com o CPDD?

Eu sou membro dessa instituição há quatro ou cinco anos. Morei nos EUA, como fellow do programa Hubert H. Humphrey, entre 93 e 94. Naquela época, fui um dos primeiros a receber financiamento do Nida (National Institute on Drug Abuse) para me treinar e me inscrever em projetos de pesquisa. Quanto terminou meu estágio e comecei a me preparar para voltar ao Brasil, aconteceu o primeiro dos encontros internacionais que geraram toda essa atividade. Então, o CPDD existe há 70 anos, mas desde 1995 tem uma conferência satélite internacional que acontece dentro do congresso do CPDD e que é patrocinada pelo Nida. Essa conferência, quando começou, tinha cerca de 20 membros.

Eu estava presente e fui um dos fundadores. Ela se transformou num evento grande. O congresso que acontece todos os anos tem 3 mil pessoas e a conferência tem aproximadamente 300 participantes de 65 países, além de 160 apresentações de pôsteres.
O que aconteceu ao longo desses anos é que o Nida financiou uma série de pesquisadores do exterior e alguns, não apenas eu, mas vários, se tornaram coordenadores de Centros ou profissionais de bastante destaque mundialmente. Eles inclusive criaram um prêmio para esses investigadores que, quando voltam aos seus países de origem, começam a representar lideranças nacionais ou internacionais. Eu sou o detentor do primeiro desses prêmios, é um destaque para liderança internacional na área de pesquisa.

De certa forma, o crescimento da conferência satélite desenvolveu a representatividade internacional da instituição?

Sim. A conferência começou como uma sementinha e cresceu violentamente. O CPDD sempre teve um Comitê Internacional, que tinha como finalidade fazer seleção para bolsas de estágio para pessoas do exterior irem ao congresso. Nos últimos anos, a participação de membros da comunidade de pesquisa internacional tem crescido muito no CPDD e o Nida, cada vez mais, está financiando pesquisas também fora dos EUA. Portanto, esse Comitê tende a assumir um papel crescente, porque ele vai servir de ligação entre a instituição americana e os pesquisadores do resto do mundo. O comitê é formado por sócios do College. Metade da composição é de investigadores americanos e metade é de investigadores internacionais.

O cargo já foi ocupado por outros brasileiros?

Não. Eu sou o primeiro sul-americano a fazer parte e ser chair do Comitê. Funciona da seguinte forma: ele tem um mandato de três anos e nem todo mundo vota no mesmo momento, para não trocar todos juntos. Fui convidado para ser membro este ano. Fui eleito chair este ano, mas assumo em 2009, por três anos. Este ano é um período de transição.

Atualmente já começa a conhecer o trabalho?

Sim. Estou envolvido com o planejamento de coisas para o ano que vem, que envolvem continuar a seleção de bolsistas que ganhem bolsas de viagem para ir ao congresso. O Comitê Internacional sempre procura realizar um simpósio internacional sobre algum tema relevante na área de pesquisa em drogas. Ano passado foi sobre gravidez e drogas, já houve um anterior sobre pesquisa internacional e sobre instrumentos de coleta de dados padronizados. Então, as atividades do Comitê provavelmente irão aumentar, porque ele está mais estruturado e terá maior representatividade junto ao board do CPDD.

Quais serão os principais desafios do seu período à frente do Comitê Internacional?

O desafio maior é manter o espaço que foi aberto para pesquisadores não americanos se desenvolverem dentro do âmbito no Nida. O CPDD e o Nida são instituições diferentes, mas tem muita inter-relação. Eu diria que 70% ou 80% do financiamento de projetos de pesquisa que são apresentados no CPDD vêm do Nida. Existe uma política oficial do Nida, em seu setor internacional, de incrementar as inter-relações de investigadores do exterior entre si e com os americanos.

Uma das tarefas que tenho ao liderar esse movimento junto com outros colegas é claramente fazer o incremento da participação sul-americana na pesquisa internacional sobre drogas. Atualmente, temos bolsões de desenvolvimento de pesquisa no mundo, tirando o hemisfério norte, predominantemente os EUA, Canadá, Inglaterra, França, Espanha, Alemanha e Áustria. Temos alguns grupos na Ásia, na África praticamente não temos desenvolvimento, na Austrália temos muito desenvolvimento e na América do Sul alguns centros bem desenvolvidos no Brasil, (São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre), no Chile, alguns grupos na Colômbia e profissionais isolados trabalhando no Peru, no Uruguai, na Argentina, mas sem grupos ou centros universitários. A mesma coisa na América Central.

O ideal é que existam grupos especializados?

Pesquisa tem a ver com centros universitários e com grupos de estudo. Não é uma coisa que o indivíduo faça sozinho. Então, diria que um dos meus papéis como chair sul-americano é fomentar fortemente o desenvolvimento e principalmente a inter-relação entre esses centros. Uma das coisas que temos de fazer é desenvolver métodos de fomento à pesquisa que sejam transferíveis para culturas diferentes da América do Sul e que possam ser comparáveis com pesquisas do hemisfério norte.

