Armadilhas do cigarro

No início desta década, o Brasil deu um importante passo em prol da saúde ao proibir terminantemente a propaganda de cigarros e outros derivados de tabaco em jornais, TVs, rádios, revistas e internet, além de eventos esportivos e culturais.

Previsões catastrofistas, como queda astronômica nas receitas dos veículos de comunicação, desemprego ou o fim da Fórmula 1 como conseqüência da nova legislação, não se confirmaram. Havia uma premissa básica e verdadeira. Com menos exposição do produto na mídia, o número de novos fumantes seria reduzido, o que de fato vem ocorrendo.

A própria indústria do tabaco mudou o discurso e diz, agora, que o foco principal são “os fumantes de outras marcas”, ou seja, que a estratégia de marketing está voltada para a fidelização dos atuais clientes. A prática, entretanto, é outra. Basta visitar pontos de venda, especialmente bares e baladas, onde a propaganda de cigarros ainda é autorizada para verificar que as mensagens publicitárias são prioritariamente destinadas ao público mais jovem.

Obviamente, quanto mais cedo se começa a fumar, mais cedo se vicia. Também não é mera coincidência a recente proliferação de marcas com sabores adocicados ou mentolados, feitos para vencer a resistência inicial que as pessoas possam ter ao gosto amargo do cigarro. O que dizer, então, da moda do narguilé? Bares famosos das grandes capitais brasileiras há muito oferecem esse cachimbo dágua típico dos países árabes aos clientes para baforadas “inocentes” ao sabor de chocolate, menta, maçã, cereja, uva, melão, melancia ou canela, entre outros.

A indústria do fumo, mais uma vez, usa de artimanhas para fisgar o consumidor, principalmente os jovens, muitos dos quais nem imaginam que o narguilé é tão ou mais tóxico que um cigarro industrializado. Como médica, acompanho diuturnamente o drama dos dependentes de nicotina, a maioria dos quais fuma pelo menos dois maços por dia.

Como profissional de saúde pública, posso afirmar que, de fato, houve avanços inegáveis, mas o caminho ainda é longo para que o tabagismo seja cada vez menos estimulado. E essa briga não é apenas dos governos, pois se trata de uma questão sociocultural, de mudança de hábitos, de comportamento, de prevenção. Sob o ponto de vista de promoção de saúde, uma das bandeiras levantadas mundialmente é relativa à restrição do tabaco em ambientes fechados, que visa prevenir, prioritariamente, o fumo passivo.

Segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), há cerca de 2 bilhões de fumantes passivos em todo o mundo, dos quais 700 milhões são crianças. E não há fumódromo que dê jeito, pois a fumaça do cigarro não respeita fronteiras. No Estado de São Paulo, um programa lançado em 2007 reconhece publicamente todas as empresas, edifícios, bares, shoppings, lojas, lanchonetes, restaurantes e outros espaços públicos fechados que eliminarem comprovadamente o cigarro e os derivados de tabaco de seus ambientes.

O selo Ambiente Livre de Tabaco é concedido a estabelecimentos que proibirem espontaneamente o fumo, banindo inclusive os fumódromos e eliminando cinzeiros. O mérito de um programa como esse, inspirado em projetos já implantados com sucesso em outros países, é justamente o caráter de adesão voluntária, uma vez que os responsáveis por qualquer estabelecimento que obtiver o selo irão cuidar para que realmente ali ninguém fume. Acender cigarro, cachimbo, charuto ou cigarrilha, só na rua.

Os proprietários de restaurantes, inicialmente, resistiram à idéia. Mas mesmo nessa área já é possível perceber um movimento em favor da eliminação do tabaco. Em São Paulo, a 1900, uma das principais redes de pizzarias da cidade, decretou o fim da ala de fumantes e recebeu o selo ontem. A maioria dos clientes, até mesmo os que fumam, aprovou a medida. Neste 29 de agosto, Dia Nacional de Combate ao Fumo, convidamos a população paulista, as entidades de classe, os empresários e a sociedade civil organizada para unir esforços contra as armadilhas do cigarro e em favor da luta antitabagista.

É um trabalho árduo de promoção de saúde e de hábitos de vida saudáveis, no qual o cigarro e seus derivados definitivamente não se encaixam. PS: Fumar faz (muito) mal à saúde.

LUIZEMIR WOLNEY C. LAGO, 60, médica psiquiatra e sanitarista, é diretora do Centro de Referência em Álcool, Tabaco e Outras Drogas da Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo.
Autor: Luizemir Wolney C. Lago
OBID Fonte: Folha de S.Paulo-SP