Atitude contra o câncer

Diagnóstico precoce, tratamento e otimismo: fundamentais no combate à doença.

Em 2005, de 58 milhões de mortes no mundo, o câncer foi responsável por 7,6 milhões, ou seja, 13%. Mais de 70% destes óbitos foram registrados em países de média ou baixa renda, segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS). No Brasil, as estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCa) para 2008 e 2009 é de 466.730 novos casos, sendo pele, próstata, pulmão, mama e colo de útero os de maior incidência. A notícia boa é que mudanças nos hábitos previnem a maioria dos tumores. Além disso, o diagnóstico precoce e a atitude positiva — como no caso do Vice-Presidente José Alencar, que sofre sarcoma, doença que ataca vários órgãos — em relação à doença melhora muito o prognóstico.

Acreditar que o câncer é uma sentença de morte, destino e que nada se pode fazer a respeito são os principais obstáculos ao tratamento. Outro é pensar que ele só acontece com os outros. Segundo a americana Alessandra Durstine, vice-presidente dos Programas Regionais e diretora para América Latina da American Cancer Society, esses mitos criam medos, reduzem a esperança e conferem poder a certos pontos de vista.

Esses comportamentos diante do câncer pioram a situação, principalmente na América Latina, onde a doença é a segunda causa de morte. A Sociedade Americana contra o Câncer estima que mais de 50% dos novos casos e das mortes pela doença no mundo podem ser prevenidas. E a OMS estima que uma terça parte de todos os cânceres são curáveis com diagnóstico precoce e tratamento adequado. Além disso, o uso de novas tecnologias tem ajudado a aumentar em 70% os índices de sobrevivência de crianças com câncer nos países ricos.

— Nos EUA, 70% das pessoas diagnosticadas com câncer sobrevivem. Na América Latina este índice é de 13%. Estima-se que dos 7,6 milhões de óbitos globais por câncer em 2005, mais de 70% ocorreram em países pobres e em desenvolvimento. O diagnóstico precoce permite a sobrevivência em cinco anos de 93% dos casos — diz Alessandra.

Hábitos mais saudáveis previnem a doença

Ela reconhece que os custos do tratamento do câncer são altos, e na América Latina há poucos recursos. Sem falar que as discussões com os governos para investir nessa área são difíceis. Por exemplo, Alessandra afirma que há genéricos de má qualidade.

— Já ouvi histórias de pacientes submetidos à quimioterapia que dizem não sentir qualquer efeito colateral, que o cabelo não cai. São pessoas que recebem drogas de má qualidade. Há fraudes no tratamento de cânceres na América Latina. Muitos pacientes sofrem com a falta de cuidados paliativos, inclusive de morfina — acrescenta.

O avanço do câncer é mais rápido em comunidades pobres, segundo Alessandra. Por isso, diz, um dos piores mitos é pensar que esta doença é destino.

— É uma percepção errada, a visão fatalista. Pelo menos 26,2% (1,5 milhão ao ano) dos casos estão associados a doenças infecciosas, completamente prevenível, como HPV, o papiloma vírus humano, responsável por câncer cervical — alerta.

O exame preventivo é gratuito em postos de saúde e mesmo assim muitas mulheres de regiões mais carentes não têm acesso. Há ainda casos de maridos que impedem que as suas mulheres procurem o ginecologista. E muitas com diagnóstico não seguem à risca o tratamento adequado por falta de orientação médica. Este tipo de tumor mata mulheres em plena idade reprodutiva.

Já os maus hábitos alimentares estão relacionados a 20% dos diagnósticos em países em desenvolvimento. Já se sabe que a obesidade é um fator chave para o câncer de mama e o tumor cérvico-uterino. Portanto, pelo menos 56% dos casos da doença podem ser evitados.

— Contra o câncer de colo de útero há duas vacinas disponíveis, mas são caras. Poderiam fazer diferença e salvar vidas em regiões como nordeste do Brasil e sul do México. Já o câncer de estômago muitas vezes é decorrente de infecção pela bactéria Helicobacter pylori.

O mesmo vale para o câncer de pulmão. O fumo causa diretamente 10% dos casos. As taxas de tabagismo entre os adultos são mais altas entre os homens do que nas mulheres, mas esta diferença desaparece entre fumadores mais jovens. O número de vítimas do tabaco é cada vez maior e este hábito matou cem milhões de pessoas no século XX. Atualmente são 5,4 milhões de mortes a cada ano. Para 2030 a estimativa é de oito milhões anuais: — A pessoa com câncer não deve pensar que está só. Em 2002 havia mais de 24,6 milhões de sobreviventes desta doença no mundo.

A mídia tem grande responsabilidade na divulgação correta da prevenção e do tratamento. O problema é que muitas vezes praticamente reproduz releases da indústria farmacêutica. Outro problema são sites com informações de fontes pouco confiáveis.

Apoio da família facilita a luta contra o tumor

Daniel Herchenhorn, chefe da Oncologia Clínica do INCa, lembra que as pessoas tendem a falar de câncer como uma única doença, mas cada tipo de tumor tem características, prognóstico e tratamentos diferentes.

Alguns são mais ricos em vasos sanguíneos, o que facilita sua proliferação. Além de cirurgia, radioterapia e quimioterapia existem medicamentos que atuam contra o estímulo da célula tumoral à formação de novos vasos sanguíneos, essenciais ao fornecimento de nutrientes para o seu crescimento (a angiogênese). Há ainda os anticorpos monoclonais, que atuam como “mísseis teleguiados”, atingindo apenas as células doentes, preservando a saudáveis.

— Cada tipo de câncer deve ser analisado de forma diferente. No câncer de próstata, por exemplo, é preciso levar em conta vários dados, como o índice de classificação do tumor dado pela patologia (quanto maior o número, mais agressivo), valor do PSA (o antígeno marcador de tumor de próstata) e a velocidade que este PSA vem subindo. E se o paciente for operado, os achados na patologia também são importantes no tratamento — diz Herchenhorn, médico da Clínica Oncologistas Associados.

Para o câncer de mama, ele diz que já existem marcadores que indicam qual é o tratamento mais adequado. No câncer de intestino, pesquisas estão ajudando a saber se um determinado medicamento pode atuar melhor ou não. Herchenhorn lembra que a lutra contra o câncer é complexa, e mesmo drogas modernas, de ação mais específica, têm efeitos colaterais indesejáveis:

— Daí a importância de buscar o diagnóstico precoce por meio de exames preventivos.

E no caso de confirmação, deve-se procurar equipe médica capacitada. A participação da família é essencial no tratamento.

O oncologista Antônio Carlos Buzaid, diretor executivo do Centro de Oncologia do Hospital Sírio Libanês, acrescenta que quando o câncer está localizado as chances de cura são grandes. Mas na doença avançada, isto é, com metástase, os avanços são poucos e a equipe pode, no máximo, melhorar a qualidade de vida do indivíduo. Ele afirma que o médico deve ser otimista, mas com uma postura realista, e traçar com o paciente e a família as estratégias contra o tumor. Estas mudam no decorrer da doença.

— Negar a doença não ajuda no tratamento.

As pessoas que assumem uma atitude mais positiva e lutam com doença, como o Vice-Presidente José Alencar, tendem a ter um melhor resultado.

O que é

É o nome de um grupo de mais de cem doenças. O câncer começa quando mutações genéticas levam a uma produção anormal de substâncias que estimulam o crescimento celular desordenado e a formação de vasos sanguíneos no tumor, destruindo tecidos próximos, podendo se espalhar (metástase). Quanto mais precocemente o câncer é detectado, melhor o prognóstico.

Os tipos Sarcoma: São tumores que começam nos ossos, músculos, tendões, vasos sangüíneos entre outros tecidos. Este é o caso do vice-presidente José Alencar.

Carcinoma: Quando o câncer começa na pele, na mucosa, no tubo digestivo ou numa glândula, na mama ou na próstata.

Leucemia: Produz células brancas em excesso, superpovoando a medula óssea, reduzindo o número de células saudáveis.

Linfoma: Começa a partir de danos no DNA dos linfócitos, uma das células brancas do sangue, responsáveis pela defesa do corpo.

Melanoma: É formado por células que produzem melanina, a responsável pela cor da pele, do cabelo e da íris dos olhos.

Mieloma: Ataca as células plasmáticas e leva à produção em excesso de anticorpos anormais, que se acumulam no sangue ou na urina.

Neoplasia hematológica: Tem origem nas células sanguíneas. Pode se espalhar para qualquer lugar.

Tumor maligno sólido: Corresponde à maioria dos casos. Ele se forma em determinadas partes do corpo, cresce e pode migrar para outros órgãos.

Desenvolvimento

No início a célula alterada pode ser destruída pelo sistema imunológico ou permanecer latente. Com a multiplicação e o contato constante com a substância cancerígena, a célula adquire características de malignidade, como capacidade de se fixar em outros órgãos, dando início à metástase.

Sinais de alerta: perda de peso anemia cansaço alterações do apetite dificuldade de engolir alimentos rouquidão persistente mudanças de cor e tamanho de pintas verrugas ou sinais na pele feridas que não cicatrizam aumento dos gânglios (ínguas) caroços ou áreas endurecidas nos seios, na língua e nos lábios sangramento sem explicação pelos orifícios mudança de tamanho ou consistência dos testículos coceira, corrimento e sangramento vaginal sangue nas fezes e alterações dos hábitos urinários e intestinal

ESTÁGIO 1 – O câncer está localizado no órgão de origem e pode ser mais facilmente curado.

ESTÁGIO 2 – Avança para fora do órgão, mas se mantém próximo a ele. Ainda pode ser curado.

ESTÁGIO 3 – Está disseminado regionalmente e atravessa vários tecidos, podendo atingir gânglios na área do tumor. Também pode ser curado, mas há maior recidiva.

ESTÁGIO 4 – O câncer já se espalhou por vários órgãos e raramente é curado.
Autor: Antônio Marinho
OBID Fonte: O Globo