Entrevista com April Girard e Charlene Y Senn – Álcool e abuso sexual


1. O álcool é uma droga usada com fins de abuso sexual? Em outras palavras, os homens drogam as mulheres com álcool para se envolverem em atividades sexuais contra sua vontade?

O álcool é a droga mais comumente utilizada com fins de abusar sexualmente de alguém. Infelizmente, quando as pessoas pensam em drogas, especialmente aquelas utilizadas em tentativas de estupros, pensam automaticamente em drogas ilegais ou medicamentos controlados, mas não em álcool. Em nosso estudo, recentemente publicado, constatamos que 7% das mulheres (de uma amostra de 280 estudantes universitários aleatoriamente selecionados) haviam sofrido tentativa ou consumação de abuso sexual, o qual envolveu o uso de drogas ou álcool. Para muitas dessas mulheres, isso havia ocorrido mais de uma vez. Em paralelo, 3% dos homens dessa amostra admitiram ter empregado álcool ou outras drogas para manterem relação sexual não-consensual. Todos o haviam feito em mais de uma ocasião e com mais de uma mulher. Enquanto ?novas? drogas têm sido utilizadas para facilitar a atividade sexual (ex.: GHB, Ketamina, Rohypnol), a maioria das tentativas e abusos consumados, ?relacionados a drogas?, envolveram álcool.

2. Uma vez consumado o abuso sexual, o consumo voluntário de álcool, pela vítima, tem algum impacto sobre a percepção social a seu respeito? Em caso afirmativo, como poderia impactar a vida real?

Um mito antigo sobre a violência sexual é que as mulheres seriam (parcial ou totalmente) responsáveis pela agressão sexual perpetrada pelos homens. Atualmente, na América do Norte, temos tido grandes avanços em reduzir a proporção de indivíduos que culpam as vítimas (mulheres) pela violência sexual, além de reduzir a culpa a elas reservada quando, de fato, culpados são apontados. Infelizmente, hoje em dia, ainda permanecem muitos resquícios dessas crenças. O julgamento negativo da mulher devido a um comportamento que pode vir a ser classificado como ?de risco? ou ?ingênuo?, são alguns artefatos da culpabilidade atribuída à vítima. Ou seja, é importante lembrarmos que, na ausência de homens predadores ou sexualmente coercitivos, o mesmo comportamento poderia ser considerado seguro.

Diversos estudos indicam que indivíduos (mais homens que mulheres) percebem a violência sexual de uma mulher sóbria diferentemente da violência sexual a uma mulher que estivesse alcoolizada ou bebendo. Muitos estudos têm documentado esse efeito. Em nossa pesquisa não repetimos esse achado, possivelmente porque nossa amostra foi aleatória e não de conveniência ou porque tenhamos controlado as crenças nos mitos sobre abuso sexual antes de examinarmos os efeitos atribuídos ao consumo de álcool per se. Mas, no geral, em relação a outras situações, mulheres completamente sóbrias são consideradas menos culpadas e responsáveis pelo ato em si, enquanto que os agressores são frequentemente considerados mais culpados.

Isso mostra que não é a lei, mas a forma como a sociedade rotula a vítima e o agressor, que determinará a percepção social sobre a violência sexual. Por exemplo, se numa determinada sociedade, uma proporção significativa de indivíduos considera que uma mulher, agredida sexualmente, é mais culpada ou responsável pelo ato quando está bebendo ou consumindo drogas, como os potenciais membros do júri reagiriam a um julgamento de violência sexual sob semelhantes circunstâncias? Outros estudos sugerem que o comportamento de familiares, amigos e profissionais, sobre o desfecho de um ataque sexual, também é afetado por esses vieses, de tal forma a influenciar, negativamente, o processo de cura e recuperação das vítimas.

3. Em sua opinião, que situação aumenta a percepção social de culpa da vítima de abuso sexual: o uso voluntário de álcool ou de outras drogas? Há uma droga específica que aumente a responsabilidade ou culpabilidade da mulher em uma situação de violência sexual?

Apesar da nossa pesquisa ter evidenciado que mais culpa e responsabilidade são geralmente atribuídas ao agressor (no mínimo 80% das atribuições de culpa), os participantes estavam mais propensos a atribuir mais culpa e responsabilidade à mulher que consumisse voluntariamente drogas ilegais (GHB) em relação a qualquer outra situação: (a) para vítima e agressor sóbrios; (b) para vítima e agressor alcoolizados; (c) para vítima involuntariamente drogada. O nosso desenho de estudo não nos permitiu avaliar o impacto diferencial de diferentes drogas ilegais.

As percepções de culpabilidade também atuam em outra direção. No geral, a mulher que é drogada por um agressor, seja com GHB ou álcool, recebeu menos culpa ou responsabilidade pelo ato. Essa situação parece se adequar às percepções das pessoas sobre um ?estupro real? e com vítimas sem culpa, (mesmo que todas as situações de violência sexual propostas tenham sido descritas da mesma maneira e claramente eram não-solicitadas, forçadas e não-consensuais).

Em conjunto, esses achados sugerem que a percepção social de culpa e responsabilidade ao agressor sexual ainda variam conforme o consumo de álcool e outras drogas pelas vítimas. Ainda há, claramente, membros de nossa sociedade que acreditam que uma mulher é, no mínimo, um pouco responsável e culpada por ?se colocar nessa situação?, em contraste ao reconhecimento dos agressores como completamente responsáveis por sua atitude criminosa, independentemente do comportamento da vítima. Progredimos quanto à atitude social em relação às vítimas de estupro, mas nossos esforços em educação devem continuar para que as vítimas de abusos/agressões sexuais também tenham justiça adequada.
Fonte:CISA – Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool