Descarte de remédio, um desafio

Sem um local específico para entregar medicamentos que sobraram após o tratamento, muita gente acaba acumulando frascos e cartelas em casa ou jogando no lixo ou ralo, com prejuízos ao meio ambiente.

É um drama corriqueiro nos lares. Depois de medicado e livre dos sintomas da doença, não se sabe o que fazer com os remédios que sobram. Caixas e caixas se amontoam no armário, tomando o espaço das louças e dos mantimentos. A legislação ambiental brasileira é severa com os grandes produtores de lixo hospitalar. Hospitais, clínicas e indústrias farmacêuticas da região são responsáveis pelo descarte responsável de 250 toneladas mensais dos resíduos, que acabam incinerados ou desinfectados em usinas privadas. Mas não há controle algum sobre o medicamento estocado nas casas. Há quem simplesmente jogue o resto do xarope no ralo, sem noção do prejuízo causado ao ambiente.

Uma pesquisa da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) constatou a presença de fármacos na água distribuída à população (leia abaixo). Para evitar danos à saúde pública, a Coordenadoria da Vigilância Sanitária (Covisa) faz uma campanha educativa junto aos pacientes para difundir o consumo consciente, o armazenamento correto e métodos para o descarte dos remédios vencidos.

Os postos da rede contam com estrutura para receber, dos pacientes, medicamentos vencidos controlados (que só podem ser consumidos com orientação médica). Mas não recebem os frascos com medicamentos leves. São comprimidos que podem ser jogados no lixo, sem riscos de contaminação, mas que, nem por isso, são inofensivos. Uma criança, por exemplo, pode ingerir o remédio que encontra e passar mal.

Por isso, os técnicos orientam a descaraterizar os medicamentos. “Os comprimidos precisam ser esmagados e o que é líquido precisa ser eliminado antes do descarte das embalagens”, explica a enfermeira Cléria Maria Moreno Geraldello, responsável técnica da Covisa.

Mas manter a farmacinha doméstica também representa riscos. Estatísticas da Secretaria de Estado da Saúde comprovam que, em 35% dos casos de envenenamento pelo consumo de drogas terapêuticas, as vítimas tinham entre 0 e 5 anos. Resultado do descuido com frascos que ficam ao alcance.

A enfermeira Cléria explica que as assistentes farmacêuticas da Covisa informam os procedimentos necessários para evitar intoxicações e quais medicamentos devem ser devolvidos aos postos. Mas ela admite que só tem acesso à orientação o paciente atendido nos postos. A maioria da população dá ao remédio o fim que bem entende.

Soluções

A aposentada Edir Alves Tostes, por exemplo, usa baleiros, vidros vazios de maionese e latas de bolacha para separar seus medicamentos dos consumidos pelo marido Geraldo. Os dois, moradores do bairro Ponte Preta, são hipertensos. “A substituição eventual das drogas consumidas faz sobrar cartelas inteiras na gaveta”, diz a dona de casa, de 63 anos. “Pego tudo e levo lá no Centro de Saúde Faria Lima.”

Moradora da Vila Industrial, Ofélia Bertoni Fagnani, de 76 anos, consume remédios contra diabete que recebe no postinho mais próximo. Quando o médico dá outra receita, ela entrega o que sobrou na Igreja São José, certa de que a medicação será repassada a instituições. “Os asilos e abrigos contam com médicos voluntários que prescrevem os remédios doados a carentes que não podem comprá-los”, fala.

Na Avenida Bueno de Miranda, ali pertinho da Vila Teixeira, a portuguesa Ercília de Jesus Salvador, com respeitáveis 73 anos e um charmoso lenço amarrado no colarinho, achou um jeito de não estocar remédios em casa: “Tomo todos os remédios de pressão prescritos antes de voltar ao médico. Não tem como desperdiçar”, resume, mostrando a cestinha lotada de caixas. Quase todas vazias.

No Jardim São Bento, a dona de casa Maria do Carmo Nascimento perdeu há três meses o filho Juarez, que morreu aos 57 anos depois de um longo tratamento de saúde. A caixa do armário ficou abarrotada de medicamentos especiais, receitados para o sistema circulatório do doente. Foi ouvindo o programa de rádio do Jair Duprat, na Rádio Central, que ficou sabendo que o remédio era procurado por uma família carente do Vida Nova. “As drogas não puderam salvar a vida do meu filho, mas eu achei que elas poderiam salvar outras.”

O QUE DIZ A LEI

As resoluções 358/05 do Conselho Nacional do Meio Ambiente e 306/04 da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) impõem aos geradores a responsabilidade pela segregação, acondicionamento, transporte, tratamento e disposição final dos resíduos sólidos. Lá estão relacionados, de forma detalhada, quais medicamentos são controlados e exigem descarte responsável.

PREVINA-SE

Nunca compre mais remédio do que a quantidade receitada pelo médico. E jamais interrompa o tratamento antes do prazo prescrito, para que não sobrem comprimidos na embalagem.

Quando não houver embalagem adequada à dosagem indicada pelo médico opte sempre que possível pelos medicamentos fracionados.

