Carga genética pode facilitar dependência em cocaína

Uma pequena variação em um único gene pode aumentar em 47% o risco de uma pessoa ficar dependente em cocaína. A descoberta, publicada ontem na revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), foi resultado do esforço conjunto de pesquisadores da Alemanha, da Inglaterra e do Brasil.

O primeiro alvo dos cientistas foi o gene CaMK4, presente em camundongos. Eles intuíram que o gene influencia os efeitos comportamentais da droga, pois participa das reações da célula a estímulos externos. Criaram então uma linhagem de roedores sem o gene.

Comparados a cobaias normais, os animais geneticamente modificados apresentavam maior predisposição à dependência e respostas locomotoras mais acentuadas à droga. Os pesquisadores cronometravam quanto tempo os camundongos permaneciam no compartimento onde recebiam injeções de cocaína. Os roedores sem o CaMK4 ficavam um tempo consideravelmente maior.

O próximo passo foi estudar o CaMK4, correspondente humano do gene do camundongo. Obviamente, não existem pessoas sem o CaMK4. Portanto, o método foi diferente do utilizado com as cobaias: os cientistas realizaram um pequeno inventário das principais variantes do gene encontradas na população. Chegaram a três formas muito semelhantes, mas que apresentavam pequenas diferenças em algumas bases.

Como o objetivo era descobrir se uma das variantes aumentava o risco de uma pessoa desenvolver o vício, os cientistas estudaram os genes de 670 usuários de cocaína e compararam com 726 indivíduos que não utilizam a droga. Essa fase da pesquisa ocorreu no Brasil e foi coordenada por cientistas da Universidade de São Paulo (USP) e da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

Descobriram então que a incidência de uma das variantes – a rs919334 – era consideravelmente maior entre os usuários da droga. O risco de se tornar dependente é 47% maior em indivíduos com a alteração genética.

Jan Rodriguez, principal autor do estudo e pesquisador do Centro Alemão de Pesquisa sobre o Câncer, em Heidelberg, afirma que a descoberta estabelece o gene como um indicador de vulnerabilidade ao vício da cocaína. “Mas a dependência é resultado da interação de vários genes e fatores ambientes”, ressalva.
Autor: Capa Dois
OBID Fonte: Jornal do Commercio – PE