Comportamento de consumo de álcool e aconselhamento sobre esse uso entre estudantes de medicina nos EUA: um estudo de coorte

Nos Estados Unidos, o consumo excessivo de álcool, considerado como a terceira principal causa de morte evitável no país, causa 79 mil mortes por ano. O aconselhamento sobre os efeitos nocivos desse consumo, pelo médico ou estudante de Medicina, é uma importante ferramenta à conscientização de pacientes. Pela sua importância, o estudo do padrão de consumo de álcool entre os estudantes de Medicina permite vislumbrar o profissional que futuramente poderá prestar esse importante aconselhamento.

No ano de 2003, para esse fim, foi realizada uma pesquisa com estudantes de 16 faculdades de Medicina dos Estados Unidos e em três momentos distintos: (a) no primeiro ano; (b) no primeiro contato com os pacientes (terceiro ano, tipicamente) e (c) no último ano de graduação. No geral, houve uma taxa de resposta de 83% e os estudantes selecionados distribuíram-se da seguinte maneira: (a) 1846 estudantes do primeiro ano; (b) 1630 no segundo momento e (c) 1469 no último ano.

Além de questões gerais para definir o perfil sócio-demográfico do estudante, foram feitas perguntas sobre seu consumo de bebidas alcoólicas (discriminando freqüência e quantidade); seu ponto de vista sobre a importância de aconselhamento de pacientes a respeito do uso excessivo de bebidas alcoólicas; a percepção de estar preparado para prestar esse tipo de serviço e, finalmente, a freqüência dessa abordagem com os pacientes.

Em geral, 78% dos estudantes relataram ter bebido no mês anterior, sendo que um terço havia feito consumo excessivo, proporções que não se modificaram de forma significativa ao longo do curso. Os estudantes que relataram que “beber é uma boa atividade para relaxar” tiveram uma chance 60% maior de beber de forma excessiva do que aqueles que não expressaram opinião semelhante. .

A importância do aconselhamento de pacientes em relação ao álcool caiu de 76% para 59% entre estudantes que almejavam posições em cuidados primários, e de 52% para 39% dentre outras especialidades, apesar de a confiança na capacidade de prestá-lo ter aumentado. Conforme os autores, a prática e a percepção da importância desse aconselhamento é influenciada pelos seguintes fatores: ser afro-americano; estar abstêmio; ter a intenção de atuar em cuidados primários; ter treinamento na área; sentir-se confiante na capacidade de dar aconselhamento; acreditar fortemente que a moderação nos próprios hábitos de consumo esteja associada a uma melhor qualidade no aconselhamento e acreditar que é dever do médico promover a prevenção. Os bebedores excessivos são mais propensos a não considerarem a importância do aconselhamento e a não fazê-lo em relação aos bebedores moderados ou abstêmios.

Apesar da prevalência do padrão de consumo excessivo ser menor que na população geral de mesma faixa etária, esse uso entre estudantes de Medicina é preocupante já que num futuro próximo são eles que prestarão os serviços de saúde relacionados à prevenção e tratamento de alcoolismo e outros distúrbios relacionados ao álcool aos demais cidadãos. Além disso, a abordagem de aconselhamento é de suma importância à prevenção e parece ser influenciada pelo consumo do próprio médico. Assim, intervenções que busquem um consumo de álcool mais consciente, não-excessivo, podem ser cruciais para a formação de profissionais capacitados e que possam interferir de forma adequada sobre o problema.

Título: Alcohol consumption and alcohol counselling behaviour among US medical students: cohort study

Autores: Erica Frank, Lisa Elon, Timothy Naimi e Robert Brewer

Fonte: BMJ, 2008, 337 (in Press)

IF.: 9,723
Fonte:CISA – Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool