Perigos de ambientes em que se fumou são ignorados

Pesquisadores do Massachusetts General Hospital, nos EUA, avaliaram as atitudes dos adultos com relação aos riscos que o chamado “thirdhand smoke” -contaminação pelas substâncias maléficas do tabaco depois de o cigarro ser apagado- trazem às crianças.

O estudo, que será publicado na edição de janeiro do “Pediatrics”, avaliou o comportamento de 1.500 adultos. Constatou-se que os riscos do fumo passivo são bem conhecidos -95,4% dos não-fumantes sabiam que a exposição das crianças à fumaça do cigarro traria prejuízo, e 84,1% dos que fumavam tinham esse conhecimento.

Já os perigos do “thirdhand smoke” eram conhecidos por 43,1% dos fumantes e 65,2% dos não-fumantes. “Quando você fuma, partículas tóxicas do tabaco penetram no cabelo e na roupa. Quando entra em contato com o bebê, mesmo que não esteja fumando naquele momento, coloca-o em contato com essas toxinas”, disse Jonathan Winickoff, responsável pelo estudo.

O trabalho relata que crianças pequenas são mais suscetíveis a esse tipo de exposição às toxinas do tabaco porque engatinham e brincam em superfícies que podem estar contaminadas e normalmente as tocam com as mãos e a boca. Segundo os pesquisadores, mesmo baixos níveis de componentes podem ser neurotóxicos, o que justificaria a restrição total do fumo em ambientes habitados ou frequentados por crianças.

Ar contaminado

A fumaça do cigarro também permanece no ambiente e pode irritar a mucosa nasal de crianças e adultos com rinite e asma. “A pessoa diz que não fuma em casa, mas os resíduos chegam com ela ao ambiente. E, se uma pessoa com mucosa sensível entrar em um local onde já se fumou, isso vai trazer impacto”, afirma João Paulo Becker Lotufo, pneumologista pediátrico e responsável pelo Projeto Antitabágico do Hospital Universitário da USP (Universidade de São Paulo).

Lotufo cita um trabalho desenvolvido pela USP com crianças de zero a cinco anos filhas de fumantes. Das avaliadas, 24% apresentaram nicotina na urina. “Não estudamos o risco do toque, mas se sabe que quem trabalha com as folhas do tabaco tem problemas de saúde. Então dá para dizer que as toxinas transmitidas pelo toque oferecem perigo.”

Ele diz ainda que, quando a mãe é fumante, a criança é mais atingida pelas toxinas do tabaco do que quando o pai mantém o vício, já que, em geral, a mulher convive mais com o filho.
Autor: Editoria Saúde
OBID Fonte: Folha de S.Paulo-SP