Entrevista com Dra. Maria Odete Simão – O que é a Intervenção Breve?

1. O que é a Intervenção Breve?

Intervenção breve é uma modalidade de atendimento com tempo limitado, cujo foco é a mudança de comportamento do paciente. No processo utilizado com usuários de álcool e drogas são estabelecidas algumas etapas, entre elas: avaliação do problema (triagem), devolutiva (feedback), estabelecimento de metas, discussão de prós e contras do uso, aconselhamento e desenvolvimento da auto-eficácia do paciente. No nosso estudo utilizamos o “Brief Alcohol Screening and Intervention for College Students – BASICS (DIMEFF et al., 1999). Trata-se de uma técnica desenvolvida pelo grupo dirigido pelo Prof. G. Alan Marlatt, da Universidade de Washington especificamente para estudantes universitários que bebem muito e consomem álcool de maneira nociva. Usa a abordagem de redução de danos, na qual a meta primária é fazer o aluno reduzir comportamentos de risco e os efeitos prejudiciais da bebida. Diferente, portanto, de programas que tem como único objetivo a abstinência da substância, o que seria ideal, porém raramente possível. O objetivo é incentivar a pessoa a atingir, primeiramente, as metas mais próximas e, depois, as mais distantes ou difíceis de serem alcançadas. Valendo-se de princípios básicos da análise de comportamento, o terapeuta reforça aproximações sucessivas ao novo comportamento (no caso, beber menos, mais devagar, com o estômago cheio, com menos embriaguez), visando à diminuição dos riscos. O Método BASICS é conduzido em duas sessões de 50 minutos: na primeira estima-se o padrão de consumo de bebidas alcoólicas, suas conseqüências negativas e os comportamentos de risco devido ao uso de álcool. Em seguida são fornecidas orientações, informação a respeito dos problemas relacionados ao abuso de bebidas alcoólicas e como evitá-los. Na segunda, é feita uma reavaliação do padrão de uso de álcool anteriormente referido pelo aluno, das mudanças ocorridas, e são reforçadas as orientações iniciais.

2.Como evidenciado por um artigo de sua autoria, intitulado “Prevention of risky drinking among students at a Brazilian university”, entre estudantes universitários, após um intervalo de 24 meses, a intervenção breve reduziu a prevalência de problemas relacionados ao uso de álcool per se. Pensando nisso, a Sra., acredita que a adoção de estratégias de redução de danos possam alcançar resultados melhores que estratégias que pregam diretamente pela abstinência?

Abordagens que apresentem aos indivíduos a possibilidade de fazer consumo de bebidas alcoólicas de forma moderada ou com pouco risco me parecem mais realistas nos dias de hoje do que propor a abstinência, quando tratamos de uma população que faz apenas uso abusivo de bebidas alcoólicas. No entanto, quando tratamos de dependentes é necessário discutir e trabalhar pela abstinência. Outro aspecto importante é que evidências sugerem que intervenções iniciadas precocemente podem retardar o acesso à bebida e/ou permitir um uso mais moderado e responsável. No caso de universitários, a abordagem antes do ingresso na universidade visa desencorajá-los ao consumo excessivo (de risco) típico deste período. Já durante o curso, o enfoque seria em métodos e medidas de prevenção que atuem também em mudanças ambientais que contribuam para diminuir, principalmente, o acesso fácil à bebida e ampliem situações e possibilidades de obter diversão sem álcool ou em que o mesmo não seja necessariamente o passaporte para tal. Quando apresentamos as estratégias que pregam diretamente e somente a abstinência, a receptividade é muito menor para não dizer quase nula. Isto porque o contexto do próprio ingresso na universidade é celebrado por um “ritual de passagem” geralmente ligado ao consumo de bebidas alcoólicas – para pertencer é necessário consumir. Nesse sentido, a orientação pelo beber menos, com quantidades precisas do que é muito, é a melhor estratégia para diminuir os danos causados pela bebida entre jovens.

3. Os estudantes universitários submetidos à intervenção breve, no final do estudo acima mencionado, ainda apresentavam consumo de álcool superior a estudantes que não bebiam de forma arriscada. Como a Sra. acredita que os bons resultados alcançados pela intervenção breve possam ser mantidos ao longo do tempo?

Isso aconteceu em todos os lugares onde estudos semelhantes foram feitos. Se a redução é em torno de 20 -25% é bom. No entanto, sabemos que, para que os resultados obtidos com o trabalho possam realmente surtir o efeito desejado, ou serem melhores, é necessário e fundamental que a universidade adote uma política ampla de prevenção ao uso nocivo de bebidas alcoólicas que abranja toda a sua comunidade (alunos, funcionários e professores). Essa proposta também se aplica às escolas de ensino fundamental e médio, no trabalho e na sociedade em geral.

4. O beber de risco é mais prevalente entre estudantes universitários da área de Biológicas. A Sra. acredita que esse consumo possa vir a afetar negativamente a qualidade dos serviços prestados por esses profissionais em formação?

Independentemente da área de formação, o estudante que faz uso excessivo de bebidas alcoólicas durante a graduação o faz em um contexto específico, em que as responsabilidades vão mudando até a formatura. Algumas pesquisas apontam que com o decorrer do tempo, o amadurecimento e as próprias exigências da profissão contribuem para que o consumo diminua ou até cesse.
Fonte:CISA – Centro de Informações Sobre Saúde e Álcool