Tráfico impulsiona internações de jovens

O número de adolescentes infratores internados nas unidades da Fundação Casa (antiga Febem) na região de Ribeirão Preto cresceu 30,2% nos últimos três anos. A alta é impulsionada principalmente pelo tráfico de drogas. É o que revela levantamento feito pelo órgão, a pedido da Folha, com base no total de garotos que estão nas três unidades de Ribeirão e nas de Franca, Araraquara e Taquaritinga, entre 2006 e o ano passado.

O retorno financeiro rápido e o menor risco, se comparado a outros crimes, estão entre as razões que atraem o jovem ao tráfico, segundo especialistas.

Dos tipos de crimes que mais levam os jovens à internação, o tráfico foi o único que cresceu. Em 2006, 25,1% dos adolescentes estavam internados por vender drogas. No fim do ano passado, o número saltou para 34,7%, do total de 435 internos na região -em 2006, eram 334 adolescentes.

O tráfico conseguiu envolver ao longo dos três anos mais adolescentes, por exemplo, do que roubo ou furto. Em 2006, 43,1% dos jovens foram internados por causa de roubo, contra 39,1% no ano passado. Em números absolutos, o roubo ainda responde pela maioria dos internados, mas o tráfico hoje quase alcança esse patamar. Em 2006, 149 garotos foram privados da liberdade por cauda do roubo e 94, pelo tráfico. No ano passado, eram 177 por roubo e 151 por tráfico.

Consideradas só as unidades de Ribeirão, também o tráfico é o que mais avança entre os adolescentes. O crime respondia por 25,4% em 2006, contra 38% no ano passado. O volume total de infratores cresceu em Ribeirão Preto mesmo depois da inauguração de mais duas unidades da Fundação Casa na região -a de Taquaritinga, em 2006, e a de Franca, no ano seguinte.

De acordo com o diretor regional da fundação, Roberto Damásio, a alta das internações em geral nos últimos anos é resultado da descentralização que trouxe à região os adolescentes que estavam internados em São Paulo. Na opinião de Damásio, o aumento de internações por tráfico é resultado do avanço da droga na sociedade. “A atração provocada pela droga ocorre porque ele não precisa se expor tanto e usar violência e o retorno é mais fácil.” O diretor regional afirma, ainda, que traficar também torna-se um meio de ser aceito no grupo.

Na opinião do psicólogo Sergio Kodato, do Observatório de Violência da USP (Universidade de São Paulo) de Ribeirão Preto, o tráfico torna-se um mercado ilícito em potencial não só pelo consumo de drogas, mas pelo desemprego. “Não se cria oportunidades de trabalho ao jovem. E aquela fatia que não acompanha a escola começa a consumir drogas e depois cai no tráfico.” Segundo Kodato, o perfil do jovem tem mudado, envolvendo a classe média. “Temos as drogas sintéticas, consumidas em raves. O pequeno traficante está hoje também entre jovens de classe média e alta.”

Thiago (nome fictício), 18, disse que gostaria hoje de trocar o poder que conquistou mesmo que fosse para voltar a ser engraxate. Há seis meses, está internado após ter sido flagrado com 500g de maconha.
Autor: Juliana Coissi – Folha Ribeirão
OBID Fonte: Folha de São Paulo