Estudo do Detran indica que 89% dos entrevistados aprovam a lei seca

A Lei Federal 11.705/08, a lei seca, não é fiscalizada com o rigor necessário no Distrito Federal. Essa é a opinião da maioria das pessoas ouvidas em pesquisa feita pelo Instituto Brasileiro de Segurança no Trânsito, a pedido do Departamento de Trânsito (Detran) do DF. Dos 796 entrevistados, 81% acreditam que hoje a fiscalização da lei seca é insuficiente. A tolerância zero à mistura álcool e direção — que tanta polêmica causou quando a legislação entrou em vigor — agora é aprovada por 89% das pessoas. E 67% não acreditam existir quantidade segura para beber e pegar o volante depois (veja arte).

Os questionários foram aplicados entre novembro e dezembro do ano passado, em 26 regiões administrativas. A pesquisa, a que o Correio teve acesso com exclusividade, ganha divulgação no momento em que o Detran revela o balanço dos acidentes fatais e das mortes nas vias nos sete meses de lei seca. Os dois indicadores continuam em queda. Entre 20 de junho de 2008 e 18 de janeiro de 2009, houve 54 acidentes a menos que no mesmo período de 2007. Caiu de 275 para 221, redução de 19,6%. Quanto às vítimas, caíram de 297 para 245, ou seja, 17,5% a menos.

Na pesquisa, o que mais chamou a atenção do diretor-geral do órgão, Jair Tedeschi, foi a mudança de comportamento do condutor. Antes da lei seca, 54% afirmavam que bebiam e dirigiam. Depois dela, o índice caiu para 29%. “Isso mostra que boa parte das pessoas deixaram de beber e dirigir. Agora, o nosso foco é em cima dos que ainda admitem desrespeitar a lei. Como? Campanha, fiscalização e mídia.”

Bom senso

Prova de que muita gente ainda ignora a tolerância zero à mistura álcool e direção é o balanço divulgado pela Gerência de Fiscalização do Detran. Só este ano houve 137 casos de motoristas flagrados alcoolizados. Desde que a lei entrou em vigor até o dia 19 de janeiro de 2009, foram 1.749 autuações, média de oito por dia.

Quanto às críticas em relação à falta de fiscalização, Tedeschi disse não ter se surpreendido. “As pessoas têm razão. É necessário haver mais fiscalização e é isso que teremos”, garantiu. Tedeschi citou o concurso do Detran, que deve ser concluído em março, e o da Polícia Militar, previsto para os próximos meses. Ambos reforçarão o efetivo que atua nas ruas.

O tatuador Vander da Cruz, 27 anos, vai sentir o peso da punição por beber e dirigir. Abordado por policiais militares ao sair de um restaurante, ele se recusou a fazer o teste do bafômetro, mas admitiu ter bebido. “Tentei apelar para o bom senso, mas não teve conversa”, disse. Vander desistiu de apresentar o processo de defesa. Pagou a multa e aguarda a condenação pelo órgão. “Acho que a lei é correta e o que aconteceu comigo tem acontecido com outros. Percebo uma mudança de comportamento entre os meus amigos. Mas tem quem se arrisca e não está nem aí”, constatou.

Reflexos lentos

Presidente da ONG Instituto Brasileiro de Segurança no Trânsito, David Duarte Lima, que também é professor da Universidade de Brasília (UnB), surpreendeu-se com a aprovação maciça da lei. “Ouvimos muitas críticas, mas a pesquisa deu voz a uma parcela silenciosa da população”, comentou. Para ele, um dos dados preocupantes é que 29% admitiram beber e dirigir. “Significa que um a cada três ainda tem esse comportamento. Está longe do ideal”, defendeu. Segundo ele, um dos efeitos do álcool é reduzir os reflexos. “Dirigindo a 60km/h, se o motorista retarda em um segundo para frear, o carro anda 17 metros. Pode ser a diferença entre atropelar ou não uma criança”, afirmou.

A pedido do Correio, especialistas avaliaram os dados da pesquisa. Para Fernando Cabral, da Associação Brasileira de Bares e Restaurantes (Abrasel), os indicadores não surpreendem. “O resultado seria o mesmo se houvesse fiscalização quando o limite era de 0,06 decigrama”, disse. Cabral chamou a atenção para o fato de 31% dos entrevistados terem dito que existe um limite seguro para beber e dirigir. “É isso que defendemos desde o começo. As pessoas que bebem irresponsavelmente e dirigem, continuam causando acidentes de trânsito”, afirmou. A Abrasel entrou na Justiça para acabar com a tolerância zero. A ação aguarda julgamento do STF.

O diretor da Associação Brasileira de Medicina de Trafégo (Abramet), Alberto Sabbag, contesta os argumentos da Abrasel. Segundo ele, estudos da área médica mostram não haver nível seguro para a combinação álcool e volante. “E não houve desemprego como a Abrasel argumentou. Só se foi desemprego de coveiro, nas funerárias, e nas fábricas de cadeira de rodas. Essa pesquisa mostra o amadurecimento do brasileiro”, disse.
Autor: Adriana Bernardes/Raphael Veleda
OBID Fonte: Correio Braziliense-DF