Álcool na gravidez compromete bebê

Gestantes que consomem bebidas alcoólicas podem comprometer o estado neuropsicológico do bebê. O alerta foi dado ontem, durante o XXIII Congresso Brasileiro de Neurologia, que está sendo realizado em Belém até o dia 21, no Hangar Centro de Convenções da Amazônia, pela Academia Brasileira de Neurologia.

O estudo sobre os efeitos do álcool na gravidez está no livro “Álcool e Gravidez – Síndrome Alcoólica Fetal, Tabaco e Outras Drogas” (Editora Medbooks), apresentado pelo neurologista José Mauro Braz de Lima.

Um dos riscos apontados pelo estudo é a Síndrome Alcoólica Fetal (SAF), que traz problemas neurológicos e psicológicos, como retardamento mental, déficit cognitivo e de atenção (com ou sem hiperatividade), distúrbios comportamentais, déficit escolar, dismorfias craniofaciais e malformações cardíacas, renal e de outros órgãos. Também podem ocorrer abortamento e morte fetal perinatal, em caso de alcoolismo grave.

José Mauro Braz de Lima é professor de Neurologia da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro e Presidente da Sociedade Brasileira de Alcoologia. “Esse debate é muito importante, principalmente no momento em que se discute a Lei Seca, que proíbe a mistura de álcool com direção”, alerta o especialista, acrescentando que não se trata apenas do alcoolismo crônico, a forma mais grave, mas de significativos riscos do consumo eventual mais ou menos freqüente relacionado à exposição da criança ao álcool ainda dentro do útero.

Segundo o pesquisador, a SAF é uma condição clínica freqüente e de alta prevalência. De acordo com dados norte-americanos e europeus, estima-se que cerca de 10% a 20% das mulheres grávidas façam uso de bebidas durante a gestação de maneira consistente e preocupante. Projetando os dados para o Brasil, o número de gestantes consumidoras de álcool também deve ser elevado, sendo maior nos grupos femininos considerados mais vulneráveis pelas condições socioeconômicas.

Em seu livro, Lima aponta que outro problema sério é a relação dose/concentração sanguínea. Com uma dose de padrão de qualquer bebida (cerveja, vinho ou destilados), a mãe apresenta um teor de álcool no sangue de aproximadamente 0,2g/l para um peso de 60 a 70 kg. Enquanto que o feto recebe a mesma taxa de álcool no sangue pelo cordão/artéria umbilical, com peso muito inferior. “Sem dúvida, a relação dose/peso é altamente perigosa para o feito ou embrião.”

Não se sabe ao certo qual a dose ou a quantidade de álcool que pode provocar as manifestações características da SAF. De qualquer maneira, conforme recomendação da Organização Mundial da Saúde, a prevenção certa é a abstinência total de álcool durante a gestação para poupar o bebê de quaisquer danos neuropsicológicos após o nascimento.

DESAFIOS

Durante a abertura do XXIII Congresso Brasileiro de Neurologia, o especialista Ricardo Nitrini, professor da Universidade de São Paulo, falou sobre os desafios enfrentados pelos pesquisadores brasileiros. Ele ressaltou a necessidade de estudos sobre os danos neurológicos provocados por doenças como dengue, malária e mal de chagas, já abolidas em países desenvolvidos. “O Brasil tem condições de desenvolver essa área e beneficiar milhões de pessoas no mundo”, disse ele, ressaltando os avanços obtidos em relação à epilepsia, área em que o Brasil é líder mundial em termos de pesquisa.

Além de estudar os efeitos neurológicos das doenças tropicais, o Brasil também participa, junto com os países ricos, de estudos sobre doenças degenerativas como Mal de Parkinson e Alzheimer. “Esperamos que até a metade deste século já exista a cura para esses males. Para se chegar a isso, o país tem condições de contribuir no cenário mundial”, afirma.
Autor: Editoria Atualidades
OBID Fonte: O Liberal – PA