Programas de combate ao fumo incluem remédios e acompanhamento médico

Quem já passou pela experiência de tentar largar o cigarro sabe que a realidade está bem distante do desejo.

Em geral, apenas 5% das pessoas que tentam abandonar o vício têm sucesso na empreitada. De acordo com a médica Jaqueline Issa, cardiologista e diretora do Programa de Tratamento do Tabagismo do Incor (Instituto do Coração), a maioria das pessoas que inicia um programa para deixar o cigarro está na terceira ou quarta tentativa.

Fabiana Treu é uma dessas pessoas que sabe que a prática está bem distante da vontade. Fumante há 17 anos, a relações públicas (que já fumou dois maços de cigarros por dia) chegou a parar o vício por um ano. No entanto, em um momento complicado, teve uma recaída. “Vivi uma situação de estresse no trabalho e pedi um cigarro para um amigo”, diz. Agora, há cinco anos ela tenta parar novamente, mas não consegue.

A experiência de Fabiana mostra o que muitos médicos consideram ser um dos principais desafios para os fumantes: a dependência emocional. Se já não existem dúvidas de que a nicotina é de fato viciante (o entendimento de que o fumante é um dependente de drogas tem apenas cerca de 15 anos), também é considerado que o vício não é apenas na substância, mas também no prazer, na segurança ou na satisfação que o cigarro traz.

“O vício do cigarro é uma questão de dependência de droga e comportamental”, diz João Paulo Lotufo, médico responsável pelo Projeto Antitabágico, do Hospital Universitário da USP (Universidade de São Paulo).
Isso explica o dado do Ministério da Saúde que, mesmo com o baixo índice de sucesso ao tentar parar de fumar, 95% das pessoas que conseguem o fazem por conta própria. Aqueles que controlam a ansiedade e os mecanismos de vício que levam a acender um cigarro têm mais chance de sucesso.

“O fumante altamente motivado, que seguir as instruções (das gomas de mascar ou adesivos) com cautela consegue parar sozinho”, diz Jaqueline. Mas segundo ela, essa taxa de eficácia é muito baixa comparada com o número total de pessoas que tentam deixar o cigarro.
Para todos aqueles que não conseguem parar de fumar, a orientação médica é necessária para que o profissional possa verificar, além dos medicamentos mais adequados, o que leva o paciente a não conseguir largar o vício. É por isso que a grande maioria dos tratamentos para deixar o cigarro combina uma série de ações e inclui o acompanhamento médico.

Os remédios, por si só, apenas diminuem a vontade de fumar ou os sintomas da abstinência. “É mais eficiente freqüentar um grupo de apoio adequado do que tomar remédio para parar de fumar”, diz Lotufo. O projeto do Hospital Universitário, por exemplo, além de oferecer repositores de nicotina (chicletes ou adesivos) e medicação (bupropiona), inclui reuniões semanais por quatro ou cinco semanas.

O programa do Incor assiste, por meio do SUS (Sistema Único de Saúde), o paciente que já tem algum problema cardiovascular e foi atendido no instituto. Entretanto, como a procura por ajuda era grande, foi aberta a possibilidade de participação de pessoas que têm planos de saúde. Em ambos os casos, também há o acompanhamento em consultas médicas e o paciente só recebe alta após pelo menos um ano depois de começar o tratamento.

O programa de maior abrangência nacional é o do Ministério da Saúde. O INCA (Instituto Nacional de Câncer), coordenador nacional da campanha antitabagista, cadastra e habilita unidades básicas de saúde em vários municípios no Brasil para atender aos fumantes que querem parar de fumar. O programa gratuito distribui repositores de nicotina e também oferece o antidepressivo bupropiona. Quem quiser se informar sobre os locais que oferecem o tratamento na sua cidade deve ligar para o Disque Saúde: 0800-611997.

Começar um tratamento é o primeiro passo, mas é preciso estar ciente que a facilidade para parar de fumar depende também do grau de dependência de cada fumante. Aqueles que são fortíssimos dependentes em geral precisam tratar outras questões ligadas ao vício antes, como depressão e ansiedade, para depois pensar em deixar o cigarro.
De qualquer forma, os especialistas são unânimes em concordar que cortar de vez o consumo do tabaco não ajuda no tratamento. Em geral, a data marcada para deixar o cigarro é uma semana depois do início do programa. E é necessário seguir o planejamento com muita determinação.
Autor: Abril.com
OBID Fonte: Abril.com