Lei Seca muda comportamentos

O rigor da Lei Seca, que completa quatro meses hoje, aguçou a criatividade de moradores do Distrito Federal que não conseguem ficar sem apreciar a cervejinha do fim de semana, uma caipirinha ou qualquer outro tipo de bebida alcoólica. Até donos de bares e restaurantes, que tanto reclamaram quando a lei entrou em vigor, no dia 20 de junho passado, buscaram alternativas para não perder clientes e atrair outros. Nesses quatro meses de vigência da lei, já se pode observar uma mudança geral de comportamento e é possível dizer até que novos postos de trabalho foram criados.

Está na moda em Brasília, por exemplo, o motorista da vez, que pode ser um amigo que acompanha o outro, mas não bebe, a fim de garantir a volta segura para casa, além da carona amiga, em que profissionais são acionados para conduzir os carros de clientes, que ligam e solicitam o serviço, ao preço de R$ 15 a R$ 20, dependendo do percurso a ser feito.

A Lei 9.503, de 23 de setembro de 1997, que instituiu o Código de Trânsito Brasileiro, já proibia o consumo de álcool antes de dirigir e previa punição. De acordo com o Departamento de Trânsito do Distrito Federal (Detran), o que a Lei Seca alterou, na prática, foi a forma de abordagem aos motoristas, com o uso freqüente do bafômetro. Um aparelho que passou a ser detestado pelos motoristas apreciadores de bebidas alcoólicas.

Estatísticas

Dados do Detran-DF revelam que, entre junho e agosto, houve uma queda de 20,6% no número de acidentes, em comparação aos três meses anteriores à data em que a Lei Seca entrou em vigor. O índice de mortes caiu 18,4% ? foram 136 óbitos antes da nova norma e 111 depois.

O diretor-geral do órgão, Jair Tedeschi, enfatizou que a lei continuará sendo cumprida sem trégua.

“Até o fim do mês passado, 1.630 motoristas foram multados porque beberam e dirigiram. No ano passado, tivemos 1.008 autuados, o que demonstra o quanto intensificamos nossa fiscalização”, destacou Tedeschi.

Consciência fala mais alto

A empresária Fabiana Salim, moradora do Lago Sul, viu-se obrigada a mudar de hábito, depois que a Lei Seca entrou em vigor. Dona de uma gráfica no SIG, ela conta que aprecia uma cervejinha no fim de semana, mas não abre mão da segurança. Sempre que ingere algum tipo de bebida alcoólica, aciona os profissionais da carona amiga, que a levam até em casa, sem que a empresária necessite pegar no volante.

“Quando a lei passou a vigorar, quem gosta de beber se viu apavorado. Costumo dizer que a nova legislação veio como ditadura moderna. Mas, apesar do incômodo que provocou no início, na minha avaliação, ela é muito positiva. Até mesmo porque não melhorou apenas os índices de acidentes, que caíram, mas já ouvi muitas mulheres dizerem que os maridos, que antes chegavam em casa alcoolizados e agressivos, hoje estão diferentes”, comentou.

Fabiana Salim comenta que a preocupação não se restringe apenas a ela, mas com relação a suas companhias também.

“Sempre que estou em uma festa e vejo que algum amigo bebeu, não deixo que ele saia dirigindo. Um dia desses, fui a um aniversário e, na hora de ir embora, tomei a iniciativa de chamar pelo menos cinco caronas amigas. O que achei mais interessante é que eles são muito profissionais. Se é uma mulher que aciona o serviço, eles mandam uma motorista, caso seja um homem, mandam um homem. Na última vez, paguei R$ 20 pelo serviço, da Asa Norte ao Lago Sul”, lembrou.

Amigo da vez

Desde o dia 20 de junho, o universitário Bruno Gonçalves da Rocha, 24 anos, assumiu uma nova função ao sair com amigos: a de motorista. O estudante de direito não bebe e é ele quem dirige. Sempre que saem, fazem rodízio com os carros, mas com o motorista não. Rocha é fixo neste posto.

“Não ligo muito para isso. Gosto de me divertir sem beber. Nada contra quem bebe. Mas, prefiro fazer assim a deixar que provoquem um acidente”, disse.

Novo filão

A Lei Seca não foi responsável apenas por mudar o hábito das pessoas, mas, também, por criar novas formas de se ganhar dinheiro. O empresário Luciano Santos Oliveira, 25 anos, descobriu um novo negócio, que começou a funcionar a partir do medo dos motoristas em relação às blitze.

“Na ocasião, eu vi uma notícia na TV que dizia que as pessoas estavam sem saída. Quando bebiam, não tinham como levar o carro de volta devido à preocupação com as fiscalizações. Brincamos, eu e meus colegas de trabalho, sobre a possibilidade de criar a carona amiga. Um motoqueiro, acompanhando de um motorista, na garupa, que seria responsável por conduzir o veículo do cliente. Fizemos uma proposta e a enviamos para alguns estabelecimentos, que compraram a idéia. Hoje, temos vários clientes”,explicou.

Mais barato que guincho

De acordo com Oliveira, muitos motoristas só chamam a carona amiga quando são parados em uma blitz. O empresário diz que esses não acionam o serviço antes porque acham que não serão parados.

“Quando são pegos em uma blitz, preferem nos pagar R$ 20 a ter que desembolsar uma taxa de R$ 120, relativa ao guincho”, citou.
Autor: Fabrício Francis
OBID Fonte: Jornal do Brasil – RJ