Obrigado por não fumar

Ele não só desencadeia uma série de doenças no organismo, como câncer, bronquite, enfisema, aneurismas, úlcera e trombose, como pode levar à morte de um indivíduo. Ainda assim muitas pessoas o têm como fonte de prazer e satisfação. O número de adeptos ao cigarro é tão alto no Brasil – 18% da população com mais de 15 anos fuma – que o país ocupa o quarto lugar na produção do tabaco, atrás apenas da China, Estados Unidos e Índia, além de ser o primeiro na exportação mundial desde 1993, de acordo com os números do Instituto Nacional de Câncer (Inca).

Em Betim o número de fumantes é ainda maior. Segundo pesquisa realizada no município pela Organização Mundial de Saúde (OMS), em julho de 2008, de 430 mil habitantes 20% fuma. A dependência a essa e a outras drogas levou a última administração a implantar na cidade a primeira Superintendência Antidrogas do país, que passou a oferecer atendimento gratuito ao cidadão por meio de práticas de prevenção e tratamento com atendimento psicológico, individual e em grupo, à família, atividades educativas nas escolas, além do Núcleo de Atenção Integral ao Dependente Químico (NAI).

A pesquisa da OMS também constatou que da população fumante de Betim 80% deseja parar com o hábito. Com o propósito de ajudar essas pessoas, foi criado na cidade em 2009 o G Trata, um grupo de seis psicólogas especializadas no tratamento do tabagismo, da dependência química e de outras compulsões. A equipe desenvolve atendimento individual, atividades terapêuticas para grupos específicos em horáros diferenciados, além de prestar consultoria a empresas, escolas, igrejas e outras instituições.

“Os números em Betim são assustadores. Queremos estabelecer parcerias com órgãos públicos e com convênios de saúde, para levar palestras, implantar e supervisionar projetos e profissionais”, explica uma das profissionais envolvidas, Adriana Francisca Dutra Moura. Para ela, no estado da dependência à droga a alternativa de mudança é a associação com outras pessoas que estão enfrentando o mesmo problema”, diz a psicóloga.

Vício vai doer ainda mais no bolso

Os fumantes têm cada vez menos espaço e a cada dia mais motivos para deixar o vício. Depois da lei federal 9.294, de 2004, que proíbe o uso de cigarros e de qualquer outro produto fumígero em locais coletivos, agora o governo quer aumentar os impostos que incidem sobre o produto. A iniciativa visa compensar a redução do Imposto sobre Produto Industrializado (IPI) nos setores de construção civil e automotivo, com a qual o governo deixa de arrecadar R$1, 5 bilhão.

Com o aumento da Contribuição para o Programa de Integração Social (PIS), da Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (Cofins) e do IPI, os cigarros mais populares vão ficar 20% mais caros. Já no caso dos mais sofisticados, o reajuste pode chegar a 25%. “Por meio dos recursos provenientes desse desestímulo ao consumo de cigarro vamos arrecadar e pagar a conta das outras medidas que têm o objetivo de aquecer a economia e manter os empregos”, diz o ministro da Fazenda, Guido Mantega.

De acordo com a Câmara Setorial do Tabaco, no Brasil são vendidos cerca de 103 bilhões de cigarros por ano. A instituição acredita que o aumento de impostos sobre o cigarro vai estimular a ilegalidade. Já as entidades de combate ao fumo preveem redução nas vendas. “O Banco Mundial ressalta que o aumento de preço é a principal medida isolada contra o tabagismo, pois inibe diretamente o consumo”, diz a diretora da Aliança de Controle do Tabagismo, Paula Johns. Embora o preço do cigarro brasileiro seja um dos mais baixos do mundo – em média US$ 0,46 – , estudos indicam que em países de baixa e média rendas, como o Brasil, um aumento na ordem de 10% é capaz de reduzir o consumo de produtos derivados do tabaco em cerca de 8%.

Na prática, de acordo com o Ministério da Saúde, seria dizer que para um consumidor que fume um maço de cigarros por dia, um aumento de 10% no preço de venda reduziria seu consumo, a curto prazo, em, no mínimo, um maço (20 cigarros) e, no máximo, 1,7 maços (34 cigarros). A longo prazo o consumidor reduziria o consumo para 4,6 maços (86 cigarros).

Tratamento trabalha autoestima

Segundo outra psicóloga do G Trata, Carla Cinara Viggiano, o tratamento da dependência à nicotina dura cerca de três meses. Nos primeiros encontros é feito um diagnóstico para se conhecer o nível de dependência do fumante. A próxima etapa é a de apoio ao dia de parar de fumar. Em seguida, ocorre a manutenção da abstinência. A equipe conta com o apoio de um médico clínico, nos casos em que o fumante precisa do suporte de remédio ou do adesivo e da goma de nicotina. “Trabalhamos sempre com a motivação e a autoestima do indivíduo porque a dependência pode ter um componente genético, mas sempre tem um fundo emocional, em que o cigarro acaba entrando no lugar de algo que se perdeu”, assegura a profissional.

Funcionários do Salão do Encontro, entidade beneficente que funciona no bairro Santa Lúcia, participaram no ano passado de grupos anti-tabagismo realizados pela Superintendência Antidrogas em parceria com a unidade básica de saúde local. A funcionária do salão conta que de 30 pessoas que fizeram parte do grupo de tratamento cerca de 70% conseguiu parar de fumar. O vigia Cezário de Araújo, 58, é um deles. Ele fumou dois maços de cigarro por dia durante 40 anos. “Consegui parar, e sem remédios, apenas com minha força de vontade e com a ajuda da equipe de psicólogos.

Minha vida é outra. Hoje bebo mais água, e a comida tem outro sabor para mim”, declara. A educadora Roseli de Oliveira, 40, também fez o tratamento, parou de fumar por três meses, mas voltou. Segundo ela, com a mudança da administração municipal, os grupos foram interrompidos, o que dificulta o processo de manutenção do tratamento. “A prefeitura tem que retomar iniciativas como essa. Queria fazer um novo tratamento”, revela.

A Superintendência Antidrogas informa que irá voltar a realizar os encontros do programa.
Autor: Seção Cidades
OBID Fonte: O Tempo Bertim