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Sem vícios

O ser humano é a única criatura que precisa de um sentido para viver. “Quem sou eu?”, pergunta que auxilia na busca por esse sentido, tem resposta que demanda empenho, autoconhecimento e tempo. Alguns dos que se perdem nesse busca, recorrem a suportes que podem levar à dependência.

A dependência em álcool, drogas ou medicamentos é um dos piores inimigos na jornada da existência humana, afastando a pessoa de si, dos familiares e daqueles que a amam e são amados por ela, aniquilando o real sentido da vida. Três fatores principais levam à dependência química: biológicos, psicológicos e sociais. “A dependência química, hoje em dia, é considerada multifatorial. Três motivos são levados em conta: biológico, por questões orgânicas e predisposição genética, psicológico, traços de personalidade que deixam o indivíduo mais exposto – por exemplo, o tímido que bebe para conseguir se relacionar socialmente -, e o fator social como ambientes pobres em opções de lazer e estudo. Há sempre um pouco de cada um desses fatores em casos de dependência química”, afirma o psicólogo especialista em dependência química, Marcelo Alvares.

A também especialista em dependência química e diretora de ensino da Unidade de Pesquisa em Álcool e Drogas (Uniad), Neliana Buzi Figlie, diz que há também fatores de risco e de proteção para o consumo de substâncias químicas. “Os fatores de proteção que contribuem para que o jovem não faça uso de drogas são: fortes laços de família, com limites e envolvimento dos pais na vida dos filhos, sucesso escolar, fortes laços com instituições sociais, entre outros. Já ambientes domésticos caóticos, com relação entre pais e filhos problemática, déficit nutricional, timidez, agressividade, insucesso escolar, amizade com adolescentes inadequados e aprovação e permissividade ao uso de drogas pelo meio em que vive são considerados fatores de risco”, explica Neliana.

O diálogo é uma arma eficaz não apenas para descobrir uma possível dependência química, mas também para evitar que alguém enverede por essa via, segundo Alvares. O psicólogo afirma que conversas francas sobre drogas e outros assuntos considerados tabus devem fazer parte do cotidiano familiar. “Todos têm oportunidade, uma vez na vida, de ter contato com drogas ou álcool. As informações que as pessoas têm a respeito dessas substâncias é que vão fazer a diferença na escolha entre aderir ou não a esse estilo de vida. Por isso, é fundamental que haja em casa liberdade para tratar tais temas, sem preconceitos, com abertura e acolhimento. Dessa forma, a pessoa se sentirá livre para expressar-se quando encontrar dificuldades para enfrentar problemas nesse sentido ou em qualquer outro.”

Luta

Com 23 anos, Roberto Átila Ferraz, que mora em Jaci, luta contra o vício e quer se tornar um modelo de vitória para aqueles que enfrentam o mesmo desafio. Para Ferraz, encontrar-se consigo mesmo por meio da espiritualidade é fundamental nesse processo. “Na minha recuperação, Deus fez 99% e deixou apenas 1% para que eu faça. Se não fosse a fé, eu não seria capaz de superar o vício.” Assim como no caso de Ferraz, a fé foi um fator importante para que o rio-pretense Edilberto Bastos Frota, 43 anos, superasse a dependência que o acompanhou ao longo de 20 anos. Há oito anos, Frota está livre do vício. “Foi uma caminhada longa. No decorrer do tratamento fui me recuperando física e psicologicamente. Deus ajuda bastante. É uma opção para preencher o vazio deixado pelas drogas e pelo álcool.”

Assumir a responsabilidade pela própria recuperação é um dos principais passos na recuperação da dependência. “O tratamento procura motivar o paciente para a modificação do comportamento aditivo, envolvendo a sua responsabilidade no processo e não assumindo esta responsabilidade por ele, que é o que a família costuma fazer na maioria dos casos. Porém, muitas vezes a família traz o dependente / usuário para o tratamento, o patrão, problemas com a lei, e esse tipo de intervenção ou condição pode fazer o usuário ter um insight para a mudança, decorrente da pressão externa”, afirma Neliana. Segundo o psicólogo Marcelo Alvares, a motivação, não importa de que nível, tem de estar presente ao longo do tratamento. Para isso, é necessário tratar as três causas envolvidas no tratamento: biológica, psicológica e social com os instrumentos dos quais se dispõem para isso. “O indivíduo tem de estar motivado. Tem de, no mínimo, admitir que passa por um problema com drogas ou álcool. A espiritualidade é importante se o indivíduo tiver algum laço com essa área, dentro da cultura familiar ou de si mesmo. Se tiver esse laço espiritual, isso pode ser um auxílio”, diz.

Vida plena de significado afasta dependência química

Grande parte dos casos de dependência química leva à internação das pessoas que sofrem com essa doença. Mais do que tratar sob o aspecto médico, tais clínicas procuram realizar um trabalho que englobe as três principais causas desencadeadoras da dependência: biológica, social e psicológica. O psicólogo clínico, especialista em dependência química, Frederico Eckschmidt, que trabalha em uma instituição de recuperação, a Clínica Alvorada, em entrevista ao Diário, fala sobre fatores envolvidos em casos de dependência química.

Diário da Região – O que leva uma pessoa à dependência química?

Frederico Eckschmidt – A ciência trabalha com três causas possíveis (a explicação bio-psico-social). Além desse ponto de vista, há um fator existencial envolvido. Responder a questões fundamentais como ?quem sou eu??, ?qual o significado da minha vida?? ?de onde surgiu o mundo?? é fundamental para qualquer ser humano. Sem essas respostas a vida pode perder seu sentido e, no fundo, essas são questões espirituais por natureza. São suas respostas que nos conectam a uma vida plena de significado.

Diário – Quais são os principais sinais do envolvimento com drogas?

Eckschmidt – Primeiramente, as pessoas devem procurar informações. Em geral, sintomas como isolamento, irritabilidade, perder horários, compromissos, deixar de lado os relacionamentos pessoais podem ou não indicar o desenvolvimento de uma dependência química. O importante é que quando notar esses sintomas, a família procure um profissional para aconselhamento e possível consulta individual.

Diário – Qual a importância da espiritualidade para a recuperação?

Eckschmidt – Um estudo recente divulgado pela Revista de Psiquiatria Clínica da USP (nº 34, supl 1; págs. 73-81, 2007) escrito pela pesquisadora Sanchez, Z.M., e a professora Nappo, S.A, revela que a espiritualidade e a religiosidade são fatores muito importantes de proteção e prevenção do consumo de drogas. Esse mesmo estudo revela que usuários que adotam alguma religião tendem a permanecer mais tempo sem recair no uso das drogas. Elas ainda apontam a metodologia do A.A. (Alcoólicos Anônimos) e N.A. (Narcóticos Anônimos) como ótimos programas para a recuperação dos dependentes químicos. Os 12 passos envolvem um programa espiritual e não religioso, ajudando as pessoas a buscarem um Poder Superior da maneira que elas O compreendem.

Diário – Por que a pessoa com envolvimento espiritual é menos propensa a envolver-se com dependência química?

Eckschmidt – A explicação para isso tem sido colocada por inúmeros pesquisadores. Os nomes que mais se destacam é o filósofo William James e o psiquiatra e psicólogo suíço Carl Jung. Já no começo do século 20, James dizia que uma conversão religiosa poderia fazer um dependente químico parar de beber. Jung afirmou que a religiosidade é uma característica da natureza humana e que a falta dela causava neuroses e inúmeras outras doenças. Ele dizia que só um verdadeiro despertar espiritual poderia trazer a saúde psíquica e livrar as pessoas dos vícios químicos e emocionais. Do ponto de vista psicológico, a espiritualidade ajuda a trazer o sentido para a vida das pessoas. Isso porque essa é uma questão psicológica, isto é, simbólica. A falta de um símbolo que conecte nossa vida à do Universo pode ocasionar vários complexos capazes de dividir a vida do indivíduo, fazendo-o gastar energia vital em neuroses e padrões de comportamentos inautênticos.

Diário – Se o envolvimento espiritual é tão importante para a recuperação, como fazer com uma pessoa atéia?

Eckschmidt – Primeiramente, a pessoa deve ter mente aberta para encontrar dentro dela a resposta a essa pergunta: “quem fez tudo isso que nos cerca?” Se a pessoa for humilde e não tiver preconceitos intelectuais para compreender que ninguém tem essa resposta, muito menos a nossa ciência, pode começar a perceber que existe uma Inteligência Criativa que fez tudo de uma maneira extraordinariamente perfeita. Mesmo de forma inadequada a pessoa deve perseverar para encontrar essa resposta dentro de si. Se admitir esse simples fato, que existe um Poder Superior ou uma Inteligência Criativa, a pessoa pode começar a ter esperança de seguir um caminho para a recuperação.

Diário – Como o dependente químico pode recuperar o sentido da vida?

Eckschmidt – Esse é um trabalho árduo que culmina no autoconhecimento, o remédio para todos os males. Por isso, uma psicoterapia é muito importante. Cada um vai achar uma resposta dentro de si e, até descobri-la, deve encarar verdades relativas a si mesmo que ninguém gosta de saber. Mas é possível, com muito amor, desenrolar a história pessoal e abrir o coração para essas verdades.

Diário – Como os familiares e amigos podem ajudar?

Eckschmidt – Primeiramente informar-se sobre a doença. Podem procurar um grupo de ajuda como o Al-anon, o Nar-anon e o Amor Exigente, voltados para os familiares do dependente químico. Podem também procurar uma ajuda com um psicoterapeuta, mas mesmo que façam terapias individuais é importante que participem dos grupos. Segundo: ser humilde para pedir ajuda. Só o amor não basta para curar esta grave doença. É necessário o auxílio de profissionais. A pessoa que age somente por amor pode, na verdade, dificultar as coisas. É a chamada co-dependência, uma doença tão triste quanto a dependência química. A pessoa desenvolve os mesmos sintomas do dependente só que sem usar drogas e torna-se dependente emocional desse triste quadro.

Diário – Quais são os cuidados para que não aconteça uma recaída?

Eckschmidt – Continuar participando dos grupos e não facilitar. Ter regras claras e exigir que o dependente as cumpra, sob pena de castigos ou perdas.

Serviço:

CAPTA-SP – Centro de Apoio Psicológico e Terapêutico Ambulatorial.

Tels.: (11) 5072-3398 ou (11) 5071-9542 …
Autor: Diário Web
OBID Fonte: Diário da Região – Web