Excesso de bebida ainda é comum nas estradas

Pesquisa nacional revela que seis em cada dez motoristas já pegaram carona com condutores alcoolizados. Porcentagem semelhante confessa que extrapola o limite legal de consumo de bebida.

BRASÍLIA – Estudo inédito da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad) em parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul revela que 62% dos motoristas brasileiros já pegaram carona com outros motoristas embriagados. A pesquisa mostra ainda que 73,6% bebem muito, pelo menos uma vez por mês. O consumo de álcool é ainda maior entre os 59,8% que extrapolam as cinco doses de álcool internacionalmente consideradas nocivas à saúde e ingerem de sete a 15 latas de cerveja, cálices de vinho ou doses de destilado, a cada dia que saem para beber.

O levantamento foi feito com 1.391 motoristas, entrevistados e submetidos ao bafômetro em 12 capitais. Ele faz parte do Estudo do impacto do uso de bebidas e outras substâncias psicoativas no trânsito brasileiro, que até março do ano que vem terá coletado dados sobre 3.400 condutores, nas rodovias que cortam as 27 capitais do Brasil.

A secretária-adjunta da Senad, Paulina Duarte, reconhece que o abuso de álcool é um problema no Brasil: “O que nos preocupa é que nossos jovens estão bebendo cada vez mais cedo e pesado. São prioridades a prevenção, educação e a proibição da venda em certos locais”, diz, lembrando que, hoje, já não é mais permitido o comércio de bebidas alcoólicas nas estradas e em campus universitários.

A pesquisa ainda encontrou 24,3% de motoristas que contaram já ter bebido e dirigido. Desses, 80% afirmaram ter feito a combinação antes do endurecimento da legislação de trânsito. A introdução da lei seca, no entanto, não foi capaz de mudar o comportamento da maioria dos condutores, que mantém os velhos maus hábitos. É o que diz a Polícia Rodoviária Federal.

“O motorista brasileiro acha normal beber e dirigir”, diz o secretário nacional da Polícia Rodoviária Federal, Alexandre Castilho.

Ele admite que a falta de fiscalização em algumas regiões estimula motoristas a continuar bebendo. O problema maior, diz, é no interior do País: “As cidades distantes dos centros urbanos não têm estrutura suficiente para fiscalizar o consumo de álcool. Não têm bafômetro. Isso é triste. Existem Estados que há um mês estavam comemorando a aquisição do primeiro bafômetro”.

Um estudo feito nos dois principais hospitais de Porto Alegre mostrou que os motociclistas são 80% dos pacientes atendidos na cidade devido a acidentes de trânsito. Esses hospitais tratam 98% das vítimas de acidentes. Dos 617 casos investigados, 60% dos acidentados eram os próprios condutores. Destes, 17,1% estavam alcoolizados. Entre os reprovados no bafômetro, 20% admitiram que já beberam e dirigiram outras vezes.

“Isso quer dizer que, para esses condutores, é um comportamento comum, freqüente”, avalia a pesquisadora Raquel de Boni, autora do trabalho.

O abuso de bebida alcoólica foi admitido por 40,9% das vítimas de acidente de trânsito, que disseram beber mais de cinco doses de uma vez. Pelo menos 42% já haviam se envolvido em acidente de trânsito antes.

“O consumo em excesso é mais associado tanto a acidentes quanto à violência. É um comportamento muito comum em jovens. A gente tem uma cultura muito permissiva ao uso de álcool”, diz Raquel.
Autor: Catarina Alencastro
OBID Fonte: Jornal do Comércio-PE