Fumante passivo sofre como o ativo

Em casa ou no trabalho, na rua ou na balada. Não importa. Onde existe ao menos uma pessoa relaxada entre tragadas e baforadas, alguém estará importunado entre tossidas e falta de ar. Essa é a rotina da convivência entre dependentes do cigarro com os não fumanrtes, chamados de fumantes passivos, que, segundo estudo da Secretaria de Estado da Saúde, inalam a mesma quantidade de monóxido de carbono.

O mais alarmante nos dados, divulgados ontem, é a quantidade de toxinas absorvidas pelas vias respiratórias de quem inala a fumaça de forma involuntária, maior, em alguns casos, do que de muitos fumantes propriamente ditos. Dos 1.310 avaliados, por meio de exame feito com auxílio de um monoxímetro, equipamento que mede o nível de monóxido de carbono no organismo, 35,9% das pessoas expostas regularmente à fumaça do tabaco apresentaram concentrações da toxina compatíveis com as de fumantes.

Entre as pessoas observadas, 18,32% tiveram resultados semelhantes ao dos chamados “fumantes leves”, que consomem menos de um maço de cigarros ao dia – com 20 unidades. Mais preocupação ainda causa o índice de 15,27% dos avaliados, que acumulam no organismo quantidade de toxina semelhante a de fumantes que “queimam” dois maços por dia.

Pouco mais de 2% indicam níveis compatíveis aos dos chamados “fumantes pesados”, cujos pulmões são pulverizados, diariamente, por mais de 40 cigarros. “Esses dados são alarmantes e procedem”, atesta Luciana de Oliveira Martins, coordenadora do Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD) de Bauru.

Ela, que já recebeu dados de fumantes passivos, em outras localidades, que chegaram a desenvolver câncer, acentua que inaladores involuntários estão tão vulneráveis às doenças ocasionadas pelo tabagismo quanto aos fumantes ativos. “Fumante passivo é todo o indivíduo que convive, mora, trabalha, enfim, convive diariamente com fumantes e estão expostos aos mesmos riscos, independentemente do volume de fumaça inalada”, orienta a coordenadora.

Ela alerta para o grande número de crianças expostas às toxinas expelidas pelas baforadas de adultos fumantes e, conseqüentemente, vítimas de moléstias respiratórias. “Temos informações do serviço de saúde que a exposição de crianças à fumaça do cigarro, principalmente por pais fumantes, implica em infecções nas vias aéreas”, especifica.

Assustadores, os índices, de acordo com a Secretaria de Saúde, podem ser ainda piores. “Aqueles que não tiveram alteração no nível de monóxido de carbono podem ter realizado o teste após ficarem um longo período sem inalar a fumaça do cigarro dos outros”, alerta Luizemir Lago, do Centro de Referência em Álcool, Tabaco e outras drogas (Catrod), órgão vinculado à Secretaria de Estado da Saúde, por meio da assessoria de imprensa da pasta.

Serviço

Detalhes sobre o tratamento do tabagismo no programa do Caps em Bauru pelo telefone (14) 3227-3287. O Caps AD fica na rua Cussy Júnior, 12-27.

Luta

O ato de largar o vício de fumar, na maioria das vezes, mantido durante anos, é uma tarefa difícil e, em muitos casos, como o dos assistidos pelo Caps, requer medicação. Poucos conseguem parar apenas na base da força de vontade, que é o incentivo de Danilo Ramos Ferreira. “Fiquei sem fumar um dia porque não tive dinheiro para comprar e senti vergonha de pedir cigarro. Passei um, dois, três, quatro, cinco dias sem fumar e vi que eu não tinha dependência e sim ‘sem vergonhice’ (sic) mesmo”, descontrai.

Contudo, nem sempre é assim. Ouvida ontem pelo JC, uma pessoa que deseja, mas não consegue parar, admitiu que, mesmo aconselhada por familiares, que não fumam, ainda dá suas “pitadas”, ainda que longe dos olhos – e narizes – dos parentes. “Saio de casa, vou embaixo de uma árvore, e acendo um cigarro. Mesmo assim diminui”, diz. “É muito difícil, parece que falta um pedaço da gente”, confessa.

No bolso

Além do Ministério da Saúde, a Receita Federal também adverte: Fumar causa danos à “saúde” financeira. A partir do mês que vem, passa a vigorar o aumento da alíquota do Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para cigarros. No varejo, a alíquota, de acordo com o órgão federal, passará de, aproximadamente, 6% para 9,8%. Com isso, a expectativa da receita, para este ano, é de um reforço de R$ 415 milhões em seus cofres. Em 2010, a arrecadação será de R$ 790 milhões.
Autor: Luiz Beltramin
OBID Fonte: Jornal da Cidade