Bombados e bravos

Anabolizantes apreendidos no DF: venda deveria ser feita apenas com receita, mas descontrole é geral

Impotência, calvície, tumores no fígado e problemas do coração não são os únicos malefícios da utilização de anabolizantes por pessoas sadias. Pesquisa inédita realizada na Universidade de São Paulo (USP) mostra que os usuários de esteroides correm grande risco de se tornarem pessoas agressivas e impulsivas. O estudo detectou que a “bomba” causa alterações cerebrais drásticas, reduzindo a quantidade de proteínas que funcionam como neuroreceptores de serotonina, substância relacionada às emoções. Dois grupos de camundongos foram utilizados como cobaias no experimento.

O primeiro grupo, formado por 10 animais, tomou injeções do anabolizante nandrolona, mais conhecido no mercado por deca-durabolin, por 28 dias. Outros 10 camundongos receberam placebo (injeções sem qualquer produto real) para servirem de controle. Além de terem ficado mais pesados, os roedores anabolizados mostraram alterações consideráveis em testes comportamentais. Um deles é o labirinto em cruz elevado, que analisa a ansiedade e o medo. “A tendência dos animais que receberam o esteroide foi explorar mais as hastes da cruz que têm paredes e, portanto, oferecem alguma proteção”, afirma Silvana Chiavegatto, professora do Instituto de Ciências Biomédicas da USP que orientou a pesquisa.

Um outro teste muito importante, de acordo com ela, é chamado de residente-intruso. Consiste em colocar outro animal junto do roedor para analisar o nível de agressividade e impulsividade. “É normal no camundongo esse sentimento de territorialidade. Se fica muito tempo sozinho dentro de uma gaiola, ele se sente dono do local. Esse modelo é utilizado para verificar em quanto tempo ele ataca o intruso”, explica Silvana. No caso dos anabolizados, a média de tempo para iniciarem a briga foi de 400 segundos, enquanto o outro grupo demorou 700 segundos.

Ataque

Cerca de 75% dos camundongos que receberam a injeção de esteroides atacaram o intruso nos primeiros 15 minutos. No outro grupo, o índice foi de 30%. “A agressividade verificada por todos os testes que fizemos é do tipo impulsiva, está relacionada a atos praticados sem muita racionalidade”, destaca Silvana. De acordo com ela, o tal comportamento está ligado a uma quantidade reduzida de proteínas que funcionam dentro do cérebro como receptores de serotonina, já identificada pela ciência como uma substância ligada estreitamente ao controle das emoções.

“Quando esses receptores não existem, a pessoa pode até ter um nível adequado de serotonina, mas ela não será transmitida entre os neurônios”, explica a professora. A queda no nível de sete proteínas que funcionam como receptores variou entre 37% e 66% no cérebro dos camundongos anabolizados, em relação ao grupo controle. As regiões analisadas da massa cerebral foram o hipocampo, hipotálamo, córtex pré-frontal e amígdala. Essas duas últimas relacionam-se diretamente com comportamentos inapropriados e controle das emoções.

Semelhanças

Segundo Silvana, os camundongos dão um bom indício do que ocorre com humanos. “Ambos têm sistemas emocionais semelhantes. Os medicamentos para uso psiquiátrico são inclusive testados primeiro em roedores antes de passarem para a fase clínica de pesquisa”, ressalta Silvana. Para a professora, o experimento mostra que os usuários de anabolizantes atribuem erroneamente uma desinibição social ao fato de estarem se sentindo melhor com o próprio corpo.

“Ou seja, enquanto eles pensam que ficaram mais corajosos, impulsivos e desembaraçados por conta do aumento da autoestima em função da massa muscular que ganharam, cientificamente podemos pensar que o comportamento é um reflexo químico da droga que eles estão usando. Muita gente relata mesmo que, assim que começa a tomar esteroides, se sente o dono do mundo”, afirma Silvana.

A professora afirma que o próximo passo será verificar a permanência das alterações da nandrolona nos neuroreceptores do usuário. “Queremos saber se, uma vez administrado o esteroide, o cérebro adquire as transformações ou, quando para de receber a substância, ele volta a ser o que era antes”, explica Silvana. Na opinião dela, é mais provável que as mudanças se mantenham apenas no período em que a pessoa faz uso do anabolizante. “Trabalho com essa hipótese devido à plasticidade do cérebro, sua capacidade de se adaptar”, diz.

A agressividade verificada por todos os testes que fizemos é do tipo impulsiva, está relacionada a atos praticados sem muita racionalidade.

O número

75% dos camundongos que receberam injeções de esteroides atacaram, nos primeiros 15 minutos, intrusos colocados nas gaiolas (contra 30% no grupo sem o anabolizante)

Leia um tira-dúvidas completo sobre anabolizantes

Substitutos da testosterona

Os anabolizantes são drogas fabricadas para substituírem a testosterona, hormônio masculino produzido pelos testículos. A substância provoca o crescimento dos músculos, por conta do efeito anabólico, e o desenvolvimento de características masculinas como pelos, barba, voz grossa. São usados como medicamentos para tratamento de pacientes que não produzem quantidade suficiente de testosterona. Há anabolizantes na forma de comprimidos, cápsulas ou injeções intramusculares.

Pesquisa realizada em 2005 pela Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad) nas 108 maiores cidades brasileiras mostrou que 1% da população já fez uso da substância. Embora não sejam considerados psicotrópicos, os anabolizantes entraram no levantamento nacional, o mais recente que existe sobre o tema, devido à grande utilização inadequada no país. O estudo da Senad mostrou também que o consumidor preferencial do esteroide é homem com idade entre 18 e 34 anos. O mais comum entre os usuários é o deca-durabolin.

O uso dessas drogas para fins estéticos ou para ganhar força acarreta problemas como impotência, dor ao urinar, calvície, crescimento irreversível das mamas, paralisação definitiva da fase de crescimento, acne, hipertensão, problemas na coagulação do sangue e no fígado. Atletas, treinadores físicos e médicos concordam que os esteroides aumentam significativamente a massa muscular, força e resistência. Mas há divergências sobre uma possível melhora da capacidade cardiovascular, agilidade ou destreza.

Para comprar os anabolizantes, é preciso ter receita médica. Mas muitas pessoas — inclusive pela internet — comercializam o produto ilegalmente. Há também casos de médicos que receitam a droga a pessoas sadias. Pesquisas recentes mostraram que muitos suplementos alimentares contêm anabolizantes, embora essa informação não conste no rótulo. Um levantamento do Instituto Adolpho Lutz, ligado à Secretaria de Saúde de São Paulo, revelou que 25% das 11 marcas disponíveis na cidade tinham as substâncias.
Autor: Renata Mariz
OBID Fonte: Correio Braziliense