Atualmente, como se dá o intercâmbio de informações sobre dependência química entre pesquisadores internacionais?

Ele é muito no nível pessoal. Acontece na base dos contatos individuais que o pesquisador tem e depende do quanto você “mete a cara”, vai e fala com as pessoas, manda e-mail e faz intercâmbios assim, na base da vontade própria. O que o Nida vem fomentando é que isso seja feito de forma estruturada. Por exemplo: existe agora um mecanismo digital, pela internet em que as pessoas entram num portal que identifica áreas de investigação prioritárias, investigadores de diversas partes do mundo interessados em desenvolver projetos, tudo feito sob uma espécie de guarda-chuva institucional do Nida. Sou francamente favorável a esse tipo de atitude, que junta pessoas com muita facilidade. Isso vai ser estimulado pelo Nida e certamente o CPDD tem uma atitude parecida.

O incremento do intercambio de informações pode colaborar com a qualidade das pesquisas em que medida?

Vou falar um pouco sobre a América Latina. Na região, nós não temos uma boa epidemiologia das drogas. E nós sabemos que dividimos rotas comuns de tráfico, temos diversas similaridades do ponto de vista cultural. Drogas como o álcool, cocaína e maconha penetram nesses diferentes países de uma forma razoavelmente homogênea. Uma das primeiras coisas que a gente não tem é uma epidemiologia comum. Não existem dados coletados sistematicamente, por exemplo por estudos sentinela, em diversos países ao mesmo tempo. Existem alguns grupos, coordenados por um colega chileno, o Luis Caris, que procuram fazer isso. Essa é uma das coisas.

A segunda é que, independente do fato de as políticas públicas serem de âmbito nacional, elas devem estar alinhadas com a política internacional sobre drogas, que é de alguma forma regida pela Organização das Nações Unidas e pela Organização Mundial da Saúde. Então, também nesse sentido, a função de Comitês internacionais é dar algumas diretrizes, a partir da diretriz oficial. Faz parte desse comitê, por exemplo, um membro da OMS. O que se imagina que vai acontecer daqui para frente não é, evidentemente, uma unificação, mas uma diminuição das grandes disparidade, por exemplo sobre epidemiologia.

A outra coisa é a seguinte: existem alguns locais ou grupos que têm como natureza predominar um estilo de pesquisa. O Chile, por exemplo, faz boa pesquisa em prevenção e políticas públicas. Existem alguns centros no Brasil que são bons em pesquisa com psicofármacos, ou estudos epidemiológicos sobre trânsito e álcool. Isso tem que continuar, mas essa metodologia pode, com alguma facilidade, ser exportada ou transportada para outros países.

Vou dar um exemplo local: o centro de pesquisas que coordeno traduziu, adaptou e validou uma escala muito importante chamada Addiction Severity Index, Escala de Gravidade da Dependência, na sua versão mais nova. Nós somos o único centro, à exceção do centro mãe, na Filadélfia, que pode utilizar a versão nova da escala. Isso foi feito através de um estudo multicêntrico realizado no Brasil, patrocinado pela Senad e com a colaboração da Universidade da Pensilvânia. Atualmente ele está sendo também adaptado para o espanhol no Chile. É o mesmo instrumento, simplesmente traduzido e adaptado. No momento em que ele é adaptado pro espanhol, poderá ser utilizado em toda a América do Sul. Essa pode ser uma forma sistemática de apreensão de dados sobre pacientes que procuram tratamento, por exemplo.

Como os colegas do CPDD avaliam a produção científica do Brasil?

Não é possível negar que existe uma diferença técnica entre investigadores americanos, com dedicação total e exclusiva à pesquisa, com financiamentos que, por mais que se queixem, ainda são extremamente benéficos se comparados ao que temos no Brasil. Isso se reflete na intensidade, na dimensão, na magnitude da produção científica. O que eu tenho percebido nos congressos é que há uma melhor aceitação da produção científica internacional na área de drogas dentro desse College. Também porque, a medida em que o tempo passa, o intercambio vem acontecendo. Mais estrangeiros têm aprendido com os americanos e mais americanos têm aprendido com estrangeiros.

Então, é visto com bons olhos. A atitude do College com relação a atividade de pesquisa é muito boa. É claro que eles têm uma demanda própria, porque eles têm que seguir uma política de pesquisa americana sobre drogas. E nesse ponto ela é diferente. Apenas para ilustrar, eles têm que trabalhar com heroína, que é uma droga de massa lá. Mas do ponto de vista conceitual, muitos membros do board do CPDD trabalham com pesquisa em colaboração com centros internacionais e há espaço no congresso para isso.

Agora, duas últimas perguntas sobre o Brasil. Quais são suas atuais linhas de pesquisa?

O CPAD está em expansão. Atualmente coordeno um grupo de aproximadamente 95 pessoas. O centro tem várias linhas nos últimos anos. Nós ainda mantemos uma linha sobre as relações entre uso de drogas e transmissão do vírus HIV, mas ela vem terminando em termos de pesquisa no nosso centro.
A gente abriu recentemente linhas novas. Uma delas é essa que citei para você, do Addiction Severity Index, que terá uma segunda fase agora. Também foi criado o Núcleo de Estudos e Pesquisas em Transito e Álcool, o Nepta. É um núcleo que eu coordeno, que é formado por quatro grupos de pesquisadores da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, e que tem por finalidade produzir sete projetos de pesquisa que também são financiados pelo Governo Federal.

O Nepta está iniciando coleta de dados em várias áreas para tentar compreender as prováveis fortes associações entre consumo de álcool, consumo de drogas e comportamento de risco no trânsito. Por exemplo, um deles, que é o maior, é um estudo nacional, que vai ser realizado em 27 capitais brasileiras, junto com a Polícia Rodoviária para “bafometrizar”, coletar dados em palmtop e coletar saliva de motoristas brasileiros. Aproximadamente 3 mil motoristas serão entrevistados. Teremos um dado de prevalência de motoristas embriagados no Brasil. Será uma espécie de boa foto do motorista nas estradas. Isso inclui motoristas profissionais, de ônibus e de veículos privados.

Dentro desse macro-estudo sobre álcool e trânsito, temos estudos como o que começou na semana passada sobre acidentes com mortes e sem mortes, em que vamos medir os fluídos, de novo, álcool e drogas, dos cadáveres de acidentes de Porto Alegre e dos que sobreviverem nos prontos-socorros também. Durante um período grande, nós vamos coletar em torno de 420 casos. Também temos um estudo telefônico com aproximadamente 2 mil motoristas infratores, para tentar entender as relações entre comorbidade psiquiátrica, infrações de trânsito e uso de substâncias estudos de georeferenciamento, para compreender as relações entre local de consumo e local de acidente, para tentar colocar isso em um mapa digital de Porto Alegre um estudo de economia em saúde que vai procurar medir o impacto dos acidentes de trânsito na economia do país, nós vamos fazer estimativas sobre isso.

Então, os quatro grupos são formados pelo meu grupo de pesquisa, por um grupo de bioética, por um grupo de economia em saúde e por um grupo de déficit de atenção e hiperatividade. Assim, resumindo, o grupo da bioética tem como finalidade produzir informações sobre as relações entre ética e lei, o que envolve, por exemplo, essa lei atual e o quanto isso tem de efeito nas coletas de dados que faremos. O grupo de economia em saúde vai estimar os custos dos acidentes de trânsito para a vida das pessoas e também que chamamos de valoração contingente, que é um estudo muito interessante que procura estimar o quanto as pessoas estão dispostas a pagar por políticas públicas de prevenção na área de álcool e trânsito.
E um último estudo interessante que gostaria de mencionar do Nepta é um que já foi terminado e agora está sendo analisado, que é com motoboys. Usando um simulador de moto que foi fornecido pela Honda, procuramos identificar a intensidade do uso de drogas e de impulsividade nesses motoristas. A idéia final é que nós vamos ter um laboratório de simulação do trânsito e álcool, na Universidade.

Além disso, o Centro está começando um estudo sobre uso de ecstasy entre pessoas que freqüentam festas rave, que vai começar agora e é em colaboração com um centro americano. Vai começar um estudo sobre percepção do estudante de medicina sobre questionamento do uso de álcool em pacientes.

Sobre a chamada “lei seca”. Enquanto pesquisador, qual sua opinião sobre o texto aprovado?

Acho que, do ponto de vista do momento histórico do país, isto é um avanço. Porque, pela primeira vez nós estamos vivendo uma modificação do nosso paradigma pessoal em que a população brasileira tem a percepção de que aquilo que está escrito na lei pode efetivamente acontecer com qualquer um de nós. Não é uma coisa que é vista como uma “lei que vai afetar o outro”. Não, ela pode afetar a mim. E essa é uma mudança importante na área de políticas públicas, porque quem trabalha com a relação entre álcool e acidentes sabe que a relação entre o consumo de álcool e acidentalidade é exponencial a partir do zero. Qualquer taxa pode produzir dano. É óbvio que taxas maiores têm um risco de acidente maior. Essa curva é famosa e foi mostrada pela primeira vez em 1953, se não me engano, por um pesquisador chamado Borkenstein, que foi o inventor do bafômetro. Isso já se sabe nos países desenvolvidos há muitos anos. Essa percepção de que a relação entre álcool e trânsito é fortíssima, causa acidentes graves e pode ser prevenida é muito recente em nosso país. Nesse sentido, a lei, mesmo que para algumas pessoas pareça abusiva e absolutamente intolerante, ela já está produzindo uma mudança em nossos hábitos individuais.
Autor: Últimas Notícias
OBID Fonte: ABEAD