Pistas menos violentas

Em 2008, mortes nas vias do DF diminuíram 3,6% em relação a 2007. Foram 17 vidas poupadas, graças a ações como aumento na fiscalização e mais cooperação entre Detran e polícias.

Dois acidentes graves ocorridos no ano passado: em março, três pessoas morreram em uma batida envolvendo três veículos na DF-001 (alto). Em abril, cinco perderam a vida em sequência de colisões no Eixão Sul

Quatrocentos e cinquenta pessoas perderam a vida no trânsito do Distrito Federal em 2008. A média é de 37,5 vítimas por mês, acima do que os estatísticos consideram aceitável para a frota de 1.046.638 veículos. O ideal é que a média mensal não ultrapasse 30 casos. Mas também há boas notícias. O índice de mortos por grupo de 100 mil habitantes caiu de 19,2 em 2007 para 18,3 no ano passado. E o número total de vítimas em 2008 na comparação com 2007 (467 mortos) caiu 3,6% (veja arte).

A queda pode parecer pequena, mas, como lembra o diretor-geral do Departamento de Trânsito do DF (Detran), Jair Tedeschi, deve-se considerar que tanto a população quanto a frota de veículos aumentaram no último ano. “Assim, a redução no total de mortes torna-se significativa”, disse ele. Na avaliação do diretor, as 17 vidas poupadas ao longo do ano passado são resultado, em parte, da mudança na estratégia de fiscalização. Os meses de abril e dezembro chamaram a atenção. Abril bateu recorde de acidentes (47) e de mortes (56). Dezembro registrou os menores números desse tipo de ocorrência, 25 e 29 respectivamente, apesar das festas de fim ano, quando as estatísticas geralmente sobem em relação aos outros meses.

Entre os acidentes que mais chocaram os brasilienses no ano passado, pelo menos dois ocorreram em abril. No dia 16, o jornalista Roberto Rodrigues Rosemberg, 45 anos, seguia pelo Eixão Sul, no sentido Rodoviária de Brasília—Saída Sul. Segundo a polícia, ele perdeu o controle do carro na altura da 202/203 Sul, invadiu a terceira das três faixas no sentido contrário, atingindo em cheio outro veículo. Este, por sua vez, rodou e colidiu com mais dois carros. Cinco pessoas, entre elas Rosemberg, morreram e sete ficaram feridas.

O outro acidente ocorreu em 27 de abril, no Km 3 da DF-001, sentido Taguatinga—Brazlândia. O condutor Igor de Rezende Borges, 25 anos, perdeu o controle do carro e bateu de frente com outro veículo. Cinco pessoas morreram — quatro delas na hora — e mais quatro ficaram feridas. Testemunhas disseram à polícia que Igor havia ingerido bebida alcoólica. Em março, também houve uma colisão gravíssima na DF-001, entre São Sebastião e Lago Sul. Foram três veículos envolvidos, três mortos e dois feridos.

Desde que assumiu o cargo, em 29 de abril passado, Tedeschi diz ter reforçado a fiscalização nos locais de grandes eventos festivos, onde o trânsito fica mais complicado. O Batalhão de Trânsito da Polícia Militar (BPTrans) foi um aliado. “Houve uma integração muito grande com o BPTrans. A Polícia Rodoviária Federal também ajudou muito. E se a CPRV (Companhia de Polícia Rodoviária da PM) não tivesse sido equipada com viaturas e motos no fim do ano passado, provavelmente não teríamos conseguido manter os números em queda em dezembro”, observou Tedeschi.

O diretor do Detran considera altos os números de vítimas e de acidentes fatais. Reconhece que é preciso avançar muito para mudar as estatísticas, mas alega ter feito o possível. Além da fiscalização e da parceria com a Polícia Militar, ele cita o investimento em campanhas educativas de R$ 13 milhões — dos R$ 88 milhões arrecadados com multas — e a agilidade na análise dos processos de suspensão e cassação de carteiras. Em 2008, o órgão suspendeu 2.576 carteiras de habilitação contra 1.942 em 2008, aumento de 33%. Houve redução no total de cassações: foram 100 em 2007 e 65 no ano passado.

Rigor

A pedido do Correio, o especialista em educação para o trânsito Eduardo Biavati analisou os gráficos de mortes proporcionais ao número de habitantes e de veículos. “O que observamos claramente é que nos últimos quatro anos os índices estão praticamente estabilizados. Não podemos falar que estamos sendo derrotados pelo problema, mas também não avançamos muito”, avaliou.

Biavati atribuiu a queda dos números ao que considera conquistas no setor. “Vimos crescer o controle sobre o excesso de velocidade, o reforço na fiscalização por conta da lei seca e o aumento da preocupação com a segurança do pedestre e do motociclista”, disse. “Mas ainda faltam fiscalização e programas de educação permanentes para o trânsito”, ressaltou.

Especialista em política de transporte, o professor Joaquim Aragão, do departamento de Engenharia Civil e Ambiental da Universidade de Brasília (UnB), preferiu não analisar os números. Mas apontou o caminho que acredita que ajudará na redução das estatísticas. “É preciso criar um padrão de registro de acidentes e mortes com dia da semana, hora e local. Assim será possível atuar nos pontos críticos, desenvolver ações pontuais, melhorar a engenharia de trânsito, se for o caso”, recomendou.

Segundo Aragão, o que ocorre atualmente é um “arrastão de segurança”, com fiscalização maciça para coibir o excesso de velocidade e a ingestão de bebida alcoólica. “Isso também é eficiente, mas pode-se fazer muito mais, por exemplo, em relação à faixa de pedestre e aos investimentos em educação”, sugeriu.

Lei seca reduz acidentes à noite

A tolerância zero à combinação álcool e volante começa a provocar reflexos positivos nas estatística do Departamento de Trânsito (Detran) do DF. Houve redução de 22,6% nos acidentes fatais e de 19% nas mortes ocorridas no período noturno (entre as 18h e as 5h59). “Nesse horário, a maioria absoluta dos condutores envolvidos nesse tipo de ocorrência está alcoolizado”, afirmou o diretor-geral do Detran, Jair Tedeschi.

O balanço divulgado pelo órgão revela que, de 20 de junho de 2008 — quando a lei seca entrou em vigor — até 31 de dezembro do mesmo ano, houve 116 acidentes fatais durante a noite, do total de 412 no ano. No mesmo período de 2007, foram 150. Das 450 mortes no trânsito em 2008, 132 foram em colisões, capotagens ou atropelamentos durante o período noturno. Em 2007, esse número ficou em 163. Tedeschi reconhece que a queda deve ser atribuída à nova legislação.

Flagrantes

De acordo com ele, a maioria dos acidentes e das mortes que acontecem principalmente entre as 23h e as 5h tem a mistura bebida alcoólica e direção como ingrediente. “E nunca era um único acidente ou uma única vítima. Com a lei seca, vemos claramente que as ocorrências caíram drasticamente, mas, se não houvesse o arrocho na fiscalização, talvez nada disso tivesse mudado”, ressaltou Tedeschi.

Em 2008, o número de condutores flagrados ao volante alcoolizados ou sob a suspeita de uso de entorpecentes aumentou 148% se comparado com 2007, quando 1.008 motoristas acabaram pegos. Nos seis meses de vigência da lei seca, o Detran fez 1.612 flagrantes. Desse total, 733 condutores acabaram na delegacia autuados pelo crime de dirigir alcoolizado. A média é de 208 casos por mês ou sete por dia. (AB)
Autor: Adriana Bernardes
OBID Fonte: Correio Braziliense-DF