Terapia cognitivo-comportamental de transtornos de abuso de álcool e drogas

A dependência e o abuso de álcool representam um grande problema de saúde pública. Mesmo os melhores tratamentos para o alcoolismo apresentam prognósticos pouco favoráveis, e o prognóstico para pacientes com maior cronicidade é ainda menos favorável.
Muitos programas tradicionais de tratamento do alcoolismo têm como foco fatores motivacionais, explicando ao paciente por que ele deveria se abster de beber álcool. Entretanto, eles não fornecem as habilidades necessárias, uma vez que não mostram ao paciente como não beber, como largar um velho hábito e controlar sua ocorrência no futuro. Neste segundo foco, o indivíduo recebe a responsabilidade pela resolução do problema, e não sua causa e desenvolvimento.

Entre os diversos tipos de tratamentos aos quais as terapias cognitiva e comportamental têm sido aplicadas com sucesso encontra-se o uso em problemas de adicção ou dependência de substâncias psicoativas. O artigo, em parte, revê modelos de adicção como os de prevenção de recaídas de Marlatt e Gordon, o de Prochaska, DiClemente e Norcross sobre os estágios de mudança, com a derivação da entrevista motivacional, desenvolvida por Miller e Rollnick, bem como os modelos cognitivos de Beck et al.

A primeira tentativa de intervenção usando um modelo cognitivo foi o Programa SMART Recovery©, baseado na terapia racional emotiva comportamental de Albert Ellis. O termo SMART (que significa “esperto” ou “inteligente” em inglês) é um anagrama das palavras Self-Management And Recovery Treatment (tratamento de recuperação por auto-manejo). Ele ajuda os indivíduos a atingir independência de seus comportamentos adictivos, seja de substâncias ou de atividades. O programa fornece instrumentos e técnicas para quatro questões programáticas: 1) melhorar e manter a motivação para se abster; 2) enfrentamento de fissuras; 3) resolução de problemas, manejo de pensamentos, sentimentos e comportamentos; e 4) equilíbrio no estilo de vida, balanceando satisfações momentâneas e duradouras.

Com base em evidências da literatura para o desenvolvimento de programas de tratamento efetivos, é descrito um modelo de tratamento em grupo que foi usado com grupos de alcoolistas encaminhados pela Divisão de Vigilância da Saúde do Trabalhador da Universidade Federal do Rio de Janeiro (DVST) para o Centro de Pesquisa e Reabilitação do Alcoolismo (CEPRAL). O objetivo foi desenvolver um programa de tratamento de grupo para dependentes de álcool baseado numa abordagem cognitivo-comportamental, visando à remissão completa de seu uso.

Os objetivos específicos do tratamento foram: 1) desenvolver aprendizagem e prática de novos comportamentos substitutos para o comportamento de beber através de treinamento de habilidades inter e intrapessoais; 2) ensinar estratégias de enfrentamento que podem ser usadas para lidar com situações de alto risco (internas e externas) que poderiam levar ao comportamento adictivo; 3) estabelecer estratégias gerais de mudanças no estilo de vida; e 4) desenvolver estratégias que favoreçam a manutenção do processo de mudança nos hábitos produzidos pelo tratamento.

Os autores concluem que ao lidar com pacientes adictivos, é importante para o terapeuta estar “focado”, tentando não demonstrar desesperança e desespero, mas ao mesmo tempo, não esperar progresso constante.
Os terapeutas devem oferecer feedback, educação, técnicas e apoio a seus pacientes, mas não podem assumir a responsabilidade pelos problemas dos pacientes.

É importante que os terapeutas permaneçam calmos numa situação de crise e auxiliem o paciente na resolução de seu problema, sabendo que não devem resolver as crises para seus pacientes.

Para ler o artigo na íntegra acesse http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1516-44462008000600006

Revista Brasileira de Psiquiatria
Print ISSN 1516-4446
Rev. Bras. Psiquiatr. vol.30 suppl.2 São Paulo Oct. 2008
Autor: Bernard P Rangé; G Alan Marlatt
OBID Fonte: Revista Brasileira de Psiquiatria