Combinação (bem) perigosa

Mas para quem faz um tratamento a longo prazo, fica difícil cumprir essa regra. Muitos pacientes valem-se do pensamento de que “uma vez só não faz mal a ninguém”, burlando as recomendações médicas, e, mais de uma vez tomam taças de vinho ou uns copinhos de cerveja. Aparentemente, esses deslizes não têm muitas consequências. Mas especialistas alertam para os males que a soma do álcool com antidepressivos, ou ansiolíticos, podem causar. A lista de problemas vai desde a amnésia até o coma profundo.

O presidente da Sociedade Pernambucana de Psiquiatria, Antônio Peregrino, explica que o uso do álcool associado a antidepressivos, ou ansiolíticos, potencializa a ação do medicamento e os efeitos colaterais variam, dependendo da droga utilizada e do organismo de cada pessoa. “O paciente pode ficar muito sedado e bater o carro, queimar-se no fogão, ter automatismo, sair andando sem rumo, não lembrar de nada que fez. A mistura do benzodiazepínico (ansiolítico) com álcool pode deixar o usuário confuso. Em casos extremos, pode gerar coma. Isso depende da quantidade do remédio ingerido ou da sensibilidade de cada um”, detalha o médico.

Durante um tratamento contra depressão, Roberta (nome fictício), 22 anos, confessa que ingeriu álcool pelo menos duas vezes. Na época, a estudante fazia tratamento com fluoxetina e tomava dois comprimidos do antidepressivo pela manhã. Ela conta que sempre que bebia no dia em que tinha tomado o remédio, sentia-se desatenta e indisposta. “Fiquei sonolenta, meio fora do ar também. Tinha consciência, mas os reflexos estavam lentos. Bateu um medo e não bebi mais durante o tratamento”, diz Roberta. Assustada, a jovem narrou o acontecido ao psiquiatra, que havia orientado a paciente a não beber. A médica disse que poderia ter sido mais grave, pois o álcool também deprime, e Roberta poderia ter tido reação ainda pior diante de seu histórico.

Em momentos críticos de tristeza, a economista Kátia Rodrigues, 54 anos, também já sentiu vontade de parar com tudo. Esse sentimento mudou desde que a pílula da felicidade, como é conhecida a fluoxetina, começou a fazer parte de seu cotidiano, há cinco anos. “Meu humor sempre foi bom. Mas eu tinha momentos de depressão. Se eu fico sem o remédio, dou beliscão até em azulejo”, conta. Kátia toma a medicação seguindo prescrição médica.

Desde que começou o tratamento, só nos primeiros dois meses e meio, ela ficou sem tomar qualquer bebida alcoólica. Conta que costumava tomar uma cerveja, no máximo duas, mas que hoje é comum beber vinho nos finais de semana. “Sinto que fico mais acelerada quando bebo. Ultimamente, acho que estou muito esquecida. Estou tendo amnésia em alguns dias. Eu costumava ter uma ótima memória”, descreve Kátia, e explica que ainda não sabe dizer se esses lapsos de memória têm necessariamente a ver com o uso do medicamento somado à bebida alcoólica.

Psiquiatria adota postura mais flexível

A dificuldade dos pacientes em permanecer mais de seis meses sem ingerir bebidas alcoólicas não é desprezada pelos psiquiatras.

Antonio Peregrino diz que, há até pouco tempo, a recomendação era não beber em hipótese alguma. Mas já existe uma maior flexibilidade no caso exclusivo do antidepressivo, pois os ansiolíticos oferecem mais perigos. “A depressão e os transtornos de ansiedade são tratamentos longos. Se eu digo aos pacientes que eles vão passar dois ou três anos tomando antidepressivos, sei que os pacientes bebem e não me contam”, afirma o médico.

Peregrino diz ainda que a medicina tentou fazer um day off (um feriado da droga) para os pacientes não tomarem o remédio e poderem beber. Só que não deu certo porque as pessoas exageravam. “Hoje a recomendação é diferente, mais flexível. Pedimos para os pacientes que tomam antidepressivo evitarem a bebida. Mas se forem beber, que seja em quantidade pequena e nos avise”, orienta o psiquiatra. Porém o especialista alerta para que nos primeiros dois meses do início do tratamento, não seja feito o uso de bebida alcoólica nenhuma. Por conta da capacidade que o álcool tem de deprimir. “Depois que o paciente já está mais estável, podemos negociar doses baixas de álcool”, convence o presidente da Sociedade Pernambucana de Psiquiatria.

Ele destaca ainda que a flexibilidade também depende do quadro do paciente. “Procuramos coletar a história dele para fazer a individualização”, pondera o médico. Ele explica que o álcool gera euforia de curto prazo, mas tem ação depressora de médio e longo prazo. Os sintomas ligados à ressaca – dor de cabeça, abatimento moral, baixa auto-estima, irritabilidade – acontecem por causa dessa reação.

Reações adversas

A ingestão de bebidas alcóolicas associada ao tratamento com antidepressivos e ansiolíticos (benzodiazepínicos*) potencializam os efeitos desses medicamentos. E podem causar os seguintes sintomas:

Sedação – O paciente pode ficar com o raciocínio lento Perda de coordenação motora – A pessoa pode cair ou derrubar coisas

Amnésia – Frequentemente as pessoas não lembram do que fizeram

Sonolência – Pode-se chegar a dormir subtamente

* Os médicos se preocupam mais com o uso de benzodiazepínicos, pois podem causar dependência e os efeitos colaterais são mais graves se associados ao álcool. Esses medicamentos comprometem a memória se utilizados por longo tempo (mais de seis meses). Os especialistas alertam para o perigo de utilizar qualquer tranquilizante sem prescrição médica.

Fonte: Sociedade Pernambucana de Psiquiatria
Autor: Marta Telles
OBID Fonte: Diário de Pernambuco