Crack avança e procura por tratamento cresce 90%

Perfil do usuário mudou: agora eles têm profissão e escolaridade e poder aquisitivo mais altos; internação custa até R$ 14 mil

J.A., 26, está há três meses se tratando em uma clínica para dependentes químicos em Belo Horizonte. Viciado em crack, o “lixo da cocaína”, o estudante de medicina, de classe média alta, viu sua vida ser destruída. Parou os estudos e abriu mão de todos os seus bens para poder comprar a droga, de efeito devastador. Foi levado à força para o tratamento pelos pais, que já não agüentavam mais sofrer com os efeitos do vício sobre a vida do filho.

Ele é apenas um dos vários que lotam as instituições especializadas em tratamento de dependência química da capital mineira. O crack – antes usado quase exclusivamente por pessoas pobres, mendigos e meninos de rua – agora se alastra para classes com poder aquisitivo maior e vitimiza jovens e adultos. Prova disso é que, nos consultórios particulares, onde os tratamentos custam de R$ 6.000 a R$ 14 mil, a maioria dos pacientes já é formada por viciados do crack.

No Centro Terapêutico Viva, no bairro Santa Efigênia, onde o tratamento de quatro meses custa R$ 14 mil, 99% dos pacientes são usuários de crack, isoladamente ou associado a outras drogas. De acordo com a diretora terapêutica da empresa, Cláudia de Oliveira Soares, há dez anos, os usuários dessa droga representavam menos de 50% do total de pacientes. “A grande maioria é adulto com até 50 anos, pessoas que conseguiram alcançar uma condição profissional e social elevada e que cursaram faculdades. Pessoas que perdem tudo porque os efeitos da abstinência do crack são muito intensos”, relatou.

Na instituição Fazenda Renascer, cada mês de permanência significa um gasto de R$ 1.000. Em 1998, os dependentes de crack representavam entre 5% e 10% do total de pacientes. Hoje, já somam 70%. “Além dos usuários serem mais ricos, outro fenômeno novo é que começam a usar droga cada vez mais cedo, aos 12 ou 13 anos. Da maconha, passam rapidamente para a cocaína e, quando ela não faz mais efeito, mudam para o crack”, explicou a psicóloga responsável pela triagem na clínica, Mônica Diniz Labruna.

A mesma tendência se repete em clínicas como a Comunidade Resgate, onde em quatro anos o percentual de pessoas atendidas com a síndrome de abstinência por causa do crack passou de 70% para 90%. “Percebemos que esse aumento foi justamente entre empresários ou pessoas com grau de escolaridade maior”, afirmou a coordenadora Maria Celuta Moraes. Em clínicas como Central Psíquica, no Anchieta, Centro Psicoterápico, no Mangabeiras, e na Clínica Mourão, no Vale do Sereno, todas na região Centro-Sul da capital, o aumento de tratamento de dependentes de crack também foi significativo, principalmente nos últimos quatro anos.

A professora da Faculdade de Medicina da UFMG, Tatiana Mourão, afirma que a principal mudança é que o crack, antes restrito a partes isoladas nos centros degradados das cidades (espaços conhecidos como “cracolândias”), agora, é experimentado por pessoas que têm uma atividade social. “A proporção de uso em relação ao crack se inverteu e hoje vemos dependentes de crack com perfil que nunca imaginaríamos”.

Saúde pública. Na rede pública de saúde, o crescimento da procura por tratamento de crack também cresceu. No Centro Mineiro de Toxicomania, em 1997, 20,61% dos pacientes consumiam a droga. No ano passado, este percentual passou para 37,12%, índice recorde.

Pais. Mais doloroso para os pais do que saber que o filho é usuário de crack é a hora de decidir interná-lo. A afirmação é da psicóloga Cláudia de Oliveira Soares. Ela acredita que, geralmente, as famílias de classe média e alta só percebem que o filho é dependente químico quando a situação já é grave.

“Muitas vezes, os pais substituem o carinho e o afeto, a participação na vida do filho, por bens materiais e depois ficam com sentimento de culpa, que prejudica o tratamento”, afirmou. De acordo com Cláudia, as famílias precisam entender a dependência como uma doença que precisa de tratamento. “Assim existe uma chance dessa família ter condições de vida melhores”, disse.
Autor: Eugênio Martins
OBID Fonte: O Tempo – MG