Trânsito sem álcool

Lei Seca, que acabou com a tolerância de álcool ao volante, entra em total consonância com as ações do Programa Mais Saúde.

José Gomes Temporão – Ministro da Saúde

Os primeiros resultados da lei que acabou com a tolerância de bebidas alcoólicas ao volante são animadores e já comprovam a sua importância. O diagnóstico em hospitais de cidades como São Paulo, Rio de Janeiro e Goiânia aponta uma redução entre 17% e 30% no atendimento de pessoas envolvidas em acidentes com veículos.

É, portanto, uma grande vitória para a população e para a saúde pública brasileira. Até o ano passado, vivíamos com a incômoda estimativa de 17 mil mortes relacionadas à perigosa relação álcool e direção. Grande parte dos acidentes envolvendo mortes está ligada a pessoas entre 20 e 39 anos, somando 45% do total. Os homens estão em 85% desses óbitos. Entre os adolescentes, o acidente de trânsito é a segunda principal causa de morte, perdendo apenas para os homicídios. Queremos uma redução drástica desse número e, para isso, é preciso avaliar, monitorar e medir esse novo cenário durante um ano inteiro para obter o reflexo real da chamada Lei Seca, e quais medidas podem ser adotadas para o seu auxílio. Nesse aspecto, é importante o debate da sociedade e a qualificação da fiscalização e monitoramento.

Pelo lado econômico, uma pesquisa realizada pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), entre os anos 2001 e 2003, quantificou os custos dos acidentes de trânsito em áreas urbanas e concluiu que há uma perda, somente em resgate e internação, de R$ 5,3 bilhões anuais nos cofres da saúde. O valor é similar ao que é investido anualmente para o Programa Saúde da Família (PSF) cobrir uma população de quase 100 milhões de pessoas, além de ser cinco vezes maior do que aplicamos em todo o tratamento de pessoas portadores de HIV, que somam cerca de 200 mil pessoas.

O Ipea, em 2006, também demonstrou que os impactos sociais e econômicos dos acidentes de trânsito nas rodovias brasileiras chegam a R$ 24,6 bilhões, valores principalmente relacionados à perda de produção relacionada à morte das pessoas ou à interrupção das atividades das vítimas. A lei que acabou com a tolerância de álcool ao volante entra em total consonância com as ações do Programa Mais Saúde, do Ministério da Saúde, lançado em dezembro de 2007. Reúne uma série de ações para reduzir o número de mortes violentas, entre elas a aplicação de R$ 49 milhões – uma parceria com o Ministério das Cidades – para projetos regionais que têm como objetivo reduzir os acidentes no trânsito. O fato é que o país não pode mais conviver com tamanha violência no trânsito. É esta a mensagem que o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva leva corajosamente à sociedade brasileira, ao sancionar a lei. Aqueles que viviam à margem da legislação, colocando a sua própria vida e a de terceiros em risco, têm agora a certeza de que, se flagrados, serão punidos com mais rigor, como já ocorre em países como Canadá, Estados Unidos e Inglaterra.

Neste ano, divulgamos uma pesquisa realizada com mais de 55 mil pessoas das capitais brasileiras, que nos trouxe uma resposta assustadora: cerca de 150 mil pessoas dirigem depois de ingerir bebida alcoólica nas capitais. Se fizermos uma projeção para todo o Brasil, esse número chega a 350 mil pessoas que assumem conduzir seus veículos com reflexos alterados. Na mesma pesquisa, o resultado de pessoas que abusaram do consumo de álcool nos 30 dias anteriores à pesquisa superou os 17%. Para os homens, o índice chega a 27,2%, e, para os jovens entre 25 e 34 anos, salta para 34%.

Não custa lembrar que o consumo do álcool traz conseqüências graves: em excesso, pode provocar problemas como comportamento violento, acidentes de trânsito, além de causar dependência e diversos problemas de saúde. Interfere também no desenvolvimento fetal e ainda aumenta o risco de desenvolvimento de vários tipos de câncer, conforme algumas evidências em pesquisa. A Agência Internacional para Pesquisa em Câncer (Iarc) classificou o álcool como um carcinógeno para câncer de boca, faringe, laringe, esôfago e câncer primário de fígado. No Brasil, 12,3% das pessoas com idades entre 12 e 65 anos têm algum grau de dependência do álcool, segundo o Levantamento Domiciliar sobre o Uso de Drogas Psicotrópicas no Brasil, promovido pela Secretaria Nacional Antidrogas/Cebrid. A aprovação da lei é um grande avanço, mas não pode isolar os grandes temas que a compõe. As mortes violentas e o padrão de consumo de álcool brasileiro precisam de amplo debate e ação da sociedade e do poder público. O objetivo é lutar por uma vida longa e com qualidade, dentro de um ambiente de paz e de responsabilidade.
Autor: José Gomes Temporão – Ministro da Saúde
OBID Fonte: Estado de Minas – MG