Confiabilidade do auto-relato de universitários sobre o próprio comportamento de beber

Embora válido, o auto-relato sobre o consumo de substâncias tem sido criticado, já que pode ser propositadamente subestimado pelo respondente. Poucos são os estudos sobre a confiabilidade do auto-relato de universitários sobre o tema. Pensando nisso, o presente artigo examinou o auto-relato de estudantes universitários sobre o próprio histórico de uso de álcool no mês anterior ao seu ingresso em um programa de tratamento.

Os universitários que houvessem infringido a política sobre o uso de álcool e outras drogas, vigente em seu campus universitário (N=173) (por usarem, por colaborarem com o uso de outros ou por posse de álcool ou outras drogas), foram convidados a participar de um programa de intervenção sobre o consumo de álcool (?College Alcohol and Substance Education? ? CASE). O programa consistiu de sete reuniões psico-educativas semanais, em grupo, e uma reunião de seguimento. Após 7 semanas, finalizado o programa, alguns dos participantes foram aleatoriamente selecionados para uma nova avaliação. A pesquisa foi realizada em quatro diferentes momentos: (a) Período 1: Ingresso do universitário no programa; (b) Período 2: 3ª semana de intervenção; (c) Período 3: Fim da intervenção (7ª semana) e (d) Período 4: 3 ou 4 semanas depois de finalizada a intervenção (10ª ou 11ª semana). Em todos os períodos, os estudantes foram avaliados quanto às seguintes características: (a) número de dias da semana em que bebiam; (b) número médio de doses alcoólicas/semana; (c) número de doses alcoólicas/dia e, finalmente (d) número máximo de doses alcoólicas/dia, aproveitando-se para avaliar o comportamento de ?binge drinking?. Durante os períodos 1 e 2, os universitários foram questionados sobre o consumo de álcool vigente no mês anterior ao ingresso no programa de intervenção. Na última semana, foram questionados sobre as preocupações que tivessem sobre o processo de avaliação da intervenção.

Conforme os autores, todas as medidas de consumo de álcool sofreram aumento do período 1 ao 2, os quais faziam referência a um mesmo período de avaliação, ou seja, ao mês anterior do ingresso do universitário no programa de intervenção. Assim, os estudantes fizeram um relato fiel do próprio histórico de uso de álcool apenas depois de iniciada a intervenção (apenas na 3ª semana). Essa mudança de atitude pode ser entendida como um produto do aumento da confiança do respondente sobre o processo de avaliação e intervenção. Quando questionados a respeito da discrepância de respostas (entre os períodos 1 e 2), acreditavam que se houvessem sido fiéis desde o início, teriam tido mais problemas e teriam sido obrigados a freqüentar maior número de sessões de intervenção.

Esse tipo de resultado é importante e deve ser considerado durante o momento de avaliação de programas de intervenção, já que a adesão dos participantes não acontece desde o momento de seu ingresso. Assim, conforme os autores, o auto-relato sobre o uso de álcool e outras drogas ainda permanece como um método relevante de coleta de dados, porém, informações sobre o histórico de uso devem esperar até o momento em que os participantes confiem que suas informações serão mantidas em sigilo absoluto. Em suma, criar condições que aumentem a confiabilidade e a validade do auto-relato é imprescindível para que pesquisas sobre o uso de álcool e outras drogas sejam conduzidas, assim como sejam providenciados programas de intervenção que atendam às necessidades de seus participantes.

Título: Reliability of college student self-reported drinking behavior

Autores: Sara Walker e Merith Cosden

Fonte: Journal of Substance Abuse Treatment 33, 405? 409, 2007

IF.: 2,013
Fonte:CISA – Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool