Centros de recuperação para dependentes de crack são insuficientes

Minas Gerais possui 132 centros de recuperação de dependentes químicos vinculados ao Governo do Estado. Número insuficiente, tendo em vista a extensão territorial e a população, conforme admite a coordenadora estadual de Saúde Mental, Marta Elizabete de Souza. Segundo ela, seriam necessárias 300 unidades de tratamento, “e o Governo mineiro tem se esforçado para expandir a rede de atendimento”.

No ano passado, o Estado aplicou, conforme a coordenadora, R$ 28 milhões, repassados pelo Governo federal, sem incluir os recursos destinados a hospitais que internam pacientes dependentes de drogas. Para cobrir o déficit de clínicas públicas, os usuários têm de recorrer a estabelecimentos privados ou pertencentes a entidades filantrópicas ou religiosas.

O ex-dependente de drogas Luiz Carlos Ferreira Franklin se tornou pastor de uma igreja evangélica e é responsável pela direção do Centro Assistencial Renascer, em Três Pontas, no Sul de Minas. Na clínica, mais de uma dezena de homens de diversas cidades da região estão, há meses, longe das drogas e das bebidas alcoólicas. Luiz Carlos conta que começou a usar drogas no interior de São Paulo, onde o vício o levou à prática de crimes. Como parte de sua recuperação, se mudou para Minas e, agora, casado, com dois filhos, dedica seu tempo para a assistência a dependentes químicos na clínica.

Ele confirma o que o HOJE EM DIA constatou percorrendo 3 mil quilômetros pela zona rural do Estado. “Você pode não acreditar, mas soubemos que em caminhões de transporte de bóias-frias, homens e mulheres combinam horário e lugar para fumar maconha e crack nos cafezais. A existência das drogas, principalmente do crack, é uma realidade na zona rural e a situação está piorando. Acho que um dos motivos que leva um trabalhador rural a usar drogas é a revolta pelas dificuldades que enfrenta no trabalho e na vida. A gente pode ver isso nos olhos dessas pessoas”, diz.

Luiz Carlos também afirma que ocorre uma transformação no campo, do ponto de vista do comportamento das pessoas. “É comum encontrarmos, na zona rural, adolescentes com tatuagens pelo corpo, piercings e brincos, numa clara demonstração de imitação dos costumes das cidades grandes. Mas o pior é que esses adolescentes têm poucas chances de trabalho, de estudo, e de lazer nos lugares onde vivem. Por isso, o assédio das drogas é um perigo muito grande”, frisa.

Essa vulnerabilidade dos jovens é percebida também pelo funcionário público Marco Aurélio de Freitas, outro ex-dependente que chegou a trocar um automóvel por drogas, consumidas em 48 horas. Hoje, recuperado, ele presta serviço de divulgação dos riscos das drogas em palestras para crianças em escolas no município de Elói Mendes, no Sul de Minas. Ele viveu seis anos nas ruas de São Paulo, como usuário, e atualmente auxilia a Secretaria Municipal de Saúde local com trabalho voluntário. “Os adolescentes que moram na zona rural, na maioria, têm menos informações, e nos finais de semana vão para as cidades para encontros com amigos e participar de festas. “Toda família rural tem uma ou mais pessoas com o vício da bebida alcoólica. Para muitos, principalmente adolescentes, esse é o começo do caminho para as drogas, porque esses jovens são muito desprotegidos. O grande perigo acontece durante festas, como raves, onde rola a droga. Aqui, apesar de ser cidade pequena, a polícia já apreendeu até ecstasy”, conta.

Em Barbacena, na Região Central do Estado, o psiquiatra José Carlos Filho, fundador e presidente da Clínica Mantiqueira, destinada à recuperação de usuários de drogas, localizada na zona rural do município, confirma que o uso do crack, por ser uma droga aparentemente barata, está se alastrando no interior. O pior é que na zona rural, as famílias têm menor poder econômico e a situação está cada vez mais grave. Mas a política de internação para recuperação mantida pelo Estado é deficiente, e tenho notícias de que muitas clínicas estão fechando ou passando por dificuldades financeiras. Aqui, na Clínica Mantiqueira, temos diversos internos, vários deles da zona rural, mas as dificuldades são muitas e temo pelo futuro da casa”, alerta.

Desagregação familiar por causa da droga

Para o psiquiatra Helian Nunes, da Diretoria Científica da Associação Mineira de Psiquiatria, o envolvimento de adolescentes e trabalhadores rurais com as drogas pode ser explicado pelas facilidades crescentes de acesso, por causa do surgimento do fenômeno do tráfico nessas comunidades. Para ele, o avanço do consumo de crack e maconha nas pequenas comunidades “pode contribuir para a desagregação familiar”. Ele lembra que “jovens sem uma estrutura de convívio e de suporte adequados podem ser mais vulneráveis”. “Há associação já descrita entre o uso de drogas e a separação dos pais, filhos fora de casa e com relacionamento péssimo ou ruim com pai ou mãe, violência doméstica, pais liberais, presença de familiar usuário de drogas ou álcool, maus-tratos e ausência de prática religiosa. Porém, são necessárias mais pesquisas sobre o tema, principalmente no Brasil, pois a maioria é proveniente de outros países”, afirma o psiquiatra.

Helian Nunes revela que o envolvimento de adolescentes que moram em pequenas comunidades com as substâncias psicoativas se explica, do ponto de vista psiquiátrico, por vários fatores, desde o acesso facilitado – com a expansão do tráfico- à falta de suporte social, acesso a boas escolas, áreas de lazer, esporte e convívio. “Podemos lembrar, também, a falta de oportunidades para empregos e cursos profissionalizantes, falta de informações, glamour da mídia em torno das substâncias psicoativas e até o não acesso ao tratamento de transtornos mentais (jovens com depressão ou ansiedades podem começar a usar drogas para aliviar os sintomas)”, diz.

O psiquiatra afirma que “a mídia, muitas vezes, passa uma imagem glamourizada do uso dessas substâncias e não investe na conscientização e educação da população em relação ao álcool e ao tabaco”. Ele ressalta que as drogas, na maioria das vezes, provocam, além do prazer, diversos problemas de saúde ocupacionais e sociais. “O consumo de substâncias psicoativas sempre existiu na humanidade. Porém, situações ou fatores que facilitem ou incentivem o consumo devem ser melhor pesquisados. Devem ser propostas intervenções adequadas a cada contexto individual ou social. Não podemos responsabilizar só o individuo pelo consumo, mas políticas públicas bem planejadas podem agir em pontos cruciais, vide a experiência recente da Lei Seca”, salienta.

O patologista Marcelo Caliari, chefe do Departamento de Patologia do Instituto de Ciências Biológicas da UFMG e coordenador do “Projeto de extensão ao uso de drogas” do Museu de Ciências Morfológicas da instituição, diz que os efeitos do crack são devastadores. “Alguns dos efeitos comportamentais do crack são indiferença à dor e ao cansaço, ansiedade, taquicardia, agressividade (gera violência), insônia, psicose paranoica e extrema labilidade emocional (comportamento imprevisível). A longo prazo, irá produzir depressão, fadiga e sonolência. Além disso, o crack pode provocar hemorragia nasal, perda do olfato e perfuração do septo nasal.

Outros efeitos são a cardiomiopatia dilatada, que leva à insuficiência cardíaca, hipertensão, isquemia e infarto do miocárdio, acidente vascular cerebral (AVC), hemorragias no sistema nervoso central, necrose do músculo esquelético, convulsões, parada cardiorrespiratória, anorexia e perda de peso”, relata.

De acordo com Caliari, na zona rural, dispondo de poucos recursos médicos, as lesões e doenças provocadas pelo crack podem se agravar, levando à morte. O dependente só poderá alcançar a recuperação para se livrar do vício se realmente tiver força de vontade. Segundo o patologista, o uso contínuo dessa droga pode provocar transtornos que afetam a relação do usuário com o mundo à sua volta, sobretudo na escola, gerando desinteresse pelas coisas da vida real, como trabalho, estudo e família.

Autoridades desconhecem avanço na roça

O secretário nacional de Políticas sobre Drogas, general Paulo Roberto Uchôa, admite que não existem no Brasil estudos a respeito da expansão do uso do crack. Questionado sobre o avanço dessa droga em direção às pequenas comunidades rurais e seu uso por lavradores, mais uma vez reconhece não ter dados a respeito. No entanto, justificou o problema enfrentado no país. “O aumento do uso de cocaína e de crack no Brasil se deve ao aumento da oferta e, consequentemente, da produção, principalmente na Bolívia. Mas, no Brasil, grande parte da droga é de pasta-base, da qual os produtos de ‘segunda categoria’ (crack e merla) são fornecidas para os usuários. É muito difícil controlar a entrada de droga no país, por causa da extensão da fronteira. Temos perto de 9 mil quilômetros de fronteiras com Colômbia, Bolívia, Peru e Paraguai. Não há dúvida de que organizações criminosas manipulam essa situação. Se países com fronteiras muito menores têm dificuldade de controlar a entrada, o que dizer do Brasil? Os Estados Unidos, por exemplo, têm cerca de 3 mil quilômetros de fronteira com o México e enfrentam dificuldades”, alega.

Na avaliação do secretário, o crack não merece uma política específica de estudos, porque está incluído entre as demais drogas, como a cocaína, da qual é derivada. “Mas sabemos que se há um aumento na oferta do crack, isso se deve ao aumento da produção de cocaína. A Polícia Federal tem feito um bom trabalho de apreensões e prisões, mas essa situação vai merecer uma política de saúde. “Essas são duas, entre outras, das vertentes importantes de atuação do Governo contra as drogas. Um dos grandes problemas do Brasil é que as drogas estão presentes em outros crimes, como os tráficos de armas, de mulheres e de órgãos, a pedofilia, e muitos outros. Por isso, as drogas são responsáveis por grande parte da violência no nosso país. O que não acontece em países mais desenvolvidos”, observa.

General Uchôa aponta caminhos para, ao lado da repressão severa, melhorar as condições sociais diante do problema da expansão das drogas, principalmente do crack. Ele afirma que só o lado repressor não resolve, porque fica na consequência. “Acredito ser fundamental que os municípios implantem conselhos sobre drogas, com participação de líderes regionais e muita participação popular, inclusive de moradores das zonas rurais. A partir daí, devem existir campanhas com muitas informações para a população, principalmente para crianças. O importante é que a mesma linguagem usada pelos criminosos se volte contra eles, para uma política de prevenção e recuperação”, avalia.

A expansão do crack no país mereceu dezenas de debates durante o congresso “Crack – últimos 20 anos, 1º Fórum Internacional”, realizado nos dias 26 e 27 do mês passado, no Teatro Marcos Lindenberg, na Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), com cobertura do HOJE EM DIA. Ficou comprovado nas mesas redondas que o avanço da droga no interior dos estados ainda não tem a devida atenção.

Essa realidade é desconhecida por médicos, pesquisadores e interessados no tema das drogas, que não têm dados a respeito. Os temas propostos e apresentados abordaram temas médicos ligados ao uso do crack, à atualidade do tráfico e dos usuários em São Paulo e outros grandes centros urbanos, além da assistência aos usuários. O congresso teve participação de psiquiatras, psicólogos e especialistas de diversos estados brasileiros e países da América Latina.

Os debatedores concordaram que um dos grandes riscos de disseminar doenças envolvendo os usuários é o uso indiscriminados de cachimbos, latas de cervejas, copos e garrafas de plástico, que são improvisados para fumar o crack e utilizados por várias pessoas ao mesmo tempo.

A psiquiatra da Unifesp Solange Nappo ressaltou o envolvimento de mulheres com a droga, muitas delas prostituídas a ponto de trocarem o corpo por pedras de crack.

O professor de Psiquiatria da Unifesp Ronaldo Laranjeira destacou a morte de muitos usuários por assassinato. Ele afirmou que um estudo que acompanhou 131 usuários apontou que 10% haviam sido assassinados por policiais ou traficantes. “O mundo do crack é muito violento, e os danos cerebrais tornam a vida do usuário bastante limitada”, disse.

Os pesquisadores abordaram também a falta de qualificação policial em vários estados para trabalhar com usuários de drogas, conhecidos como “craqueiros”. Os debatedores levantaram a necessidade da preparação de médicos e atendentes de saúde, além de familiares e amigos de viciados, para melhorar o nível de comunicação com os dependentes, com vistas na recuperação. Para a maioria dos participantes do congresso, as pessoas não gostam de falar sobre o assunto, o que limita o acesso de usuários à recuperação.

Para a pesquisadora e médica Zila Sanchez, do Departamento de Psicobiologia da Unifesp, “muitos usuários estão conseguindo a reabilitação total pela religião”. Ela destacou que evangélicos, espíritas e católicos têm conseguido bons resultados na recuperação de drogados, proporcionando a participação em atividades lúdicas e religiosas, ao lado de centenas de pessoas, permitindo contatos sociais. “Grande parte dos usuários é de pessoas carentes e capazes de reabilitação”, disse.
Autor: Gabi Santos
OBID Fonte: Hoje em Dia