Não recorra à automedicação, evitando comprar na farmácia medicamentos desnecessários ou que são abandonados quando os sintomas desaparecem.

Procure armazenar corretamente os medicamentos para que eles não precisem ser descartados antes da hora. As embalagens devem ser mantidas em locais arejados e em temperatura ambiente (afastados da incidência direta da luz solar e livres da umidade, em pontos altos, longe do acesso de crianças).

Quem tiver em casa remédios controlados vencidos (os tarjados, que são mais fortes e oferecem risco à saúde se consumidos indevidamente), podem levar os frascos para as unidades de saúde espalhadas pela cidade. Dali, os medicamentos serão enviados para o descarte correto (desinfecção ou incineração em usinas especializadas). Para saber o endereço do posto mais próximo de casa, basta ligar no número 156.

Pelo e-mail covisa@campínas.sp.gov.br, é possível saber que remédio deve ser devolvido aos postos, e quais podem ser descartados no lixo doméstico.

Fontes: Abelpre e Covisa

SAIBA MAIS

Acabar o prazo de validade não é o único risco dos medicamentos guardados em “farmacinhas domésticas”. Falta à população informações sobre como guardá-los. A farmacêutica Nair Terezinha Herter, funcionária de uma tradicional rede de drogarias, conta que atendeu uma consumidora furiosa com um efervescente Sonrisal, que simplesmente não funcionava. Depois de alguns minutos de prosa no balcão, diz, a cliente revelou a causa. É que os envelopes eram mantidos no armarinho do banheiro. “As pessoas precisam levar em consideração que a variação de temperatura e a umidade de um ambiente simplesmente inutilizam o remédio”, diz.

OS NÚMEROS

40% DAS INTOXICAÇÕES
Registradas nos postos de saúde paulistas decorrem do consumo indevido de remédio

16 mil BRASILEIROS
Morrem a cada ano em casos relacionados ao consumo de medicamentos errados

250 TONELADAS
É a quantidade de lixo hospitalar produzida mensalmente na RMC; os maiores geradores são os hospitais, clínicas, laboratórios e a indústria farmacêutica

Fármacos comprometem a qualidade da água

Resíduos de analgésicos, hormônios e antiinflamatórios saem pela torneira

Uma pesquisa do Instituto de Química da Unicamp revelou, em dezembro, que a água consumida pelos 2,5 milhões de moradores da Região Metropolitana de Campinas (RMC) contém compostos derivados de fármacos. A constatação foi da pesquisadora Gislaine Ghiselli, que usou os dados na defesa de uma tese de doutorado.

Durante quatro anos, o estudo coletou amostras em diversos pontos da sub-bacia do Rio Atibaia, o principal manancial regional. Foram encontradas, na água das torneiras, analgésicos, antiinflamatórios e antitérmicos (como dipirona, diclofenato e paracetamol), presentes nos medicamentos mais prosaicos da farmacinha doméstica.

A constatação, no entanto, não remete exclusivamente a irresponsabilidades, como o despejo incorreto no ralo dos medicamentos que sobram. Segundo o professor que orientou a tese, Wilson de Figueiredo Jardim, as substâncias são eliminadas naturalmente pelas fezes e pela urina. E as quantidades presentes nas amostras, adiantou, não representam qualquer risco à saúde humana.

O estudo, no entanto, serve para orientar políticas preventivas. É que as amostras de água analisadas tinham, além dos fármacos, hormônios sexuais naturais e resíduos industriais. Se os compostos identificados como “interferentes endócrinos” são consumidos em grandes quantidades, podem prejudicar o funcionamento de glândulas humanas.

Essa é uma das razões pelas quais é preciso evitar o descarte irresponsável dos medicamentos, uma forma de evitar a concentração maior de compostos nocivos na água.

É um erro, aliás, imaginar que o tratamento do esgoto livra a água das substâncias. O alerta é feito por Odair Seguntini, gerente da Associação Brasileira de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abelpre), organização não-governamental (ONG) que orienta o descarte correto de lixo hospitalar. “As estações eliminam dejetos orgânicos, e não substâncias químicas presentes nos fármacos”, diz.

Em razão disso, a entidade patrocina campanha educativa para coibir a automedicação e impedir que as famílias tenham o hábito de ter em casa um estoque desnecessário de remédios. “É preciso consumir todo o medicamento prescrito pelo médico”, afirma Seguntini.

Reciclagem

O descarte incorreto também complica a vida de quem recicla o lixo. Segundo Valdecir Viana, que preside a Cooperativa Prefeito Antonio da Costa Santos, no Jardim Satélite Íris, é comum a presença de cartelas cheias de medicamentos nos entulhos recolhidos, assim como seringas e ampolas usadas, por exemplo, por diabéticos que fazem a auto aplicação de insulina.

Viana, que também representa a Reciclamp (central de vendas do lixo reciclado em 16 cooperativas locais), explica que os cooperados são orientados a separar os chamados resíduos hospitalares e acionar o Departamento de Limpeza Urbana (DLU) para o descarte correto. (RV/AAN)
Autor: Rogério Verzignasse
OBID Fonte: Correio Popular-Campinas-SP