Álcool, doenças cardiovasculares e diabetes mellitus

A influência do consumo de álcool sobre a saúde, especialmente sobre a incidência de doenças cardiovasculares, parece diferir conforme seu tipo, o que aponta a necessidade de estudá-los separadamente. Pensando nisso, o presente estudo é uma revisão da interferência do consumo de álcool sobre as mais variadas doenças cardiovasculares, brevemente mencionadas individualmente.

(a) Miocardiopatia: é um termo que faz referência à doença do músculo estriado cardíaco, dentre as quais, o tipo mais comum é a miocardiopatia dilatada, na qual há um aumento da dimensão do coração e diminuição de sua força propulsora. Acredita-se que o uso crônico e pesado possa causá-la, embora padrões mais leves de consumo também possam fazê-lo, principalmente quando associados a co-fatores, entre eles, a deficiência da tiamina (vitamina B1 – beribéri), fatores genéticos e infecções virais.

(b) Hipertensão: embora um mecanismo biológico preciso não tenha sido proposto, o uso pesado de álcool aumenta o risco de desenvolver hipertensão, independentemente de fatores nutricionais, relação que não tem sido encontrada entre usuários leves e moderados. Além disso, o uso pesado de álcool interfere no tratamento medicamentoso, enquanto que a moderação ou abstinência facilitam os resultados de intervenções não-farmacológicas destinadas à diminuição da pressão arterial (ex.: redução de peso, realização de exercícios físicos e restrição do uso de sal).

(c) Arritmia: o risco de desenvolvimento de arritmia é maior entre usuários pesados de álcool, não tendo sido observado entre usuários leves e moderados. Possivelmente, esse aumento seja devido a danos do músculo miocárdico, efeitos do álcool sobre os reflexos vagais, condução do impulso nervoso/tempo refratário e possíveis influências sobre o papel das catecolaminas e acetaldeído. Há muito já se conhece a síndrome – “Holiday Heart”, uma arritmia conhecida como fibrilação atrial decorrente do abuso agudo de álcool.

(d) Derrame cerebrovascular: inúmeros estudos têm sugerido que o uso pesado de álcool esteja associado ao risco aumentado da incidência de derrame cerebrovascular, mas poucas pesquisas têm diferenciado a interferência do álcool de acordo com o tipo de derrame (ou seja, se hemorrágico – pela ruptura de vasos sanguíneos, ou isquêmico – pela oclusão de vasos sanguíneos). Outros estudos têm sugerido que usuários pesados estariam mais propensos a desenvolver derrame hemorrágico, embora o efeito do uso de álcool sobre o risco de derrame isquêmico ainda não esteja totalmente esclarecido.

(e) Doenças coronarianas: estudos epidemiológicos têm sugerido uma redução de mortalidade, por infarto agudo do miocárdio e doenças coronarianas, entre bebedores moderados, o que sugere um efeito cardioprotetor do álcool. Esse efeito poderia ser mediado por diferentes mecanismos, a citar: (1) aumento do nível do HDL plasmático, especialmente dos subtipos HDL2 e HDL3, que possibilitariam a redução do acúmulo de colesterol nas paredes dos vasos sanguíneos, além da diminuição da oxidação do LDL; (2) diminuição dos mecanismos de coagulação sanguínea; (3) redução do estresse ou efeitos ansiolíticos.

Nesse caso, o tipo de bebida é fator relevante sobre o efeito cardioprotetor do álcool. Embora tenha sido observado aos tipos mais comuns de bebida (vinho, cerveja e destilados), parece ser mais expressivo entre os bebedores de vinho e menos entre os bebedores de destilados, não havendo diferenças significativas entre o vinho tinto e branco. Além disso, os efeitos benéficos do álcool são influenciados pelo padrão de uso e características pessoais do bebedor.

(f) Falência cardíaca (Heart Failure): essa síndrome é funcionalmente descrita como a situação em que o funcionamento cardíaco é inadequado para o atendimento das reais necessidades do corpo, gerando o quadro clínico correspondente da “Insuficiência Cardíaca Congestiva”, podendo complicar-se através do desenvolvimento de edema agudo de pulmão e choque cardiogênico. Nessa situação, o padrão mais comum é o da miocardiopatia dilatada. O risco ao acontecimento de falência cardíaca está aumentado entre usuários pesados de álcool.

(g) Diabetes-tipo II: o beber leve-moderado tem sido associado ao menor risco de desenvolvimento de diabetes-tipo II, relação que tem sido graficamente representada por uma curva em U, com 30-40% de redução do risco em consumidores de 1-2 doses diárias de álcool. O uso leve-moderado é o de efeitos mais favoráveis e o tipo de bebida alcoólica parece ter pouca importância sobre esse risco. Os mecanismos exatos de ação do consumo moderado não estão totalmente esclarecidos, mas possivelmente sejam devidas a um aumento da sensibilidade celular à insulina ou à diminuição da intolerância à glicose, constatações que ainda precisam esclarecidas.

Em linhas gerais, nessa revisão, o autor sugere que há uma disparidade da influência do álcool sobre o desenvolvimento de doenças cardiovasculares, em que o beber leve-moderado causa efeitos favoráveis, em contraposição aos efeitos desfavoráveis do beber pesado. Além disso, o autor sugere que se deve ter cautela quanto aos efeitos do álcool sobre a saúde, já que dependeria do histórico médico e de riscos individuais. Logo, dever-se-ia adotar uma série de regras básicas, das quais se destacam: (a) o risco geral de saúde de um bebedor pesado poderia diminuir através da redução do consumo ou abstinência; (b) em função do desconhecimento do risco de progressão ao beber pesado, abstêmios não podem ser indiscriminadamente aconselhados a beber e, finalmente (c) a maioria das pessoas, que são bebedores do tipo leve-moderado, não precisam mudar seus hábitos de beber, exceto em circunstâncias especiais.

Título: Alcohol, cardiovascular disease and diabetes mellitus

Autores: Arthur L. Klatsky

Fonte: Pharmacological Research, 55: 237–247, 2007

IF: 2,421
Fonte:CISA – Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool